O bullying, a procura do corpo perfeito, os esteroides e os julgamentos

O estado de saúde do actor Ângelo Rodrigues, associado ao consumo de substâncias na busca de um corpo perfeito, tem suscitado numerosos comentários, muitos deles de cariz acusatório e recriminador. Ao mesmo tempo, recorda-se uma entrevista dada pelo próprio, na qual afirma que, em pequeno, era muito magro e não gostava de se ver ao espelho, tendo por isso sido vítima de gozo e bullying na escola.

Por bullying entendemos um conjunto de comportamentos agressivos, humilhantes e de exclusão, efectuados de forma repetida e intencional, implicando sempre uma assimetria de poder. Difere das lutas ou brincadeiras agressivas que ocorrem mais pontualmente entre crianças e, na maioria das situações, os agressores procuram vítimas que apresentam algum tipo de fragilidade. Poderá ter sido este o caso. Um miúdo mais magro e com baixa auto-estima afigurar-se-ia o alvo perfeito. Com todo o impacto negativo que, sabemos, o bullying tem nas suas vítimas.

Sentirmo-nos bem no nosso corpo e gostarmos de nos olhar ao espelho influencia de forma muito importante o nosso bem-estar. A aparência física é uma dimensão da auto-estima, e não apenas para quem vive no mundo da moda, do espectáculo ou da televisão. É importante para todos nós.

Em paralelo, somos muito pressionados para a conquista de um corpo belo e esculpido, quais Apolos e Afrodites. Na mitologia greco-romana, Apolo era o deus da beleza, da perfeição, da harmonia, do equilíbrio e da razão. Afrodite era a deusa da beleza, do amor e da sexualidade. De uma forma implícita, associa-se a beleza e a perfeição, a sensualidade e o amor. Quem é belo é amado.

Perante uma sociedade que exige a perfeição, há quem reaja com sintomas depressivos ou ansiosos, quem se esconda por trás de roupa larga, do excesso de trabalho ou do isolamento social.

Então e quem não é belo? Ou melhor, e quem não se sente belo? Ou melhor ainda, e quem não se sente belo à luz dos padrões da nossa sociedade? Padrões exigentes e utópicos, que reforçam de forma positiva a elegância e a magreza e condenam o excesso de peso, os pneus, as estrias, a celulite, as olheiras… no fundo, condenam os corpos reais.

Perante uma sociedade que exige a perfeição, há quem reaja com sintomas depressivos ou ansiosos, quem se esconda por trás de roupa larga, do excesso de trabalho ou do isolamento social. Temos ainda quem invista em maquilhagem, desporto ou dietas. Temos também quem faça dietas equilibradas e quem faça dietas loucas, deixe de comer ou vomite após fazê-lo. Alguns fazem tratamentos estéticos, operações aqui e ali. E há quem tome substâncias. Diria que há de tudo.

Perante isto, mais do que condenar e julgar quem procura melhorar a sua aparência física e, consequentemente, a sua auto-estima, seja de que forma for, critiquemos, sim, uma sociedade hipócrita que exclui e pune quem não encaixa nos padrões definidos ou apresenta um tamanho fora de formato.

Critiquemos, sim, uma sociedade que nos faz acreditar que temos de ser belos e perfeitos para sermos amados.

Critiquemos, sim, uma sociedade que nos pressiona e impinge imagens irreais e cheias de Photoshop, fazendo crer que são verdadeiras e nos retiram suspiros de inveja (e não é que, enquanto escrevia esta crónica, apareceram anúncios de tratamentos para emagrecer, implantes capilares e outros para fazer crescer o pénis?).

Critiquemos, sim, uma sociedade que nos faz acreditar que temos de ser belos e perfeitos para sermos amados.

PS – O meu corpo não é perfeito, tenho estrias das gravidezes e olheiras todos os dias. Gosto de mim e tenho o direito a ser amada. Já fiz dietas para emagrecer, desporto e adoro maquilhagem. Ainda assim, se decidir fazer algo mais para melhorar a minha aparência, recuso quaisquer críticas ou acusações.

Olhemos bem para os nossos telhados antes de mandar pedras ao ar.