9 componentes do corpo de que já não precisamos

Se alguma vez deu consigo a pensar na máquina fabulosa que é o corpo humano, e a questionar-se para que servirão certas partes como os sisos ou os mamilos masculinos, a resposta correta é: para nada.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

APÊNDICE

Toda a gente o conhece, alguns sabem que faz parte do sistema digestivo (ligado à primeira parte do intestino grosso) e uns quantos – em particular os que já o sentiram inflamado e tiveram de tirá-lo – conseguem mesmo situar o apêndice na região inferior direita da barriga. O que quase ninguém sabe, nem mesmo os cientistas, é para que serve ao certo, já que várias pesquisas sugerem que o apêndice cumpria a função de facilitar a digestão de plantas, cascas e raízes ricas em celulose que integravam a alimentação dos nossos antepassados, mas não os atuais regimes. «À medida que a nossa dieta se tornou mais variada, o apêndice perdeu a sua função», explicou à BBC Brasil a antropóloga evolucionária Dorsa Amir, do Boston College, EUA. Ainda assim, apesar de não ser considerado um órgão essencial, estudos recentes sugerem que possa contribuir para fortalecer o sistema imunitário e até funcionar como depósito de bactérias boas para o intestino.

SISOS

Quem o diz é a teoria evolutiva de Charles Darwin e os médicos dentistas em geral: os quatro dentes do siso já tiveram a sua utilidade no passado, sim, sobretudo a triturar carnes e cereais duros e crus, em mandíbulas bem maiores do que as nossas. Porém, hoje em dia não só são vestigiais, como existe menos espaço para eles na boca em resultado do crescimento do cérebro, que eliminou inclusivamente um quarto molar de que a maioria de nós nunca ouviu falar. Nos casos (bastante frequentes) em que o posicionamento dos sisos ameaça desalinhar os restantes dentes na arcada dentária, o procedimento habitual é extraí-los.

PALMAR LONGO

Comece por juntar os dedos polegar e mindinho, formando um três com os dedos: está a ver aquela saliência que se forma mesmo a meio do pulso? É o palmar longo, um músculo que se estende do punho até ao cotovelo e nem toda a gente tem, o que por si só é um bom indicador de quão desnecessário se tornou. Segundo a antropóloga Dorsa Amir, tempos houve em que foi um auxiliar precioso para o homem conseguir ter força suficiente para trepar às árvores, quando precisava de recolher alimento e escapar a predadores. No entanto, atualmente cerca de dez por cento da população já o perdeu.

TERCEIRA PÁLPEBRA

Trata-se de uma dobra de pele que apresenta semelhanças com a membrana que aves, répteis e alguns mamíferos (incluindo cães e gatos) têm em torno em torno da córnea, conjuntiva e membrana mucosa, a proteger-lhes os globos oculares de objetos estranhos e a mantê-los húmidos. No caso dos humanos, porém, não se percebe para que serve esta prega situada no canto interno dos olhos, uma vez que não temos qualquer controlo sobre ela. «A única coisa clara é que não é raro encontrá-la em primatas, pelo que possivelmente a perdemos há muito tempo com o evoluir da espécie», sugere Amir à BBC.

MAMILOS MASCULINOS

Não é que os homens alguma vez tenham precisado dos seus, verdade seja dita, uma vez que a natureza determinou caber à mulher o papel de amamentar os filhos. Ainda assim, entre a fecundação e as primeiras 6 a 8 semanas de gravidez, a morfologia do embrião é idêntica quer se trate de menino ou menina, com os genitais a passarem por um período indiferenciado em ambos os sexos. Quando a testosterona começa finalmente a intervir na formação dos órgãos sexuais masculinos, já os mamilos deles se desenvolveram.

MÚSCULO DAS ORELHAS

Não é incomum ver certos mamíferos a servirem-se dos músculos das orelhas para conseguirem movê-las, o que lhes permite detetar presas e predadores na natureza, destrinçar sons e realizar uma infinidade de outras funções que lhes garantam a sobrevivência. Os cientistas acreditam que os nossos ancestrais teriam a mesma capacidade, a avaliar pela existência de três músculos, localizados sob o couro cabeludo, que servem para mexer a parte visível das orelhas. Seja como for, atualmente são poucas as pessoas ainda capazes de controlá-los.

MÚSCULO PIRAMIDAL

O que lhe dissemos há pouco sobre o palmar longo aplica-se em grande medida a este músculo em forma de triângulo – nomeadamente a parte de haver quem já não o tenha (até 20 por cento da população mundial), embora também haja pessoas com dois. Originado na face anterior da púbis e inserido, ao nível do umbigo, na linha alba (que vai do ventre inferior até ao peito), os especialistas consideram-no vestigial na medida em que não serve para nada. Pelo contrário, quando no passado nos locomovíamos apoiados nos quatro membros, era um auxiliar precioso ao nível da mobilidade e rotação dos abdominais.

MÚSCULOS QUE ARREPIAM OS PELOS

O nome científico destes músculos ligados aos folículos capilares é complicado – arrectores pilorum –, mas a verdade é que já todos lhes sentimos os efeitos ao provocarem-nos arrepios, pele de galinha ou o que quer que queiramos chamar aos pelos do corpo todos eriçados. Para Dorsa Amir, do Boston College, o mais certo é esta função já ter sido útil para fazer os homens primitivos parecerem maiores aos olhos dos predadores, evitando que os devorassem, atacassem ou ameaçassem de algum modo. Se duas bufadelas e recorrer aos arrectores pilorum ainda hoje funciona com os gatos, imagine o tanto que podiam fazer por um homem peludo no passado.

REFLEXO PALMAR

Não é exatamente uma parte do corpo como as anteriores, antes o reflexo de agarrar com que todos os recém-nascidos vêm equipados e lhes permite segurar com força qualquer dedo que se lhes encoste às mãozinhas quando ainda mal abrem os olhos. Os cientistas calculam que nos terá sido útil nos primórdios, a avaliar pelo modo como os macacos bebés se servem dele, logo que nascem, para se manterem firmemente aninhados no corpo da mãe. Porém, ao contrário dos primatas, bebés humanos nascem imaturos e incapazes de ações simples como segurar a cabeça, o que inviabiliza essa autonomia de outras espécies.