A família do outro: ou nos sai a sorte grande ou o lado negro da força

– A MINHA IRMÃ TELEFONOU-ME. Para irmos lá jantar amanhã. Tentei ligar-te para falar contigo.

– Eu vi. Não podia atender. Estava em reunião. O que é que disseste?

– Disse que sim. Ela precisava de saber para fazer compras. Não temos nada combinado, pois não?

– Não, não temos. Mas ela não sabe. Podias ter dito que não. Ou podias ter falado comigo antes de te comprometeres.

– Eu tentei falar contigo. Até te mandei uma mensagem. Não podias falar porque estavas em reunião mas podias ter respondido por escrito. Passas a vida a teclar e a falar comigo ao mesmo tempo, também podias ter feito isso agora.

– Está bem. Mas não reparei. Só vi depois.

– Mas qual é o problema? Vamos sempre jantar a casa dela, quando ela convida. E eles vêm cá imensas vezes. Porque é que agora não queres?

– Porque não me apetece. Ando um bocado farto desse programa. Passamos a vida em casa da tua irmã. Parece que não conhecemos mais ninguém.

– Nós conhecemos mais pessoas. Mas não nos convidam tanto. E tu gostas da minha irmã. E do Pedro. Qual é a tua questão agora?

– Porque é que nunca vamos a casa da minha irmã?

– Porque ela nunca nos convida para nada! Nem para o aniversário dos filhos. Se tu não a convidares a ela e ao anormal do teu cunhado, vocês nunca se veem.

– Ele não é anormal.

– Gostas dele?

– Não.

– Alguma vez gostaste? Então pronto! Além disso, tu não te dás com a tua irmã. Vocês aturam-se nos natais, lembras-te?

– Agora já estamos melhor.

– Ainda bem para vocês. Eu até engulo o sapo de ter de falar com o marido dela sobre futebol só para vocês passarem mais tempo juntos. Das últimas vezes que estivemos com eles fomos nós que convidámos. No aniversário do miúdo e no Dia da Mãe. – Sim, quando a minha mãe veio cá a casa.

– Outro sapo que eu engoli.

– Porquê?

– Porque a minha sogra é a pessoa mais inconveniente à face da terra. E porque disse que a minha mousse de manga parecia serradura.

– Ela estava maldisposta nesse dia.

– Ela nasceu maldisposta. E a tua irmã também. Só tu é que te safas nessa família. És o único que se ri.

– O meu pai ri-se.

– Pois ri. Sobretudo desde que se divorciou da tua mãe. Ela já era azeda, ficou ainda mais.

– Não foi fácil. Foram quase cinquenta anos.

– Tens razão. Coitado.

– Coitado, não. Coitada.

– Não, coitado. Coitado do teu pai. São quase cinquenta anos a aturar uma mulher desagradável. Mandona. Controladora. E ciumenta.

– Ela não teve uma infância fácil.

– Pois não. E por isso resolveu repetir a dose com os filhos. No teu caso, saiu-se mal, porque tu és boa pessoa. No caso da tua irmã, ela fez um bom trabalho. Criou outra de nariz empinado igual a ela.

– Estás um bocado azeda com a minha família.

– Não. Estou só a tentar lembrar-te como é fantástico o programa que temos amanhã em casa da minha irmã. Se preferires, ligo à tua mãe para vir cá a casa.

– Não, vamos jantar à tua irmã.

 

Publicado originalmente a 5 de outubro de 2014.