“A rotina é para as crianças o que as paredes são para uma casa”

Pediatra há 25 anos, Paula Vara Luiz é conhecida entre as crianças como “Tia Paula”. É também assim que alguns pais e mães a tratam. Após duas décadas deixou o Hospital de Vila Franca de Xira, porque sentia não ter tempo suficiente para os utentes. Entre muitos temas que aborda com os pais no consultório, em Aveiras de Cima, as rotinas são um dos primeiros e mais importantes.

Entrevista de Joana Capucho | Fotografia de (Global Imagens)

Paula Vara Luiz é mãe de um rapaz de 24 anos que está a terminar o curso de Medicina. Não deverá seguir pediatria, como a mãe, porque sabe que isso implica não ter fins de semana ou férias. Ser pediatra é estar sempre disponível para os pais. Com vasta experiência clínica, a “Tia Paula” sabe o que é estar no lugar dos educadores. Chateia-se com o tema das rotinas, porque as famílias falham. Principalmente com os horários do sono. Mas também com o mimo. É “muito afetuosa” e defende que dar colo é tão importante como promover uma boa alimentação.

Em consulta, as rotinas são um tema muito presente?
É um tema sobre o qual converso desde a primeira consulta, ou seja, desde que são recém-nascidos. Nem sempre sou bem-sucedida. Faz alguma confusão às pessoas, até porque cada vez há mais egoísmo da parte dos pais. Às vezes não tenho a eficácia que gostaria de ter. Para mim, as rotinas são fundamentais no crescimento e no desenvolvimento de uma criança.

Porquê?
As rotinas implicam regras, estabelecem limites, dão segurança às crianças, mas também liberdade. Ajudam a desenvolver muitas competências, dão-lhes autonomia e vão responsabilizá-las. Quando os bebés nascem, não conhecem o mundo à sua volta. Os pais vão ser os seus guias. Ou seja, têm de organizar um ambiente estável, com horários, rotinas, atividades. Isso vai repetir-se todos os dias, muitas vezes por dia, até que as crianças as interiorizam de uma forma que lhes permite desenvolver habilidades para tarefas e realizá-las de forma segura e quase inconsciente. Por exemplo: quando a mãe diz que é hora do banho, é para ir tomar banho. Isso é fundamental para a sua formação física e psicológica ao longo da vida. É essencial. Há uma frase que digo muito aos pais e que até tenho escrita no consultório. É de um psiquiatra e educador que nasceu no fim do século XIX, Rodolfo Dreikurs: “A rotina diária é para as crianças o que as paredes são para uma casa.”

Isso mostra bem a importância que têm…
Sim. As rotinas vão dar às crianças limites e uma dimensão para a vida. E isto é essencial, não é só a comida. Esta frase, na minha opinião, traduz quase tudo. São fundamentais e devem ser alteradas de acordo com a evolução, o desenvolvimento, e ajustadas às rotinas familiares. Nem todos temos a mesma vida, nem todos trabalhamos das 09h00 às 17h00. Mas as rotinas dão segurança, autonomia, responsabilizam. Por exemplo, quando os pais chamam para almoçar, as crianças têm de saber que, antes disso, têm de lavar as mãos. É uma rotina. A mãe não precisa de dizer. Se houver visitas em casa, a criança sabe que tem de dizer olá. Não precisa de dar beijinho, mas tem de haver um cumprimento. Assim como tem de agradecer e pedir desculpa quando for caso disso.

Ouço muitas vezes: “Ele é muito teimoso.” Ele não é muito teimoso. Ele não tem é rotinas nem hábitos. Como não tem, testa os pais e tem um comportamento opositor

Há idades nas quais as rotinas são mais importantes?
Começam e são essenciais na primeira infância [primeiros anos de vida]. Isso é preditivo para o resto da vida. Quando são mais velhas, se tiverem rotinas incutidas, vão existir menos conflitos na relação pais e filhos. As crianças vão confrontando os pais porque querem escolher os brinquedos, a roupa, e os pais vão cedendo e ajustando ao que é razoável. Mas, na segunda infância, as crianças têm de saber que há decisões que vão competir aos pais, nomeadamente a hora de dormir, das refeições, a necessidade de ir para a escola.

Quais as consequências da falta de rotinas?
Ouço muitas vezes: “Ele é muito teimoso.” Ele não é muito teimoso. Ele não tem é rotinas nem hábitos. Como não tem, testa os pais e tem um comportamento opositor. É como se fosse uma vingança. É uma das consequências da não existência de rotinas. Isto vai ser muito mais grave na adolescência. Se já há por definição um comportamento opositor, um adolescente que não tenha tido regras e limites vai ser absolutamente opositor e até perigoso para ele próprio. Com as rotinas, a criança sente-se mais segura, porque sabe sempre o que vai acontecer a seguir. A ausência de rotinas também provoca frustração. São crianças mais birrentas, mais chorosas, mais irritadas. E o comportamento opositor também vai manifestar-se na escola. Quando há uma falta de respeito pelos familiares, que estão constantemente a sancionar porque não há rotinas, esta vai manifestar-se também com a educadora, na comunidade, nos amigos. Leva também a comportamentos sérios na idade adulta.

Vê-se obrigada a ralhar muito com as famílias por causa destas questões?
Sim. Tenho uma grande proximidade com as famílias. Conheço-as bem, sei o que fazem. Tenho uma memória muito boa. Como tenho grande confiança com as mães, ralho muito. Se é meu paciente, tenho alguma responsabilidade sobre ele. Se me dizem: ele não quer dormir, quer estar no tablet ou no telemóvel. Eu digo: ele não tem querer. Se me dizem que ele só quer bolachas de chocolate… Não é ele que vai ao supermercado. Ralho no aspeto educativo, porque isso mexe com a minha maneira de ser. Eu estou de um lado da secretária, mas também estou do outro, porque também sou mãe.

Quais as rotinas nas quais as famílias mais falham?
Falham muito em quase todas, depende das circunstâncias. Tem de haver horas para sono, alimentação, higiene e brincar. Tem de ser tudo muito bem estipulado. Há exceções, como as férias, nas quais têm de ser ajustadas. Na minha opinião, os hábitos de sono são a rotina que mais falha hoje em dia. Esta rotina vai dar uma grande estabilidade ao ritmo circadiano. Se for alterado, há alterações de humor e comportamento. O padrão de sono talvez seja o barómetro das rotinas desadequadas. Na alimentação também há falhas, pois não há tanta preocupação como existia antigamente. A higiene, apesar de toda a gente ter condições razoáveis de habitabilidade, também falha um pouco.

Já que falamos no tempo de brincar… As brincadeiras devem fazer parte da rotina?
Têm de fazer. Obrigatoriamente. Brincar é tão importante como dar boa comida, como dar colo. Estão todas no mesmo patamar. É muito mais fácil dar um telemóvel ou um tablet e as crianças ficam noutro mundo. Mas isso é absolutamente errado. Todos os dias tem de existir tempo para brincar, nem que seja dez minutos. Com a televisão desligada, sem telemóvel, sem tablets.

Mas as famílias queixam-se muito da falta de tempo.
Nessa questão sou um bocadinho má. Sempre trabalhei horas a fio, até 24 horas seguidas. Mas nunca faltou tempo para brincar e para dar colo. Se calhar, andei muitas vezes com o cabelo espigado porque não tinha tempo de ir ao cabeleireiro, ou com as mãos mal arranjadas, mas isso nunca faltou. É uma questão de gestão de tempo. Tem de haver colo, o tempo da história. Mimo é sempre pouco. O colo é tão importante como dar de comer. Não é o mimo que dá maus comportamentos, é a falta de regras. Hoje, há muito mais solicitações, como redes sociais e outras, mas temos de perceber que a prioridade não pode ser essa. Se queremos que as crianças sejam adultos responsáveis, é preciso tempo para brincar, para colo, para dar beijos.