À procura do equilíbrio. Ou aprender a viver sem ele.

Dezenas. Todas as semanas cruzo-me com dezenas de trabalhos sobre relações humanas. Alguns na rádio ou na televisão, muitos em jornais e revistas, a maioria na internet. Chego a estes, em particular, de várias formas: através de e-mails de amigos ou colegas, por pesquisas que faço ou porque me aterram no mural do Facebook. E, depois, claro, há as hiperligações que levam para outras páginas, onde há outros artigos, com outras hiperligações, que levam para outras páginas. Quando dou por mim, já vi mais uma série deles, numa hora ou duas, entusiasmado de história em história, de estudo em estudo… Acreditem, «dezenas» não é uma força de expressão para acrescentar intensidade dramática. Não os posso ler todos, por falta de tempo, de pachorra ou de confiança na fonte, mas passo os olhos por boa parte deles. De alguns retiro ideias para crónicas, de outros retiro ideias para artigos da Notícias Magazine, de uns quantos retiro gargalhadas. Também há aqueles dos quais não retiro nada e os que me ficam a martelar na cabeça.

 Há dias esbarrei numa boa reportagem. Não me recordo bem de como cheguei a ela, mas sei que a vi primeiro na edição australiana do site Business Insider e que a encontrei depois no site da ABC News. É a história de Nate Bagley, um norte-americano de 29 anos que, recorrendo às economias e ao financiamento coletivo através da internet, fez uma grande viagem pelos EUA para entrevistar casais. O objetivo? Um documentário (em execução) sobre cem histórias de amor da América e a forma como são vividas. «Entrevistei casais gay, casais heterossexuais, casais ricos, casais pobres, casais religiosos, casais ateus, casais que estiveram juntos por pouco tempo e casais juntos há 70 anos», diz Nate. «Até entrevistei cônjuges de casamentos arranjados e casais polígamos.»

O andamento do projeto pode ser consultado em loveumentary.com, onde estão também as entrevistas realizadas. E foi precisamente uma dessas entrevistas que me deixou a pensar. Numa conversa com um casal do estado da Georgia, em Dezembro do ano passado, a mulher deixou escapar estas palavras, quando Nate lhe pediu um conselho sobre como fazer uma relação durar ao desgaste do tempo. Com 80 anos, casada há sessenta, Anne Gaston fez uma pausa e respondeu: «Não tenhas medo de ser o que ama mais.»

Talvez passemos demasiado tempo das nossas vidas – e das vidas dos outros, com quem partilhamos a nossa – a tentar encontrar esse equilíbrio. À procura dessa simetria perfeita entre o quanto eu gosto de ti e o quanto tu gostas de mim, como se a balança de sentimentos nunca pudesse pender mais para um lado do que para o outro. E, inevitavalmente, talvez cheguemos à conclusão que estamos mais vezes em dívida ou em cobrança do que aquelas que gostaríamos. Se calhar (e isto é apenas uma suposição, porque só desde que aquelas palavras de Anne Gaston me caíram no colo é que penso nisso) seríamos bem mais tranquilos se aceitássemos que podemos mesmo gostar mais do outro do que ele gosta de nós. E que, nem por isso, ele nos deve alguma coisa.

Talvez um dia, mais tarde, dentro de algumas semanas ou algumas décadas, cheguemos à conclusão que afinal não valeu a pena. Que gastámos demasiado tempo, energia, concentração ou emoção a tentar nivelar o que damos e o que queremos receber. E que, no fundo, talvez sejamos mesmo mais felizes se formos mais generosos. Até nos afetos. Sobretudo nos afetos.

Publicado originalmente na edição de 31 de agosto de 2014