9 sinais que o corpo dá quando o trabalho nos está a fazer mal

Não se trata apenas de não gostar do emprego que se tem, é bem mais grave do que isso. Um trabalho tóxico prejudica realmente a saúde. E fá-lo de inúmeras formas a que convém estar atento, alertam os especialistas.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

DORES MUSCULARES

É normal não gostar de toda a gente no local de trabalho, nem sequer do local em si ou do trabalho propriamente dito. O que não é normal é laborar tenso durante o tempo todo que lá passa, de maxilar cerrado, cheio de dores no corpo porque o cérebro nunca se liberta da sensação de ameaça e mantém, em permanência, a resposta física para se defender do eventual ataque iminente do chefe ou de colegas desagradáveis: adrenalina a bombar, sistema nervoso no limite, níveis elevados de cortisol (a hormona do stress) a circular no organismo. Ao estudar animais selvagens no Quénia, o cientista Robert Sapolski concluiu que as zebras vivem um stress real ao fugirem de predadores, mas desligam-no assim que escapam. Já nós ativamos a mesma resposta e fazemo-lo sem parar.

DORES DE CABEÇA

Podem surgir sozinhas ou em resultado dos tais músculos permanentemente tensionados, sobretudo ao nível do pescoço, cabeça e ombros. “A propósito das zebras, elas desligam a resposta de stress quando os leões se vão embora, ao passo que nós ficamos a remoer no que o leão lá do trabalho nos fez e se for preciso, ao fim de dez anos, ainda nos lembramos de como se atreveu a dizer-nos aquilo e desencadeamos uma resposta nervosa igual”, explica o psicólogo do trabalho Vasco Gaspar, único português certificado pelo Search Inside Yourself (o programa de mindfulness e liderança da Google). É um facto que todos passamos por dias complicados no emprego, que se traduzem em dores de cabeça pontuais que não desejamos ao nosso pior inimigo (nem mesmo ao chefe). Resta ver se isso é a exceção ou sinal de uma ansiedade sem limites que, a continuar, lhe vai dar cabo da saúde.

PROBLEMAS DE SONO

Não é que a pessoa não tenha sono, pelo contrário. Simplesmente, cai à cama e debate-se com noites em branco, às voltas durante horas, a cabeça a mil de tanto pensar no que tem para fazer no dia seguinte, inclusive quando está de folga. Tudo sintomas de stress laboral ao mais alto nível que se repercutem na saúde, alerta a neurologista Teresa Paiva: “A falta de descanso pode resultar em cancros, diabetes, hipertensão, obesidade, acidentes, desequilíbrios emocionais, rugas, depressão, lapsos de memória, infeções e doenças cardiovasculares e degenerativas, incluindo Alzheimer”, enumera a maior especialista em sono do país.

CANSAÇO CRÓNICO

Pode ser uma consequência direta da falta de sono em alguns casos, porém vai muito além dela na medida em que há quem durma horas a fio e nem assim se liberte do peso do mundo instalado sobre os ombros, a puxar mais e mais para baixo, até esgotar toda a força anímica. “Somos ensinados a ser competitivos, a fazer guerra na esfera económica, social, no mundo do consumo. E esses estados de guerra são incompatíveis com o bem-estar interior”, explica o psicólogo Vítor Rodrigues, familiarizado com estes ambientes de selva no trabalho. “Às tantas, as pessoas entram em depressão porque dão tudo, privam-se da família e do que lhes é mais importante, e são na mesma humilhadas, agredidas e prejudicadas por outros”, diz.

FALTA DE DESEJO

Começa por irmos para casa e agarrarmo-nos de novo ao computador, em vez de nos agarrarmos ao outro. Ou estarmos na cama a trocar e-mails com um chefe incapaz de perceber a fronteira entre vida pessoal e profissional, mais preocupados com as consequências de lhe dizermos “já chega” do que com os sentimentos de quem temos ao lado. E pelo caminho lá se vai também o desejo, difícil de manter diante de tantas solicitações e tanto stress. “Por vezes, quando me procuram, as relações estão tão deterioradas que pouco ou nada há a fazer”, lamenta a psicóloga e coacher sexual Cristina Mira Santos, considerando que querer tocar o parceiro é uma qualidade que se perde se não nos acautelarmos. “A espontaneidade funciona muito bem em relações recentes e nos filmes, depois há que treiná-la para não morrer.”

PROBLEMAS DIGESTIVOS

E quem nunca sentiu dores de estômago particularmente intensas ao domingo, “Ai que amanhã já é segunda-feira e tenho tanto para fazer que nem sei”? Ainda não é claro para os cientistas como é que alterações no cérebro causam alterações no sistema digestivo e vice-versa, mas somos cada vez mais angustiados, deprimidos, com problemas de peso e sono, e isso deve-se em larga medida a um mau funcionamento do intestino – o nosso segundo cérebro, com neurónios idênticos aos do primeiro. Nervos à flor da pele têm impacto no que o aparelho digestivo é capaz de processar, além de interferirem nas bactérias do intestino que, por seu turno, influenciam o bom humor.

ALTERAÇÕES DO APETITE

Também o apetite está intimamente relacionado com a saúde do cérebro, indicam estudos diversos levados a cabo pela Escola de Saúde Pública de Harvard. Na prática, dizem os cientistas, situações de stress intenso produzem fortes descargas de adrenalina no organismo – a tal resposta da zebra de que falávamos no início –, que por sua vez transmite à cabeça a mensagem de que não há tempo a perder com minudências como a digestão quando o corpo está a lutar pela vida (ou assim pensa ele). Por outro lado, em casos de stress prolongado, o aumento de cortisol pode aumentar a fome e os cravings por alimentos ricos em açúcares e gorduras saturadas, que acalmam as respostas emocionais à tensão.

DECLÍNIO DA SAÚDE MENTAL

É capaz de ser dos sentimentos mais difíceis de digerir: o de que o chefe nos persegue ou prejudica, de algum modo, sem tratar todos os membros da equipa em igual medida. E isto porque a injustiça atinge uma área fundamental dentro de nós, tornando-a um fator de stress especialmente tóxico, explicou ao Huffington Post Kevin Kelloway, professor de psicologia clínica na Universidade de Saint Mary, Canadá, após analisar 279 estudos que lhe permitiram cruzar esta perceção de injustiça laboral com as queixas de saúde de funcionários. “Se alguém é injusto comigo, está a atacar a minha dignidade ao dizer que eu não mereço tratamento justo ou o mesmo trato dispensado aos outros”, sustenta o especialista.

SEMPRE DOENTE

Está sempre constipado? Com herpes a aparecer constantemente, infeções urinárias e outra que tais? Inúmeras pesquisas apontam para uma relação direta entre episódios consecutivos de stress causado pelo trabalho (a libertar mais cortisol do que o necessário) e a falibilidade do sistema imunitário, que assim se abre a doenças infeciosas que não teríamos de outra forma – ou pelo menos não na mesma quantidade nem com igual frequência. Some-se a isto os problemas digestivos, de sono, depressão, obesidade, queda de cabelo, perda de memória e demais complicações e temos no stress o principal responsável por doença laboral. “A boa notícia é que invertendo essa resposta conseguimos tranquilidade, maior clareza, gestão da ansiedade e dos estados depressivos”, conclui o psicólogo e especialista em mindfulness Vasco Gaspar.