A mais violenta prova de resistência de um casal? Vem com chupetas

HAVERÁ POUCAS COISAS mais violentas para a vida de um casal do que o nascimento de um filho. A ideia, de tão natural, chega a ser banal de escrever. «Pfff… podes crer», dirão os pais e mães de crianças com menos de 5 anos ao ler isto. É, não é? Vocês sabem bem. Ritmos detalhados, noites mal dormidas, cansaço, nervos à flor da pele, fraldas… E as constantes solicitações, a disponibilidade, a mudança de horários em tudo e mais alguma coisa – menos na criança, que precisa deles certos. E o dinheirão que se gasta. E as refeições que é preciso planear, confecionar, dar, para depois ter a louça para arrumar e a cozinha para limpar. E a roupa para preparar, raios que já não há bodies lavados, por que é que nunca sabes onde está a roupa dela?

E ÀS ONZE DA NOITE, quando tudo acalma, só há vontade de cair no sofá e estupidificar um pouco em frente à televisão. Por favor não me chateies agora, que não me apetece ter conversas sérias, só quero distrair-me um pouco antes de dormir duas horas, porque depois vou acordar novamente para dar o biberão da noite. E se não der eu, dás tu, por isso aproveita e vê televisão também, o sofá chega para os dois. A menos que ainda tenhas de trabalhar. O relatório para acabar ou o prazo para cumprir. Nesse caso, não me acordes quando chegares à cama. Falamos depois. Amanhã, se der. Ou no fim de semana. Se não tivermos de ir com um deles para as urgências. Ou com o outro a uma festa de aniversário. Vida social preenchida, a destes putos.

E VOCÊS, OS QUE TÊM FILHOS mais velhos? Já não se lembram bem disto, pois não? Já passaram essa fase. E continuam casados? Aguentaram o embate? Passaram a zona da rebentação, já subiram para o barco e agora estão a ver para onde se rema? Escrevam um livro. Façam workshops. Falem com os amigos. Expliquem ao resto da malta como é que isso se faz. É que a capacidade de resiliência e a resistência à frustração não são iguais em toda a gente e nem todos lidam com as dificuldades e os desafios da paternidade da mesma maneira.

CADA UM TEM O SEU MÉTODO. Há casais que suportam melhor o choque violento. E apoiam-se bem. Hoje sou eu, amanhã és tu. E há quem vá conseguindo levar isto a bom porto. E os miúdos vão crescendo bem, é o que importa – afinal, se eles estiverem bem, nós ficamos logo melhor, não é? Os que conseguiram resistir e não se divorciaram quando os putos eram pequenos foram adiando e lá perceberam que, afinal, até era possível voltar a ter alguma paz. Passada a fase pior, aquela em que nem conseguiam olhar para a cara do outro (sobretudo quando ele estava fresquinho e tinha dormido bem), foi possível voltar a gostar. Devagarinho, um dia de cada vez. E, claro, voltar a dormir. E com as horas de sono veio tudo o resto. Também começaram pelo sexo?

LUCKY BASTARDS? TALVEZ. A que custo foi isso? E o que tiveram de hipotecar pelo caminho? Que parte deles tiveram de deixar para trás em nome dos filhos? E são mais felizes assim? Ou nem por isso? Ou será que os mais felizes são os outros? Os que se divorciaram? Há uma semana, no espaço de sete horas, passou-me isto tudo pela cabeça. No batizado que ocupou o domingo todo, encontrei pessoas que não via há uns anos. Todos têm filhos pequenos. Uns estão casados. Ainda estão casados. Outros – eram seis, contei-os duas vezes, para ter a certeza – estão separados. Em quatro anos, 12 pessoas daquele grupo seguiram rumos diferentes. É precisa uma dose valente de presunção para dar bitaites sobre a vida de gente que encontro de tempos a tempos, mas não estou a tecer juízos de valor. Estou só a admirar a capacidade do ser humano em adaptar-se. Foi o que fizeram aqueles seis. Se foram só os filhos a contribuir para isso? Não devem ter sido. Foi a vida. E os filhos fazem parte dela.

[Publicado originalmente na edição de 26 de julho de 2015]