A menina não é de cá, pois não?

A pergunta, infalível sempre que vou ao Porto, não afasta, aproxima. Antes de mais, porque “a menina”. “A menina” é de uma generosidade enorme e generosidade é o que lá tenho encontrado, sobretudo no “não é de cá, pois não?”, que dizem como quem diz: “Não é, mas passa a ser, que a gente fá-la sentir-se de cá num instante.” E faz.

Porquê? É estranho pensar nisso. No que nos faz gostar de uma cidade que não é nossa e sentirmo-nos lá como em casa. Pode ser da comida, boa e farta. Pode ser da pronúncia, tão própria e acolhedora. Pode ser porque comigo o futebol não é motivo de discussão, não tenho clube e o meu filho até é do Futebol Clube do Porto (vá lá saber-se porquê). Pode ser do uso de palavrões mais libertador que alguma vez conheci, quase que a pontuar as frases [sim, adoro palavrões e durante muito tempo não tive a coragem de os dizer].

Mas também pode ser da luz enevoada e do rio Douro e das ruas que se calcorreiam sem dar por o tempo passar, que lá parece mais vagaroso (não sei se é de mim, que lá estou de visita, ou se é da cidade e das suas gentes, que ainda não se renderam à pressa). Não tem defeitos, o Porto? Terá, com certeza, eu é que talvez ainda não tenha com ele a intimidade que é preciso para conhecer uma cidade – como uma pessoa – por inteiro.

Não vou lá muitas vezes, mas a verdade é que, de cada vez que vou, sinto-me de lá e é por isso que nunca entendi essa coisa da rivalidade Porto-Lisboa. Seremos diferentes, para além da pronúncia, ou não reconheceriam à légua uma forasteira, mas somos bem-vindos.