15 anos depois da morte de Fehér: o que sabemos sobre a morte súbita em Portugal

Esta sexta-feira assinalam-se 15 anos da morte de Miklós Fehér. Os casos de morte súbita continuam a acontecer em grande escala em Portugal. A taxa de sobrevivência é fraca no país e, de acordo com Luís Baquero, especialista do Hospital da Cruz Vermelha entrevistado pela DN Life, existe ainda muito a fazer para que se evite a morte «repentina e sem sintomas».

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia de José Carmo

Perto da linha de meio campo, aos 90 minutos de jogo, enquanto o Benfica vencia o Vitória de Guimarães por 1-0, Miklós Fehér, o número 29 do Benfica, ficou estendido no chão. De braços abertos, de costas no relvado. Miguel ajoelhou-se, Tiago levou as mãos à cabeça, Simão Sabrosa chorava desesperadamente. As imagens são fortes e inesquecíveis.

25 de janeiro marca os 15 anos da morte do avançado húngaro. A camisola 29 foi retirada do plantel dos encarnados desde então. O relatório médico apontou para uma cardiomiopatia hipertrófica, relacionado com o músculo do coração, que levou à chamada morte súbita.

A história de Fehér «acordou» instituições desportivas, governantes e profissionais de saúde, mas, de acordo com Luís Baquero, coordenador clínico de cirurgia cardiotorácica do Hospital da Cruz Vermelha e membro da iniciativa Salvar Mais Vidas, considera que existem ainda muito a fazer para diminuir o número de casos de morte súbita.

«São necessários mais desfibrilhadores, nomeadamente em locais com maiores aglomerados de pessoas, como hipermercados ou campos de futebol», aponta o médico

«É fundamental informar e educar a população. Todos deveríamos ter a obrigação de proteger quem nos rodeia. Tendo formação, logo em idades mais jovens, consegue-se ter uma população mais capacitada e, num curto espaço de tempo, entre cinco a 10 anos, consegue reunir várias pessoas que conhecem o suporte básico de vida e conseguem, por exemplo, fazer reanimação cardíaca», explica o especialista.

Além disso, aclara, são necessários mais desfibrilhadores, «nomeadamente em locais com maiores aglomerados de pessoas, como hipermercados ou campos de futebol».

Duas práticas que, segundo Baquero, já existem na Dinamarca. «O suporte básico de vida é ensinado nas escolas e existe um desfibrilhador para cada mil habitantes. Em Portugal existem dois para dez mil». «Desta forma, conseguiram aumentar a taxa de sobrevivência à morte súbita – está neste momento nos 40 por cento, enquanto em Portugal é apenas de 3 por cento», acrescenta.

O médico do Hospital Cruz Vermelha lembra que esta a morte súbita acontece «sem causa aparente, sem sintomas e de forma repentina», sendo que em alguns casos podem surgir «queixas vagas», como dor no peito, falta de ar, tonturas e, em alguns casos, cefaleias.

«Os bebés devem ter a boca para cima quando dormem, não devem ter muitas almofadas e roupa solta no berço, o quarto não deve estar muito aquecido»

«Ninguém está livre de ter morte súbita, apesar de haver um padrão estudado». A morte súbita do latente, que acontece em bebés até ao primeiro ano de vida, «as causas não são conhecidas», mas existem «quatro medidas a que os pais devem estar especialmente atentos», diz Luís Baquero.

«Os bebés devem ter a boca para cima quando dormem, não devem ter muitas almofadas e roupa solta no berço, o quarto não deve estar muito aquecido, sendo a temperatura ideal os 21º e, finalmente, evitar fumar perto da criança».

Até aos 35 anos, os casos de morte súbita podem associar-se «a doenças do coração, relacionadas com o músculo ou com o ritmo cardíaco». «Depois dos 35 anos, a morte súbita pode ser provocada pela doença coronária», acrescenta o especialista em cirurgia cardiotorácica.

Em relação à prevenção, Luís Baquero considera fundamental a realização de rastreios ao coração, que verifiquem o funcionamento do coração, bem como a atenção a alguns fatores de risco. São eles:

  • Hipertensão arterial
  • Colesterol
  • Diabetes
  • Tabagismo
  • Obesidade
  • Sedentarismo
  • Stress

Morte súbita em Portugal

Luís Baquero diz que não existem muito dados em Portugal sobre esta situação clínica. Estima-se que morram 10 mil pessoas por ano no país devido à morte súbita. Por sua vez, a taxa de sobrevivência em Portugal também é bastante baixa (cerca de 3 por cento).

O médico considera que a falta de conhecimento da população em relação à forma de atuar e o acesso aos desfibrilhadores – ainda em número reduzido – são alguns dos motivos que tornam a taxa de sobrevivência tão reduzida.

O Movimento Salvar Mais Vidas, atento a esta temática, tem como objetivo «aumentar a taxa de sobrevivência para 30 por cento até 2030», bem como, «promover campanhas de sensibilização sobre prevenção e combate à morte súbita».


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