A miúda está com febre. Faltas tu ou falto eu ao trabalho?

– Outra vez?! Quanto?
– 38,2o C.
– Ui, já?
– Pois. E deve estar a subir.
– Raios! Já lhe deste alguma coisa?
– Vou dar agora.
– Eu preparo. Deixa-te estar. Eu vou lá buscar o xarope. Estás cansada, fica aí.
– Que conversa é essa? Deixo-me estar porque estou cansada e vais tu preparar 4,5 ml de um xarope numa colher de plástico? Que trabalho é que isso dá?
– Não dá muito, mas estou a dizer que faço eu.
– Estás armado em fofinho. Estás a preparar-te para me dizer que amanhã não podes ficar com ela, certo?
– Que exagero. Amanhã não posso ficar com ela porque tenho aquele almoço, já te tinha dito. Mas não é por isso que me ofereço para ir buscar o xarope.
– Eu sabia! Eu sabia que ias esquivar-te. Já estava mesmo à espera. Quando vi a temperatura há bocado lembrei-me logo disso.
– Eu não estou a esquivar-me, tenho uma coisa de trabalho a que não posso faltar.
– Tu tens um almoço com o teu ex-chefe, não me lixes. Não é nada de trabalho.
– Pode vir a ser. Nunca se sabe. Pode querer convidar-me para ir trabalhar com ele.
– Se não fosse ter a miúda ao colo, agora dava-te um berro. Não quero saber de almoço nenhum. Agora é a tua vez de ficares com ela. Na semana passada fiquei eu. Na outra também porque pediste-me para trocar. Agora ficas tu. É o que temos combinado.
Quando fica doente, faltamos ao trabalho à vez.
– Eu pedi-te para trocar porque tinha uma reunião no Algarve.
– O raio que te parta! E eu, para tu não faltares à tua reunião no Algarve, faltei a uma ação de formação. E a uma reunião também. Estou farta de andar a levar bocas no trabalho porque sou sempre eu a ficar em casa quando a filha está doente. O meu chefe já me perguntou se a miúda não tem pai.
– Tem pai, mas o pai tem responsabilidades.
– Estou aqui estou a enfiar-te este termómetro no olho. E eu, não tenho responsabilidades? Não tenho trabalho? Não tenho obrigações? E escusas de vir com a conversa do dinheiro e do cargo, porque vais já de carrinho. Isso comigo não cola. Eu até ganho mais do que tu, pela tua ordem de ideias devia ser eu a assegurar o rendimento e tu a assegurar as coisas em casa, em caso de doença.
– Mas se eu quero ganhar mais, tenho de trabalhar mais. E não posso estar a faltar sempre que a miúda tem febre.
– Faltas as vezes que for preciso. E eu também. Se não temos cá os meus pais nem os teus pais para ficarem com a neta, temos de ser nós a fazer isso. E já sabias que isto ia acontecer. Quando mudaste de emprego já sabias que ias ter um filho e que estas coisas iam ser a nossa realidade.
– E se lhe dermos uma coisa para a febre?
– Não é o que vais preparar agora? Vai lá tratar do xarope, em vez de estarmos a discutir o sexo dos anjos.
– Não, eu digo amanhã. Se lhe déssemos uma coisa para a febre amanhã? Só para ela ir à escola. Pelo menos de manhã. E eu depois de almoço ia buscá-la.
– Estás a gozar, não estás? Mas estás parvo?!
– E se eu a levasse? Agasalhava-a bem e levava-a comigo.
– Vai buscar o xarope, se faz favor. Estou a ficar enervada contigo.
– Se ficares amanhã com ela, eu depois fico duas vezes. Prometo.
– Vai buscar o xarope antes que me chateie à séria. Tu não queres isso.
– Três vezes. Tu ficas amanhã e eu fico depois três vezes. Que me caia aqui um raio se eu não cumprir.

[Publicado na edição da Notícias Magazine de 22 de janeiro de 2017]