Entrevista: «A obesidade animal não é uma questão estética, é uma questão de saúde»

Inatividade, problemas nas articulações e sedentarismo são apenas algumas das consequências do excesso de peso e da obesidade animal. A médica veterinária Joana Pereira falou com a revista DNLife sobre este tema, alertando os tutores para o problema que prejudica e encurta a vida dos seus animais de companhia.

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia de Shuttersotck e Nuno Pinto Fernandes/Global Imagens

A obesidade e o excesso de peso têm-se revelado um problema crescente entre os animais domésticos. Os tutores, na maioria das vezes, ignoram os sinais e não se apercebem que os seus cães ou gatos estão cada vez mais sedentários, sem energia e com graves problemas de saúde.

Alguns dos erros mais frequentes estão relacionados com a falta de perceção do que é mais saudável para os animais, os extras que são adicionados à dieta do animal (como aquele resto de comida que preparou para o jantar) e a inatividade física.

Joana Pereira, médica veterinária do Departamento de Comunicação Científica da Royal Canin Portugal, falou com a Life sobre este problema, no âmbito do projeto de Programas de Perda e Controlo de Peso que pretende certificar 150 clínicas e hospitais veterinários até ao final do ano.

«Para os animais perderem peso tem de haver uma mudança de hábitos. Nomeadamente, os hábitos de recompensa»

Uma tarefa difícil para os especialistas que, segundo Joana Pereira, na grande maioria das vezes encontram tutores que não se apercebem do excesso de peso dos seus animais e não mostra grande preocupação em melhorar o seu quotidiano.

«A obesidade está associada ao aparecimento precoce de uma série de problemas de saúde crónicos – que na sua maioria não tem cura. O que acontece é que aqueles animais vão viver menos tempo e enquanto cá estão têm pior qualidade de vida», alerta a especialista.

Numa altura em que as preocupações alimentares e físicas dos humanos têm aumentado, Joana Pereira, explica, em entrevista, que esta ainda não é uma realidade no que diz respeito aos animais de companhia.

Quais são os erros mais frequentes entre os cuidadores?
O primeiro erro acho que é falta de perceção do que é saudável e não é. Há muito a noção que o animal gordinho – género gato Garfield – é que é fofinho e bonito. Mas, por detrás desse aspeto, estão uma série de problemas de saúde que podem aparecer e que retiram qualidade de vida ao animal e encurtam a longevidade. Isto porque a obesidade está associada ao aparecimento precoce de problemas de saúde crónicos – que na sua maioria não têm cura. O que acontece é que aqueles animais vão viver menos tempo e enquanto cá estão têm pior qualidade de vida.

Que tipos de problemas podem surgir com o excesso de peso?
Muitas vezes têm também doenças crónicas associadas a dor, como é o caso da osteoartrite: problemas nas articulações. Há animais com três ou quatro anos que se movimentam como se tivessem oito ou nove. Como são absolutamente estoicos em relação à dor, os tutores acabam por nem se aperceber. Só se apercebem quando nós conseguimos que eles percam um bocadinho de peso e de repente os animais «ganharam pilhas novas».

Qual a melhor forma de perceber se o animal tem excesso de peso?
É através do índice de condição corporal associado ao peso. Há uma tabela em que conseguimos avaliar alguns sinais: se consegue ver a cintura, apalpar as costelas ou se tem depósitos de gordura ao nível da base da cauda. A partir daí consigo calcular quantas calorias aquele animal deve ingerir para perder peso e passar um plano alimentar que promova uma perda de peso saudável, que faça a promoção de perda de gordura mas não de massa muscular.

E o que devem os tutores fazer efetivamente?
Os alimentos para perda de peso muitas vezes têm até o dobro da quantidade de determinados micronutrientes para prevenir carências nutricionais. Mas não se trata só da dieta. Tem de haver uma mudança de hábitos. Nomeadamente, os hábitos de recompensa. Tem de haver um grau de honestidade muito grande entre o veterinário e o tutor.

E fazer exercício?
Sim, deve-se implementar também um programa de exercícios que faça sentido, quer para a idade, quer para a condição corporal, quer para os outros problemas de saúde que o animal possa ter. Tem de ser algo muito adaptado, exequível e que se reflita na melhoria da qualidade de vida dos animais. Muito mais que os números da balança, o importante é que aquele animal, no longo prazo, tenha uma boa qualidade de vida.

Quando animal chega ao peso ideal, os tutores devem voltar a alterar a alimentação?
Aquilo que a Organização Mundial de Pequenos Animais preconiza é que se mantenha esta alimentação de perda de peso mas numa quantidade maior na fase de manutenção. Isto porque se considera ser uma doença crónica, incurável. Sabe-se também que cerca de 50 a 60 por cento dos animais que voltam à dieta habitual depois de atingirem o peso ideal voltam a ganhar peso. E isso dá origem também a frustração por parte dos tutores.

Quanto tempo é que pode demorar, em média, até os animais chegarem ao peso ideal?
Geralmente os animais demoram cerca de quatro meses a regressar ao seu peso ideal, mas há outros que podem demorar seis meses ou até um ano. O erro número um dos cuidadores é não medirem as quantidades de alimento que dão aos seus animais. Se deixar um alimento à discrição a um cão ou um gato ele vai comer até rebentar. E assim ganha-se peso, obviamente.

Porque estão os animais tão expostos ao excesso de peso?
A obesidade acontece porque há um desequilíbrio entre a quantidade de calorias que o animal ingere e a quantidade que gasta. Isto acontece quando os animais têm acesso a alimento em excesso ou quando o alimento que é demasiado calórico para o estilo de vida que leva. Há também uma grande tendência para termos um estilo de vida cada vez mais sedentário e isso reflete-se nos nossos animais de estimação. Os gatos, por exemplo, que estão dentro de casa em exclusivo mexem-se muito pouco. Aquilo que fazem para se divertir é comer, lamber e dormir. Portanto, é essencial controlar as quantidades

Que snacks e extras é que se pode dar?
Snacks
mais saudáveis. Os gatos acham muita graça a courgette crua ou cenoura.

Se não comer esses tais snacks o animal pode ficar triste?
Não. Um animal que está habituado a que, quando os donos estão à mesa, ir pedir comida é normal que estranhe quando deixam de ter esse comportamento. Mas não quer dizer que lhe fizesse bem. É por isso que a reeducação está relacionada com todos os hábitos, não tem só a ver com a alimentação.

Qual é o panorama em relação à obesidade animal neste momento?
Estima-se que um universo de 1.9 milhões de cães e 1.2 milhões de gatos existam cerca de 35 por cento de gatos com excesso de peso ou obesos e cerca de 55 por cento em relação aos cães. É um número muito elevado. E o problema é que esta tendência tem vindo a aumentar. Isto acaba por ser um problema e uma doença de países desenvolvidos.

«É preciso alguma imaginação para que os gatos façam mais exercício»

As pessoas manifestam preocupação em relação ao peso do animal nas consultas?
A obesidade, apesar de ser bastante frequente, raramente é motivo de consulta. O que os leva às consultas são os sintomas da obesidade. «O meu cão deixou de correr», «já não quer passear», «está mais apagado», dizem. No caso dos cães é muito mais fácil apercebermo-nos que pode estar com um problema devido aos passeios de rua. No caso dos gatos, defendem-se muito mais, são muito orgulhosos. Escondem os sintomas mas evitam fazer algumas coisas: deixam de correr atrás da bolinha, não saltam para o parapeito da janela, entre outros.

Como contornar o estilo de vida mais sedentário?
É preciso alguma imaginação para que os gatos façam mais exercício. Se a única coisa que os move é comer, pode-se arranjar por exemplo umas escadas improvisadas e colocar a comida no topo. Muitas vezes, só esse gesto representa mais 20 ou 30 por cento das calorias que eles gastavam anteriormente. E associar a isso uma dieta com menos calorias.

A preocupação com o físico, que se verifica ter vindo a aumentar nas pessoas, é transponível aos animais domésticos?
Infelizmente ainda não há essa consciencialização. E infelizmente o problema da obesidade nos animais tem vindo a aumentar, não a diminuir. É importante que as pessoas entendam que a obesidade animal não é uma questão estética. É uma questão de saúde.

O facto de nos filmes e séries os animais surgirem muitas vezes com excesso de peso, como é o caso do Garfield, influencia a forma como os tutores querem ver os seus animais?
Claro que sim. Daí que os veterinários tentem passar a ideia que gordura não é formosura. O grande problema está relacionado com o chamado «síndrome da taça vazia». Assim que se começa a ver o fundo à taça, e o gato, por exemplo, começa a miar, as pessoas ficam logo a achar que o animal está cheio de fome. E vão-lhe enchendo a taça, tendo esta que estar sempre cheia. É errado.

Que tipo de alimento se deve escolher quando na hora de comprar comida para o animal?
As perguntas que se devem fazer quando se vai escolher o alimento para o animal de estimação estão feitas e formuladas pela Associação Mundial de Clínicos de Animais de Companhia. Há três perguntas básicas que se devem fazer quando escolhe um alimento: se é seguro, se é nutritivo e se é adequado para aquele animal.