A ironia de se chamar Ernesto. Cubano é médico temporário há sete anos

Ernesto tem percorrido Portugal de norte a sul e ilhas, em trabalhos temporários como médico, depois de ter conseguido a respectiva equivalência médica.

Ernesto Alonso alterna quinzenalmente funções nos serviços de urgência do Centro de Saúde do Pico e no Santo António (Porto), como trabalhador temporário. Ao fim de dois anos incógnito, em 2012 conseguiu começar a trabalhar em Portugal. Mas lamenta a instabilidade laboral.

Texto de António Pedro Pereira

A ironia de se chamar Ernesto, do Ernesto desta história, bebe da raiz da farsa moral que o irlandês Oscar Wilde transformou numa celebrada peça em agosto de 1894. A hipocrisia da nata da sociedade inglesa em relação às instituições morais e sociais no final da era vitoriana ligam-se à Cuba de Ernesto Alonso, 53 anos, nascido e criado em Havana, no início da era comunista-revolucionária de Fidel Castro (1959-2016), através de um livro.
Durante a gravidez, a mãe leu La Importancia de Llamarse Ernesto (The Importance of Being Earnest/A Importância de Ser Ernesto) e gostou do nome. Ernesto entrou incógnito em Portugal em 2010 com uma larga experiência como médico e uma formação superior e altamente especializada. Nos sete anos em que conseguiu trabalhar em Portugal, multiplicaram-se os trabalhos temporários como médico, as mortes de familiares sucederam-se e a legítima obtenção nacionalidade portuguesa tornou-se uma novela.

Em 1966, Ernesto Guevara foi morto na Bolívia e o regime comunista de Fidel Castro em Cuba passou a ser o altar para o culto de uma só personagem. Nesse ano, a 27 de abril, nascia Ernesto Alonso, filho de dois corpos estranhos numa sociedade anticapitalista. Fermín Enrique de Armas López conheceu Eloisa Alonso Nuñez como professor desta no ensino técnico-profissional de Informática, em 1963. “Hoje seria um escândalo”, sorri Ernesto. “Mas era ensino para adultos”, repõe. O médico cubano está em Portugal desde 2010, viveu numa espécie de clandestinidade até obter a legalização para residir e trabalhar no país a partir de 2012. Em regime de trabalho temporário, já passou por uma dezena de lugares, vilas e cidades portuguesas até chegar à ilha do Pico, onde acumula os serviços de urgência no centro de saúde com os do Hospital de Santo António, no Porto, alternando duas semanas em cada um.

“Nasci em 1966, ano em que o Che [Ernesto Guevara, o argentino camarada de revolução de Fidel] foi morto na Bolívia. Toda a gente perguntava: “Chamas-te Ernesto por causa do Che?” Segundo a minha mãe, não. Não era muito partidarista do socialismo, nem de Che. E contou-me a história. Na gravidez, estava a ler Oscar Wilde, gostou do nome. E já está”

Voltemos aos pais, peças centrais nesta trama. “Os meus pais são ambos cubanos cubanos. Nasceram em Havana, tal como eu. Não eram médicos, trabalhavam em informática. Foram fundadores da informática em Cuba. Trabalharam no tempo dos cartões perfurados e dos primeiros computadores da IBM. Mas naquela época [anos sessenta] estavam a nacionalizar empresas e os produtos americanos a desaparecer”, explica Ernesto.

“Nasci em 1966, ano em que o Che [Ernesto Guevara, o argentino camarada de revolução de Fidel] foi morto na Bolívia. Toda a gente perguntava: “Chamas-te Ernesto por causa do Che?” Segundo a minha mãe, não. Não era muito partidarista do socialismo, nem de Che. E contou-me a história. Na gravidez, estava a ler Oscar Wilde, gostou do nome. E já está”, enquadra o médico que, através de uma agência de trabalho temporário, já conheceu a precariedade laboral na medicina em Mirandela, Vila Real, Vale de Cambra, Aveiro, Serra da Freita, ilha das Flores, Funchal ou Póvoa de Varzim.

Médico em Havana, Ernesto queria outra vida, que ainda não encontrou. Uma vida de alguma estabilidade laboral. “Vivi ali até ao ano 2010. Cheguei cá a 30 de janeiro, entrei por Espanha. Um amigo convidou-me para um congresso, o meu irmão já cá estava há dois anos”, explica Ernesto Alonso. “A minha filha, Amanda, nasceu em janeiro de 1996, durante o Período Especial em Cuba [eufemismo para um longo período de crise económica que começou em 1989, principalmente devido à dissolução da União Soviética, principal fornecedora de, entre outros, bens materiais de primeira necessidade]. Quando caiu o Muro de Berlim, com a perestroika, a glasnost, tudo isso, o campo socialista deixa de existir. E sem União Soviética e com o bloqueio dos EUA, ficámos sem recursos. Eu não me chateei com o sistema político, mas com a economia. Não conseguia sustentar a minha família”, sintetiza.

“Demorei dois anos para conseguir equivalência. Consegui estudar em casa do meu irmão, sempre com os inconvenientes de viver em casa alheia, mesmo da família, está-se sempre a mais”, diz. E o acolhimento foi através da língua portuguesa. “A senhora Maria Viterbo [Secretariado das Migrações] foi como uma mãe para mim. É chata como o caraças, o que foi bom. Portou-se e porta-se muito bem comigo, sempre. O pouco português que sei, gramatical, aprendi naquela sala [Seminário de Vilar], e a minha mulher e os meus filhos também aprenderam”, esclarece. “Dirigi-me ali com um pedaço de papel no bolso. Parecia estranho apresentar-me como médico e estar ali quase como um sem-abrigo. Mas aquela senhora já estava habituada a todas as situações”, explica.

“Esse tempo passou, consegui trazer a minha mulher. Não nos tínhamos casado lá para conseguir trazê-la e à filha dela, e mais tarde veio a nossa filha. O nosso filho não, porque estava a estudar e tinha de interromper o curso”, rememora. “A partir de 2012 comecei a trabalhar. E em sete anos corri o país e não consegui um contrato. Foi sempre como eventual”, desabafa.

“No teste de equivalência académica, só outro cubano, uma ucraniana e eu conseguimos passar. Não é um teste qualquer, há uma prova de Língua Portuguesa, um teste médico em português, uma apresentação de um caso clínico com um doente – prático – e uma tese de mestrado. Fiquei como mestre integrado em Medicina.

“Perdi muito na parte material. Tive de vender o carro. Depois desses testes todos, fui fizer exame de Português na Ordem dos Médicos e chumbaram-me.

Mas eu tenho duas especialidades: medicina familiar e medicina interna e sou diplomado em Cuidados Intensivos, que era o que fazia em Cuba. E para isto não consigo equivalência. No ano passado tentei no Chile e chumbaram-me em tudo, Medicina, Pediatria. Tantos anos, tantos anos a trabalhar medicina e não sei nada. Estou a trabalhar para resolvê-lo.”

“Perdi muito na parte material. Tive de vender o carro. Depois desses testes todos, fui fizer exame de Português na Ordem dos Médicos e chumbaram-me. No dia, o presidente do júri, meu colega no Hospital de São João, disse: “Estás reprovado, tens de voltar em três meses.”

Olha sem rancores, mas com tristeza para toda esta epopeia humana e trágica: “As mortes foram os momentos mais complicados de tudo.”

“Há o episódio da minha mãe, que estava a morrer. Em 2017, cheguei a Cuba e vim no mesmo avião. Eu tinha visto, mas disseram-me: “És desertor, aqui não podes entrar.” O meu filho estava do outro lado da alfândega. Foi em 2017, por altura da visita de Obama”, diz, magoado. “Diziam que em Cuba já tinham abertura. É mentira, a política é tudo mentira. A política é o dinheiro. Consegui trazer o meu filho e o meu pai há dois anos. Passados dois meses, o meu pai caiu, bateu com a cabeça, teve hemorragias e pronto. Morreu em janeiro de 2018.”