6 mitos da saúde em que todos acreditamos (e não devíamos)

Leite de vaca faz mal. Não podemos tomar banho depois de comer. Engordar ao deixar de fumar é tão mau como o tabaco. São algumas das generalidades que se podem revelar perigosas para o nosso bem-estar, razão por que o médico António Vaz Carneiro as rebate no livro Mitos e Crenças na Saúde. Estas seis que lhe deixamos são só uma amostra das 50 que o esperam.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

TELEMÓVEL EM EXCESSO PROVOCA CANCRO NO CÉREBRO

De um ponto de vista puramente teórico o mito até tem lógica, uma vez que os telemóveis emitem um dos três tipos de radiação (radiofrequência) considerada um potencial fator de risco para o cancro cerebral, admite António Vaz Carneiro, investigador clínico e professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Porém, ao seguirem a fundo 420 095 pessoas durante 13 anos, cientistas dinamarqueses não detetaram nenhum aumento de cancros cerebrais em utilizadores intensivos, o que deita por terra a hipótese. O caso muda de figura no que diz respeito a um aumento dos acidentes de automóvel por se conduzir a falar ao telemóvel.

NÃO PODEMOS TOMAR BANHO DEPOIS DE COMER

É algo que ouvimos desde crianças, com os pais a repetirem vezes sem conta que isso nos ia parar a digestão, provocar cãibras que nos impediriam de nadar ou pior. E isto quando não existe qualquer evidência científica que sustente um aumento de complicações dentro de água após as refeições, revela o autor, sublinhando que o único fator de risco verdadeiramente comprovado é a ingestão de álcool em grandes quantidades. Certo: podem sempre acontecer coisas más, nadar bem tem que se lhe diga. “Mas as séries publicadas com análise da epidemiologia dos afogamentos nada citam de concreto em relação à ingestão prévia de comida”, diz António Vaz Carneiro.

LEITE DE VACA É PREJUDICIAL À SAÚDE

Os malefícios que lhe são atribuídos são múltiplos, assustadores e esgrimidos com violência por quem defende que beber leite de vaca aumenta o risco de cancro, diabetes, fraturas osteoporóticas, esclerose múltipla, problemas cardiovasculares e tantos outros. Contudo, revisões sistemáticas de estudos, sínteses e publicações internacionais não só concluem que o consumo regular de vários tipos de laticínios é neutro ou favorável à saúde do coração, como não se verificou um aumento da mortalidade por cancro em ambos os sexos. Já para não falar que “a eliminação de componentes da dieta pode ter consequências negativas, por fazerem falta ao desenvolvimento harmonioso nos jovens ou à manutenção de uma boa qualidade de vida nos adultos”, lembra o médico.

PASTILHAS FICAM NO ESTÔMAGO DURANTE ANOS

É mais uma pérola com que os nossos pais não se cansaram de nos bombardear, ao mesmo nível dos banhos a seguir às refeições: se por acaso tivéssemos o azar de engolir uma pastilha elástica, ela iria permanecer no estômago durante anos, sabe-se lá com que efeitos negativos. E se engolíssemos várias, então, nem pensar nisso era bom! É um facto que pastilhas são bastante artificiais, nomeadamente as resinas, gorduras e elastómeros que os sucos gástricos podem não conseguir digerir na totalidade. “No entanto, o movimentos peristálticos encarregam-se de mover a base da pastilha elástica através do estômago, do intestino delgado e depois do grosso, de maneira a que esta seja expelida nas fezes alguns dias mais tarde”, desmistifica o professor catedrático de medicina.

LARANJAS À NOITE MATAM

Bom, matar é capaz de ser um termo um bocado forte, embora toda a gente conheça o ditado que diz que a laranja de manhã é ouro, à tarde é prata e à noite mata. Na verdade, fisiologicamente falando, “não faz qualquer sentido afirmar que a altura do dia em que se come laranjas influencia o seu efeito sobre o organismo”, assegura António Vaz Carneiro. Pelo contrário: há que comê-las à vontade sempre que nos apetecer, independentemente das horas, como parte de um esquema de prevenção do risco cardiovascular e da nefrolitíase (pedras nos rins).

PESO GANHO A PARAR DE FUMAR É TÃO MAU COMO O VÍCIO

Segundo o investigador clínico, uma das consequências mais comuns de se parar de fumar é engordar um a dois quilos nas duas primeiras semanas após largar os cigarros, e mais dois ou três nos quatro a cinco meses seguintes, num total médio de cinco quilos. Nada que deva, ainda assim, demover-nos do intento de deixar o vício, sublinha: “O aumento de peso tem um impacto muito mais pequeno na saúde do que o tabagismo continuado [um fator crucial de risco cardiovascular, pulmonar e oncológico], e portanto este risco deve ser assumido sem problemas.” Em último caso, dá sempre para juntar uma dieta saudável a todo este processo.

O LIVRO

Mitos e Crenças na Saúde de António Vaz Carneiro – médico especialista em medicina interna, nefrologia e farmacologia clínica, com mais de 40 anos de experiência profissional em Portugal e no estrangeiro – recupera uma série de ideias feitas sobre a saúde que nos habituámos a ouvir desde a infância para colocá-las no seu devido lugar à luz da ciência. Ed. Livros Horizonte, 144 páginas, 13,90 euros.