Jogo da Baleia Azul e Papagaios de Papel: Orientações para pais

Parece que a Baleia Azul voltou a dar à costa. Há algum tempo que não ouvíamos falar deste jogo quando, sem que nada o fizesse prever, temos novamente a suspeita de que possa estar relacionado com a queda recente de uma criança de 9 anos de um segundo andar.

Para quem ainda não sabe, este jogo online desafia os participantes a desenvolverem diversas tarefas, habitualmente diárias, que lhes são ordenadas pelos chamados «curadores» (ou administradores), sendo que algumas delas envolvem a auto-mutilação. A última tarefa implica cometer o suicídio.

O termo «Baleia Azul» relaciona-se com o fenómeno das baleias encalhadas que, embora acabem por morrer, acredita-se que não sejam suicidárias.

Este é um tema que, naturalmente, nos preocupa a todos e, em particular, quem tem filhos. Pior, filhos que podem ser de qualquer idade.

Mas o que tem este jogo, ou outros similares, de tão atraente ao ponto de levar crianças e adolescentes a seguir as instruções que lhes são dadas, adoptando mesmo comportamentos de risco? No limite, a exibirem comportamentos de auto-mutilação ou a tentar (ou concretizar…) o suicídio?

Será que estas crianças e adolescentes não têm capacidade de análise crítica, que lhes permita pensar de forma lógica e racional? Será que não percebem a situação em que se deixam envolver?

Tentemos, então, responder a estas e outras questões.

Estes jogos são sentidos como um desafio, o que, por si só, é extremamente aliciante para crianças e adolescentes. E refiro «desafio» na medida em que questionam as regras instituídas, contrariam aquilo que é expectável e confrontam os valores morais. Só por isto, já se assumem como muito atraentes, especialmente para os adolescentes, tantas vezes à procura de um sentido para a sua vida, questionando tudo e todos. Um processo que faz parte dessa fase do desenvolvimento, é certo, e que não tem de ser necessariamente patológico.

Por outro lado, para muitas crianças e adolescentes, este tipo de desafio permite que se sintam o centro das atenções. Tudo gira em seu redor e são eles as personagens principais deste enredo. Além disso, não podemos esquecer o quão importante pode ser esta atenção recebida. Muitas vezes, a única que recebem. Estes jogos acabam, assim, por preencher um espaço vazio, pré-existente.

«Alguém fala comigo e importa-se com o que penso e sinto».

«Alguém com quem posso falar e que fica contente por eu fazer o que me dizem».

«Somos um grupo, todos fazemos a mesma coisa».

Estes são alguns exemplos de justificações dadas por crianças e jovens. Parecem difíceis de compreender, mas, se escutarmos com atenção, percebemos que traduzem, acima de tudo, tristeza, necessidade de atenção e de afecto. Necessidade de pertença a um grupo, com que se identifiquem, e da presença de figuras de referência.

Perante este cenário, o que podem os pais fazer?

Proibir o acesso à internet e às redes sociais revela-se impossível e seria mesmo contraproducente. Quanto mais se proíbe, mais desejado se torna.

Mais do que proibir, importa prevenir, e a base desta prevenção assenta em três grandes pilares: comunicação, confiança e supervisão. Pois vejamos.

COMUNICAÇÃO

Uma comunicação clara e coerente é a chave para um padrão relacional ajustado. Seja entre adultos ou entre pais e filhos. E comunicar desta forma implica ter tempo para conversar, mas, acima de tudo, escutar. Escutar para além do que é dito.

Dar espaço para que a criança expresse o que pensa e sente. Os seus desejos e receios. O que a deixa alegre ou triste, zangada ou com medo. E validar estas emoções, mesmo as negativas, ajudando-a a encontrar estratégias adequadas para lidar com elas.

Ajudar a criança a resolver problemas: a identificar o problema, as diversas alternativas de reposta e as vantagens e desvantagens de cada uma; a saber antecipar consequências e a escolher e implementar a alternativa mais vantajosa.

CONFIANÇA

Confiar implica, antes de mais, sentir que existe um vínculo afectivo. E esta é uma das principais funções da família – estabelecer com as crianças laços afectivos e sentimentos de pertença.

As crianças precisam confiar para depois conseguirem explorar o mundo que as rodeia. Sem medo e com segurança. Porque sentem que têm a sua base segura, onde podem voltar sempre que for necessário.

E essa base segura é também aquela a quem podem confidenciar as suas emoções mais negativas, sabendo que ali encontrarão uma resposta. É a essa base segura que pedimos ajuda quando precisamos.

SUPERVISÃO

Por mais que se comunique de forma ajustada e exista uma relação de confiança com a criança, que deve ser fortalecida à medida que esta cresce, é imprescindível a existência de uma supervisão adequada.

  • Adequada à idade e nível de desenvolvimento da criança.
  • Adequada na medida em que não deve ser sentida como intrusiva. Mas deve existir, sim.

A Baleia Azul é apenas uma de várias formas pelas quais as crianças e jovens podem manifestar necessidades e emoções negativas.

Papagaios de papel

A protecção em relação a este ou a outros perigos online requer, da parte dos pais e de todos nós, comunidade, um olhar atento. Sem alarmismos. Basta estarmos presentes, saber comunicar, estabelecer relações de confiança e supervisionar de uma forma ajustada. Nem de mais, nem de menos.

A parentalidade pode ser comparada a um papagaio de papel. Daqueles que tentamos, tantas vezes sem sucesso, lançar no ar.

Se damos muita corda, corremos o risco de o papagaio voar e perder-se no céu.

Se damos pouca corda, corremos o risco de não levantar voo.

Um equilíbrio difícil de se conseguir.