Mundial: do lado dos derrotados, como lidar com a frustração

Adeptos efusivos e beijos nas camisolas depois dos golos. Abraços e beijos espontâneos depois da confirmação da passagem à próxima fase. No entanto, há sempre o reverso da medalha, ou, leia-se, as seleções eliminadas, os adeptos frustrados e as lágrimas de desalento. Como superar a deceção da eliminação?

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia de REUTERS/Grigory Dukor

Esta quarta-feira ficou definido o último finalista do Campeonato do Mundo a decorrer na Rússia, Depois da seleção francesa ter eliminado os belgas da competição, a Croácia também celebrou a passagem à próxima fase.

No final dos 90 minutos, a história divide-se: uma das equipas festeja e a outra tem de saber lidar com a derrota. Uns choram, escondem a cara ou baixam a cabeça. Outros abraçam-se, gritam e celebram efusivamente. Como aconteceu entre uruguaios e portugueses nos oitavos-de-final da prova.

As expectativas, a defesa da pátria e a rapidez com que acontece a competição são alguns dos fatores que tornam o Mundial um palco também de deceção.

Nas bancadas, o cenário repete-se: há adeptos que começam a pensar na próxima fase e outros que regressam a casa com a chamada «azia futebolística».

As expetativas, a defesa da pátria e a rapidez com que acontece a competição são alguns dos fatores que tornam o Mundial um palco também de deceção.

Vasco Catarino Soares, psicoterapeuta e diretor da clínica Insight-Psicologia, explicou em entrevista à revista DN Life, por que ficam os atletas tão abalados. O autor do livro Exercite o Seu Cérebro esclareceu ainda de que forma os adeptos, especialmente os mais novos (e os seus pais), devem lidar com a frustração.

«é tudo demasiado rápido. Os humanos precisam de tempo para aceitar as contrariedades»

Quando as equipas são eliminadas de uma competição é normal ver-se lágrimas dos jogadores que vão regressar a casa. Este estado está relacionado com a demasiada expetativa em relação ao resultado, a descarga de energia ou somente a tristeza?
Há uma resposta global, na qual poderíamos enquadrar todas as pessoas, sejam os jogadores ou os adeptos, que é a de reagir com tristeza e frustração perante algo que se deseja bastante e não acontece (aqui podemos colocar em causa se esse desejo tem sustentabilidade ou não, mas independentemente disso é uma frustração para quem acredita). No entanto, este tipo de resposta é individual e depende em muito da estrutura psicológica de cada um: uns reagem à frustração com tristeza (e podem ou não chorar), outros com zanga (e podem procurar culpados) e outros ainda vão reagir com desportivismo (aceitando que num jogo há vencedores e vencidos).

Mas os jogadores não deveriam estar habituados a perder?
O termo profissional tem o significado psicológico de «apartado das emoções», que é algo mais racional e imune às mesmas. Na realidade, apesar de estarem habituados às derrotas, alguns jogadores choram nestes casos. Embora os casos de choro perante a eliminação sejam mais frequentes em competições internacionais do que num campeonato [que dura o ano inteiro].

«Os jogadores são preparados dar tudo pela vitória num período muito curto»

Que fatores podem influenciar a estabilidade emocional dos jogadores?
Neste tipo de competições [como o Mundial da Rússia] existem vários. Há mais pessoas à espera de um bom resultado, o jogador sente-se na pele de um defensor da pátria e são jogos de tudo ou nada. E é tudo demasiado rápido. Os humanos precisam de tempo para aceitar as contrariedades.

Como deve um profissional de futebol preparar-se emocionalmente para uma competição como esta?
Os jogadores são preparados dar tudo pela vitória num período muito curto. Este tipo de mentalização é exatamente o oposto da preparação para aceitar uma derrota e a respetiva eliminação. Facto é que aceitamos melhor algo quando lhe é retirado caráter emocional. No entanto, esta aceitação também retira a energia e carga emocional que os treinadores sabem ser um elemento motivacional fundamental e que pode fazer a diferença no jogo.

«Os que estão próximos das crianças devem ter uma reação normal, mostrando que é apenas um jogo»

Há vários jogadores que são acompanhados por psicólogos e profissionais de coaching. Esta procura é para aprenderem a estar melhor emocionalmente dentro de campo?
Tem a ver com o facto de quererem explorar as melhores formas de ultrapassar dificuldades, adversidades e dilemas pessoais (estes últimos só um psicólogo terá a formação adequada para poder ajudar).

No caso dos adeptos mais novos, como devem os familiares reagir perante a tristeza da criança (quando vê a seleção/equipa) perder?
Os que lhes estão próximos devem ter uma reação normal, mostrando que é apenas um jogo e que o desporto é para se desfrutar. Eles podem ficar tristes mas não como se o mundo e a vida fossem acabar.

É importante a noção de derrota nos mais jovens desde cedo?
É importante a noção de frustração. Saber aceitá-la, sem que isso signifique desistir. Há acontecimentos que não controlamos e de que podemos não gostar, mas sobre os quais não podemos fazer nada. Podemos falhar. Podemos não ter feito tudo ao nosso alcance. Nesses momentos vale a pena não desistir e tentar fazer melhor. Aí devemos aplicar a nossa energia.

A noção de frustração e derrota vai ajudar a criança a ser um adulto melhor

Estes momentos podem influenciá-los futuramente?
A noção de frustração e derrota – que no caso das crianças prende-se com não ter um brinquedo, não poder comer um doce ou ser proibido de brincar com o telemóvel dos pais – vai ajudar a criança a ser um adulto melhor.