A minha caixa de ferramentas é maior do que a tua

HÁ QUEM O FAÇA A COZINHAR – e três horas de volta dos tachos fazem maravilhas. Há quem vá correr – dez quilómetros debaixo de chuva miudinha lavam a alma. Há quem goste de acelerar por montes e pedras – atascar um jipe num charco de lama provoca descargas de adrenalina que fazem esquecer problemas. Há quem ouça música – Mendhelsson, Iron Maiden ou guitarra portuguesa, pouco importa. Eu gosto de arranjar interruptores. E de tapar buracos na parede. E de fazer puxadas de eletricidade para pôr uma tomada nova. Não me ajeito tão bem com canalizações, mas também fico distraído se tiver de procurar solução para a torneira que pinga.

 

NÃO GOSTO DE CLICHÉS DE GÉNERO, mas concedo que este é um ponto em que homens e mulheres nem sempre se entendem. Este é um daqueles capítulos que elas não percebem bem. Elas olham para a nossa caixa de ferramentas com um misto de dúvida – Porque é que há ali tantas coisas? Porque é que pesa tanto? Porque são precisos três martelos? – e carinho, como quem vê a caixa dos legos do miúdo. E vão suspirar e deixar-nos a brincar, sozinhos no chão da cozinha enquanto não resolvemos o sério problema do pé do fogão que está torto ou a porta do armário que está desengonçada. Porque sabem que aquilo nos acalma e que aquilo é, supostamente, o nosso terreno. Mesmo que sejamos maus a fazê-lo.

 

O PARADOXO DISTO É PRECISAMENTE o facto de a coisa se ter tornado terapêutica. E isso é tão, tão irónico. Isso diz tanto destes tempos em que vivemos. Mas desde quando é que arranjar uma porra de uma janela empenada ou pendurar um quadro na parede se tornou terapêutico? Eu digo isto ao meu pai e ele ri-se. Ele, que me ensinou a fazer buchas de madeira quando eu ganhei idade e força para pegar num berbequim, ele que me explicou como é que se consegue a consistência perfeita do gesso, para não secar muito rápido (por isso é que prefiro cimento branco), ele que me ensinou a segurar o serrote sem correr o risco de cortar a artéria femural, ele que me explicou o que é uma plaina, um podão ou um torno… ele ri-se.

 

CADA UM RELAXA e liberta a cabeça com o que lhe apetece. Eu gosto de reparações. Não é bricolage. Bricolage é para meninos. Reparações, mesmo. Coisas a séria, que para muita gente implicariam chamar um profissional e pagar por um trabalho bem feito. Eu prefiro tentar encontrar a solução, gastar dinheiro a comprar o material, investir uma data de tempo a estudar a coisa e, no final, correr o sério risco de a coisa ficar manhosa. Isto parece estúpido? Bastante. Mas compensa? Nem imaginam o quanto.

 

PRECISO MESMO DISSO. De ser útil. Porque, na verdade, não é necessário. E isso é que torna a coisa idiota. Não é necessário ser eu a arranjar essas coisas, quando as posso substituir. Não é necessário ser eu a tratar disso, quando posso pagar por quem o faça mais depressa e melhor do que eu. Mas, bolas, neste mundo bonitinho, civilizado, assético, com serviços disponíveis 24 horas por dia, ter de fazer alguma coisa em casa apenas porque tem de ser feita e é o gajo lá de casa que tem de se chegar à frente é um dos últimos grandes prazeres da vida urbana moderna.
E NO FUNDO NÓS SABEMOS. Nós sabemos que elas não entendem esta necessidade, e que, no fundo – apesar de dar jeito ter um gajo habilidoso de mãos em casa – estão apenas a ser tolerantes em deixar-nos usar os nossos brinquedos caros do BricoMarché, do Leroy Merlin, do AKI. Mas fingimos que não reparamos.

 

Publicado originalmente a 28 de setembro de 2014.