A importância do jejum: no tratamento do cancro, diabetes e autorregeneração

Já pensou em ficar mais de 14h sem comer ou não ultrapassar as 800 calorias diárias? A naturopatia aconselha e diz que é benéfico para a saúde.

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia de Shutterstock

É eficaz na autorregeneração do organismo, melhora o tratamento de diabetes ou do cancro e ajuda a regular o metabolismo. Entre tantos outros benefícios. Andreas Michalsen, professor de naturopatia clínica no Hospital Universitário Charité de Berlim, defende, no livro Curar com o Poder da Natureza, que o jejum pode ser uma das armas para reforçar o sistema imunitário e ajudar a tratar algumas doenças crónicas, como a diabetes ou a fibromialgia.

«Algumas investigações no domínio da ciência básica demonstram que jejuar durante uma doença não enfraquece, pelo contrário, ativa o sistema imunitário»

Para defender a sua tese, Andreas Michalsen recorre a um exemplo bastante simples: «as crianças têm o impulso natural de rejeitar a comida quando estão doentes, por exemplo, quando têm gripe. Muitas vezes, os pais, com a melhor das intenções, tentam convencê-los».

Porém, explica o especialista, «algumas investigações no domínio da ciência básica demonstram que jejuar durante uma doença não enfraquece, pelo contrário, ativa o sistema imunitário».

Livro: Curar com o Poder da Natureza

Doenças crónicas – como a diabetes, hipertensão arterial, reumatismo, doenças intestinais – e também quadros clínicos associados à dor, como as enxaquecas ou artroses, também podem ser tratados com a ajuda do jejum. Michalsen afirma que na Unidade de Naturopatia do Hospital Moabit, na Alemanha, prescrevia-se «o jejum a quase todos os pacientes» com estas doenças.

Os doentes que sofrem com dores nas costas, por exemplo, veem o tecido conjuntivo e os músculos daquela zona a descontrair quando entram no processo de jejum.

No livro «Curar com o Poder da Natureza» é também descrito o caso prático de um paciente com reumatismo que aplicou o jejum e que viu melhorias substanciais na sua vida. Tinha dúvidas em relação ao jejum mas decidiu experimentar.

Os resultados? «Ao fim de alguns dias, o inchaço das mãos melhorou. […] E o seu estado de espírito melhorou imediatamente, o que também surtiu efeitos positivos sobre o seu corpo e sobre o seu bem-estar», pode ler-se no testemunho. «Depois do jejum, mudou a sua alimentação. Hoje, já só come carne e peixe de 15 em 15 dias, aproximadamente», prossegue.

Aproveitar o sono para ficar as 14 horas sem comer é uma das dicas do médico Andreas Michalsen

Andreas Michalsen explica dois tipos de jejum que devem ser aplicados em caso de doença: o terapêutico e o intermitente. Neste último (que aconselha também a pessoas saudáveis como prevenção), o especialista defende que se deve saltar o jantar ou o pequeno-almoço, «de maneira a estar pelo menos 14 horas sem comer (e não beber álcool)». Ou então, um dia por semana ou dois dias por mês a fazer jejum, ou, em alternativa, não ultrapassar as 800 calorias diárias.

O jejum terapêutico, explica o professor, acontece uma a duas vezes por ano «durante uma a duas semanas», como apoio ao tratamento de doenças crónicas.

«Depois de uma terapia de jejum de uma semana em regime ambulatório, a capacidade de recuperação do organismo aumenta»

Aproveitar o sono para ficar as 14 horas sem comer é uma das dicas de Andreas Michalsen. «Quem durma entre as 23 horas e as 7 horas já esteve oito horas sem comer nada e já só faltam seis horas para se atingir a meta».

Desta forma, «não é má ideia não jantar muito tarde, o mais tardar às 19 horas, o que já acrescenta quatro horas de jejum. Ao pequeno-almoço, tomar apenas um café expresso ou um chá, eventualmente uma pequena peça de fruta», encaminha o médico alemão.

A autorregeneração do organismo

«Mark Mattson, especialista norte-americano em velhice, e os seus colaboradores da Universidade Johns Hopkins demonstraram que depois de uma terapia de jejum de uma semana em regime ambulatório, a capacidade de recuperação do organismo aumenta», começa por explicar Michalsen, recorrendo sempre a vários estudos e experiências. Um outro estudo «mais modesto» indica que também as «funções cognitivas e memória aumentam».

Outro dos efeitos importantes do jejum, assegura o especialista, está relacionado com a regulação do metabolismo. «Se a temperatura corporal baixar, as hormonas responsáveis pela atividade metabólica como a insulina ou a T3, uma hormona tireóidea, também baixam». «O jejum permite, por assim dizer, repor todo o sistema ‘a zeros’», conclui o professor.

Há também progressos no tratamento da diabetes e cancro

A redução das calorias ingeridas, que o jejum provoca, faz que os doentes consigam alcançar valores normais no que diz respeito ao açúcar no sangue sem qualquer medicação.

O autor do livro adianta também que o médico Valter Longo propôs «uma terapia de jejum para doentes com cancro» quebrando alguns tabus sobre a temática.

«Até então, os oncologistas concordavam que se devia evitar que os pacientes com cancro perdessem peso, dado que a perda de peso nesses doentes constituía um mau prognóstico. Mas Longo e a sua equipa suspeitavam de que deixar de comer durante períodos breves tornaria as células saudáveis mais robustas para enfrentarem a quimioterapia, o que implicaria menos náuseas, menos diarreias, menos danos para o sistema nervoso e mais qualidade de vida», pode ler-se na explicação.