Se não puderem mandar recado a dizer que os amam, digam vocês

«O pior era ouvir os telemóveis a tocar nos bolsos dos mortos.» A frase é de Esperanza Aguirre, política espanhola, presidente da comunidade de Madrid à data dos atentados de 2004 na capital espanhola. «As equipas de socorro não conseguiram tirar aquele som das cabeças.» E eu, que não estava lá para ouvir aquela polifonia do desespero das famílias, também não consegui tirar isto da cabeça. A frase. A imagem de centenas, milhares de pessoas agarradas a um aparelho no outro extremo da linha, na esperança de ouvir um «Ola», um «Estoy bien». Houve pelo menos 191 respostas destas que não foram ouvidas. Para além das centenas de feridos levados para hospitais, que não estavam em condições para atender telefonemas. Para além dos muitos aparelhos destruídos nas explosões e nas fugas desesperadas daquele inferno de vidros e ferros torcidos, que não estavam em condições de tocar.

Nunca mais me esqueci dessa ideia. Telemóveis a chamar nos bolsos de pessoas mortas, que minutos antes respiravam e se despediram de mulheres, maridos, filhos, pais.

Escrevo isto na terça-feira. Hoje voltei a pensar nisso. Já tinha pensado em 2005, depois dos atentados no metro de Londres, em 2011 depois de Oslo e Utoya, em 2013, depois da Maratona de Boston, no ano passado, em janeiro e novembro, depois da redação do Charlie Hebdo e do Bataclan e do Stade de France e das esplanadas de Paris. Hoje, 22 de março, a ideia voltou, assim que vi, ainda em casa, os rodapés dos canais de informação a dar conta das explosões no aeroporto e no metro de Bruxelas. Voltei a pensar em tanta gente em lágrimas e sufoco, presa a um som de chamada sem que ninguém atenda do outro lado.

Os outros não. Nas notícias de Bombaim, Peshawar, Mossul, Bagdad, Gaza. Até de Istambul. Nesses casos esta ideia não me vem à cabeça. Longe da vista, do coração, da geografia de proximidade e afetos, estes locais estão longe. Não são sítios que eu frequente, não são locais onde a minha gente mais próxima passe com frequência, não são destinos preferenciais para pensar que fulano ou beltrano anda por lá agora. E como tal não penso. E isso só me deixa envergonhado. Incomodado. Os mortos dos outros, dos que estão longe, não valem menos do que os que estão aqui ao lado. E quem os chora, quem espera que eles atendam o telefone enquanto imagina o pior ao ver as notícias na televisão, não é diferente dos que choram as vítimas deste lado do mundo. Não sofre menos. Não sofre diferente.

O Sting, esse guilty pleasure musical que continuo a ter entre os velhos CD lá de casa, tem uma canção muito boa sobre isso. Russians, do álbum The Dream of the Blue Turtles, fala sobre o facto de os russos também amarem os seus filhos e do medo de os perder graças ao mortífero brinquedo atómico inventado pelo senhor Oppenheimer. Mas em 1985, quatro anos antes da queda do Muro de Berlim, nos últimos cartuchos da Guerra Fria, a canção do inglês falava sobre bombas de urânio e plutónio e países em guerra. Não sobre loucos que se sentam ao nosso lado no autocarro com um colete ou uma mochila cheia de explosivos.

«Viver cada dia como se fosse o último» deve ser o mais estafado dos clichés sobre o tempo e o uso que fazemos dele – ou do que nos resta. E despedirmo-nos todos os dias de quem amamos com a mesma sofreguidão que teríamos se estivéssemos a partir para a guerra não faz sentido. O que fazer, então, perante a ameaça de que um dia o céu nos caia em cima da cabeça sob a forma de estilhaço ou de que as pessoas que queremos proteger não atendam o telefone quando olhamos em choque para o rodapé das televisões e recriamos o percurso que fazem para o trabalho? Não ceder ao medo é uma boa resposta – mas é também um cliché. Amá-los mais. Com mais qualidade. Com mais força. Essa pode ser uma opção.

[Publicado originalmente na edição de 27 de março de 2016]