12 gestos simples para salvar o planeta

Reutilizar palhinhas ou fechar a torneira ao escovar os dentes custam muito pouco a pôr em prática e são capazes de verdadeiros milagres. Estes que lhe deixamos são do livro 12 Pequenos Gestos Para Salvar o Nosso Planeta (ed. Vogais), escrito em colaboração com especialistas ambientais da World Wide Fund for Nature (WWF) e da Associação Natureza Portugal (ANP). Para tornar a nossa pegada um pouco mais ecológica.

1.º Não utilize o stand by.
Desligue os aparelhos elétricos da tomada e evite o chamado “consumo fantasma”.

2.º Torne-se verde.
Poupe água enquanto escova os dentes e toma banho.

3.º Verde é o novo preto.
Rentabilize o seu guarda-roupa.

4.º Não polua.
Caminhe, pedale ou opte por um transporte mais verde.

5.º O papel não cresce nas árvores.
Minimize os seus consumos diários e imprima apenas se necessário.

6.º Adote uma dieta mais verde.
Encha o seu prato de plantas e modere o consumo de carne.

7.º Reutilize, lave, repita.
Acabe com o desperdício diário de plástico.

8.º Seja consciente nas compras.
Pense bem antes de comprar em grande.

9.º O potencial dos vasos.
Purifique o ar que respira enchendo de plantas o escritório e a sua casa.

10.º Pegadas ecológicas na areia.
Reduza a pegada nas férias pensando noutros meios que não o avião para viajar (é dos transportes que mais poluem e afetam o clima).

11.º Compromisso com o futuro.
Utilize uma parte dos seus rendimentos para investir em projetos que ofereçam benefícios socioambientais e, ao mesmo tempo, lhe tragam bons dividendos.

12.º Não dê cabo do planeta.
Pare de encher tudo de lixo e organize uma ação de limpeza comunitária.

Pegadas (muito pouco) ecológicas

A atividade humana está a levar os ecossistemas que sustentam a Terra a limites nunca antes vistos. Só os portugueses necessitariam de pelo menos dois planetas para manterem o atual estilo de vida. Ou bem que reduzimos a nossa pegada ecológica – e a pegada de carbono dentro dela – ou corremos sérios riscos de uma nova extinção em massa.

Texto de Ana Pago

Estamos constantemente a ser bombardeados com os mesmos conselhos verdes desde que nascemos: não deixes a água a correr, usa os transportes públicos, apaga as luzes que não estiveres a utilizar. Se fosse uma cruzada pelo planeta (e até é), andaríamos por cá todos com os dentes cerrados, atentos à mínima coisa que fazemos e compramos só para reduzir a pegada de carbono. Afinal, onde devo limpar as mãos se vou à casa de banho fora de casa? Qual o impacto dos hambúrgueres que como? Será a pegada de um saco de papel menor do que a de um saco de plástico? E o que é isto da pegada, afinal?

“Tudo começou com bananas. Há uns anos fiquei intrigado ao ler Animal, Vegetal, Milagre, da bióloga Barbara Kingsolver, em que ela falava com a filha e uma amiga sobre quão más seriam as bananas por crescerem tão longe, e por a energia gasta no transporte prejudicar o ambiente”, explica o investigador e consultor inglês Mike Berners-Lee. “Cada vez mais intrigado, li Banana – O Destino do Fruto Que Mudou o Mundo, do jornalista Dan Koeppel, que me pôs a comer uma banana biológica por dia em vez das que comia antes”, conta o especialista em pegadas de carbono.

Pegada ecológica é a pressão que cada ser humano exerce sobre a natureza e necessita de reduzir com urgência para que o planeta não entre na sexta extinção em massa.

O que nos leva imediatamente aos primeiros esclarecimentos importantes: pegada ecológica é a pressão que cada ser humano exerce sobre a natureza e necessita de reduzir com urgência para que o planeta não entre na sexta extinção em massa (a única provocada pelo homem). “Em termos mais técnicos, é a quantidade de água e de terra, medida em hectares, necessária para sustentar a geração atual, tendo em conta os recursos materiais e energéticos gastos por essa população”, traduz a socióloga Ângela Morgado, diretora executiva da Associação Natureza Portugal (ANP).

Quanto à pegada de carbono, é uma componente da pegada ecológica e mede a emissão, na atmosfera, de dióxido de carbono, gás metano, óxido nitroso e outros gases de efeito estufa (o chamado carbono equivalente) por pessoa, atividade, evento, empresa, organização ou governo. Esta equivalência compara as emissões dos diversos gases de efeito estufa envolvidos com base na quantidade de dióxido de carbono que teria o mesmo potencial de aquecimento global. “Normalmente, a maior componente da pegada dos países é ao nível do carbono, já que temos uma dependência grande de tudo o que são combustíveis fósseis”, diz Ângela Morgado.

No caso de Mike Berners-Lee, ficou a remoer no peso que esse transporte teria para o ambiente: deveria trocar a base do seu pequeno-almoço por algo mais local? Foi quando se lançou a analisar o impacto de várias coisas no mundo para escrever How Bad Are Bananas? The Carbon Footprint of Everything (“Quão Más São as Bananas? A Pegada de Carbono de tudo”, da Profile Books Ltd). Descobrir que podia comê-las à vontade animou-o: “Além de se conservarem bem sem refrigeração, costumam vir de barco, com uma pegada de carbono muito mais reduzida do que o transporte por avião.”

As conclusões da WWF são perturbadoras: as nossas atividades estão a levar os ecossistemas que sustentam a Terra a limites nunca antes vistos.

Sendo certo que ninguém tem de ser o Batman para lutar pelo planeta, basta querer fazê-lo. “A pressão que temos vindo a fazer sobre a Terra é real e surpreende-nos pela negativa, mas o ambiente não é independente de nós”, confirma a responsável da ANP, Ângela Morgado. Tal como o consultor inglês estava disposto a renunciar às bananas, podemos todos adotar pequenos gestos diários que, somados, provocam um tremendo impacto.

“O que dizem os relatórios da World Wide Fund for Nature (WWF), ao analisarem de dois em dois anos a pegada de mais de 160 países, é que a humanidade deve ter um estilo de vida mais sustentável, sob pena de sofrer uma crise ecológica sem precedentes, muito pior do que qualquer crise económica”, aponta a também coordenadora da WWF Mediterrâneo em Portugal.

As conclusões são perturbadoras: as nossas atividades estão a levar os ecossistemas que sustentam a Terra a limites nunca antes vistos, com as temperaturas a aumentar devido à crescente emissão de gases de efeito estufa na atmosfera, tempestades mais intensas, danos nas colheitas e na vida selvagem, ondas de calor, subida dos níveis do mar, inundações. “Só os portugueses necessitam de dois planetas para manter o atual estilo de vida, com índices de biodiversidade baixos e o carbono a representar 57% da pegada ecológica do país”, revela Ângela Morgado.

Ter a consola de videojogos em standby o ano inteiro equivale a deixar uma luz acesa, em permanência, por igual período.

Não é como se de repente tivéssemos de abdicar da televisão ou do aquecedor em casa, nem renunciar ao micro-ondas, diz. É mais certificarmo-nos de que não deixamos o carregador de telemóvel e outros aparelhos ligados à corrente sem necessidade, quando boa parte do que podemos fazer para combater as alterações climáticas passa por poupar energia. Segundo a organização britânica Energy Saving Trust, responsável por promover a eficiência energética, o simples ato de ter a consola de videojogos em standby o ano inteiro equivale a deixar uma luz acesa, em permanência, por igual período. “As nossas escolhas podem, de facto, fazer a diferença”, reforça a responsável da ANP.

Mas atenção: eu não mudo porque alguém me obriga a fazê-lo. “Mudo por achar que devo mudar, o que significa que tem de se trabalhar a partir desse pressuposto se queremos que as pessoas modifiquem comportamentos”, defende José Palma-Oliveira, professor de Psicologia Ambiental na Universidade de Lisboa. Imagine que vai de carro para o trabalho e querem convencê-lo de que é melhor usar transportes públicos: até pode ser, mas se isso aumenta o meu stress como passageiro, então o mais racional para mim, do ponto de vista individual, é levar o carro e ir tranquilo a ouvir a minha música.”

“Muitas das atitudes nocivas para o ambiente são mais racionais individualmente, pelo que cabe-nos mostrar que se cada um assumir essas práticas todos saímos a perder”, sustenta o especialista em perceção e gestão de riscos ambientais. É aquilo que em psicologia se chama o dilema social, quando a racionalidade do comportamento individual é contraditório com a racionalidade do comportamento coletivo. “Ao nível das alterações climáticas, um grande problema na transformação de comportamentos é o facto de não se poder mudar todas as pessoas, nem todas as condutas em simultâneo”, acrescenta o investigador.

Não temos de deixar de consumir nada, nem de diabolizar os plásticos, a carne ou o que quer que seja. Mas também não podemos insistir no plástico que em dois segundos acaba na natureza.

Ainda assim, precisamos de ser ativos nas nossas escolhas do dia-a-dia, sem sentirmos que as catástrofes ambientais são irreversíveis e, portanto, nada do que fizermos terá grande impacto. “Não é de todo claro o que deve fazer um consumidor carbonoconsciente. Contudo, há pelo menos três assunções básicas para nos guiar: as alterações climáticas são um assunto sério, são causadas pelo homem e podemos fazer algo acerca disso”, desfere o consultor em pegadas de carbono Mike Berners-Lee, sempre pragmático.

A ambientalista Ângela Morgado concorda: “Não temos de deixar de consumir nada, a WWF não acredita nessa lógica de se diabolizar os plásticos, a carne ou o que quer que seja.” Tem, sim, de haver um empenho dos governos, das empresas e dos consumidores para se abolir o plástico que em dois segundos atiramos para a natureza, por exemplo. Ou para não comer carne sete dias por semana, duas vezes por dia. Ou para não nos pormos a comprar roupa e outros produtos à toa, ainda que sejam de madeira ou papel: se não tiverem a certificação de que não agrediram o ambiente em nenhum ponto da cadeia, são maus na mesma. “É isto ou o planeta acaba doente”, diz. E nós com ele.