A hora mudou: saiba como adaptar o corpo ao horário de verão

horário de verão

Na madrugada de hoje para amanhã adiantamos os ponteiros uma hora, mas este é um pequeno gesto com muito que se lhe diga, avisam os especialistas. A mudança afeta o nosso relógio interno e interfere com o sono, o apetite, a energia e outros aspetos fisiológicos igualmente importantes. Saiba o que fazer para atenuar o embate.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

Uma hora parece-nos pouco para descansar, caminhar na praia, um café com amigos, porém é tempo de sobra para nos deixar abananados quando o relógio avança para se acomodar ao horário de verão – na madrugada de hoje para amanhã, à 01h00 – e perdemos esses 60 minutos preciosos que nos baralham completamente o relógio interno.

“O nosso organismo é flexível, está preparado para se adaptar a estas alterações. Ainda assim, é possível sentir-se alguma sonolência acrescida, dificuldade em adormecer ou algumas alterações de concentração nos primeiros dias”, adianta a psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva, sublinhando o o papel da luz como elemento regulador do nosso ciclo biológico, que influencia o funcionamento de todo o corpo.

Ao contrário do que sucede na mudança de inverno, em que os dias ganham uma hora, a adaptação ao horário de verão tende a ser mais difícil por nos retirar uma hora de sono.

“Ao contrário do que sucede na mudança de inverno, em que os dias ganham uma hora, a adaptação ao horário de verão tende a ser mais difícil justamente por nos retirar uma hora de sono, o que dificulta os ajustes do corpo”, alerta a especialista em psicologia clínica e da saúde. Só não vale dramatizar, visto cada caso ser um caso: “A capacidade de adaptação dependerá de fatores como o estilo de vida, hábitos de sono e estado atual de saúde física e psicológica.”

Foi em abril de 1916, no contexto da Primeira Guerra Mundial, que a Alemanha e o Império Austro-Húngaro começaram a mudar a hora ao perceberem que mudar os horários de trabalho era bom para poupar energia. Seguiram-se a França e o Reino Unido, em 1917 a Rússia e os EUA, em 1918 a Espanha. Antes disso, em 1784, já o inventor Benjamin Franklin tinha defendido as mudanças horárias – daylight savings time, como lhes chamava – para poupar velas.

Desde aí, muitos países abandonaram a medida e voltaram a adotá-la, nomeadamente na Segunda Guerra Mundial e em períodos de crise, embora não haja estudos que comprovem os ganhos económicos teorizados. O que há, aponta Rui Agostinho, diretor do Observatório Astronómico de Lisboa (a entidade responsável pela manutenção da hora legal em Portugal), é um impacto na atividade diária das pessoas.

“Este horário de verão permite tirar partido das horas finais do dia claro – mais uma hora de luz – para desenvolver atividades complementares ou de lazer (passeio, caminhada, corrida, bicicleta, atividades culturais), que contribuem para o bem-estar geral”, justifica o astrofísico. Além disso, as deslocações em massa de trabalhadores e estudantes fazem-se com boa luz ambiente, o que reduz as probabilidades de acidentes.

E sim, aqueles que não gostam de dias pequenos estarão já a esfregar as mãos por esta altura, menos preocupados com os embates no corpo do que com a ideia de não passarem tardes suficientes na esplanada a comer caracóis. Seja como for, avisa Miguel Meira e Cruz, especialista em medicina do sono, convém não perder de vista eventuais sinais que o corpo dê: “Qualquer das direções em que se proceda a uma mudança súbita num relógio de adaptação lenta, como o que temos no cérebro, tem prejuízos significativos e potencialmente graves”, diz.

Na prática, é isto que deve fazer para adaptar o corpo à mudança:

ACORDE MAIS CEDO AMANHÃ

Uma vez que este domingo só vai ter 23 horas, o truque fará com que tenha sono suficiente para ir mais cedo para a cama logo à noite e garantir um despertar de segunda-feira com mais energia e menos cansaço, apesar do jet lag.

NÃO FAÇA SESTAS LONGAS

Sestas são saudáveis e recomendam-se, sobretudo ao fim de semana, no entanto é importante assegurar-se de que não excede a meia hora neste período de adaptação ao novo horário, uma vez que o sono andará mais desregulado por si só e dormir à tarde só vai agravar este descontrolo e o cansaço em geral.

TOME VITAMINA C E MAGNÉSIO

Nos dias que se seguem à mudança da hora, inclua no pequeno-almoço e lanche da manhã frutas ricas em vitamina C (laranja, morangos, kiwi), que nos ajudam a manter acordados ao mesmo tempo que reforçam o sistema imunitário. Para a tarde deixe as outras com bastante magnésio – bananas, nozes e avelãs –, já que contribuem para o relaxamento dos músculos e nos preparam para o sono.

COMA ALIMENTOS COM TRIPTOFANO

É um palavrão difícil para descrever um aminoácido que nos aumenta naturalmente os níveis de serotonina (a chamada hormona do prazer) e de melatonina (uma hormona reguladora do sono). Estão nos frutos secos, nos legumes, na aveia e na carne, pelo que já sabe o que deve incluir nos menus dos próximos dias.

JANTE À MESMA HORA

Faz parte da adaptação ao novo horário chegar ao jantar com menos fome do que costumávamos ter na hora de inverno – na prática estaremos a comer mais cedo –, mas mantenha na mesma o horário antigo para evitar ir deitar-se com a barriga pesada, muito pouco amiga de uma noite descansada. Opte ainda por fazer jantares leves, à base de frutas e legumes.