A vida resolve. Nos dias bons, nos dias maus e nos assim-assim

Devíamos estar no Inverno. Ou para lá caminhávamos. Já não sabia a outono, mas ainda não tinha cheiro de Natal. Estava frio, mas não muito. E chovia. Mais do que os pingos molha-tolos, menos do que uma borrasca. Deviam ser umas seis horas, mais coisa menos coisa. Já estava escuro, mas nem era noite cerrada nem sabia a fim de tarde. Só me apercebi deste assim-assim de temperatura, de chuva e de luz natural quando desliguei o telemóvel. Estava a meio da Avenida Duque de Loulé, entre o Marquês de Pombal e o Liceu Camões, encostado à parede de um hotel com um guarda-chuva que não protegia do vento nem da água. Parado. Nem para cima nem para baixo. A cabeça a trabalhar rapidamente: «E agora, o que é que eu respondo a isto?»

Tinha acabado de atender um telefonema de uma amiga que me tinha feito um pedido complicado. Daqueles que nos fazem respirar fundo a pensar na resposta. Não porque não a saibamos, mas porque vamos ter de procurá-la onde custa mais – cá dentro. A minha amiga tinha um amigo que enviuvara recentemente. E ele estava como estão as pessoas que ficam viúvas. Vazio. A causa da morte da mulher pouco importa. Cada um carrega as suas cruzes, e as dele, naquele momento, eram aquelas. As dúvidas. A tristeza. O que tinha dito e deixado por dizer. O que tinha deixado por fazer. Se tudo o que fizera – e, caramba, se ele fez muito – parecia, afinal, que não tinha resultado e que o desfecho fora o que ele mais temia, então de que tinha adiantado? Falavam frequentemente, ele e a minha amiga, e ela já não sabia o que mais podia dizer-lhe. Saber, até sabia, mas queria mais. Queria que ele falasse mais. Que ouvisse mais. Ou, pelo menos, que ouvisse diferente. E por isso telefonou-me: «Tu, que passaste pelo mesmo, podes falar com ele?»

«A vida resolve.» Foi isso que disse ao P. (o nome não interessa para a história) na única vez que nos encontrámos cara a cara, num café da Avenida da Liberdade. Ele, tal como eu, não tinha filhos à data da morte da mulher, por isso o luto era vivido sozinho. Sem transferências. Não há fórmulas especiais nem métodos infalíveis, disse-lhe com base no que sabia. Cada pessoa sente a dor e a saudade de forma única. As pessoas que partem são diferentes, as que ficam e sentem a falta também. Há dias muito maus e outros ainda piores. Uns passam devagar, para sentir tudo, outros são empurrados com a barriga, para não sentir muito. E não pensar nada. Há quem passe pelas fases todas que os psicólogos teorizam, do choque à aceitação, passando pela revolta ou a negação. Há quem lhes troque a ordem. Há quem saia do negro para a página seguinte. Cada um saberá de si. Até ao dia em que, sem esperarmos, sem planearmos, descobrimos que somos capazes de gostar novamente. Pode demorar meses. Ou anos. Ou décadas. Abençoado órgão, o coração, que estica para podermos arranjar espaço para mais alguém, mantendo e respeitando o lugar que outra pessoa ocupou. Noutras circunstâncias.

É a primeira vez que escrevo sobre isto. Partilhar com quem não se conhece a experiência de perder alguém que se amava exige estofo. E exige, sobretudo, um motivo à altura para o fazer. Por respeito a quem partiu, à família que ficou, mas, sobretudo, por respeito à minha memória, achei que só devia fazê-lo quando tivesse alguma coisa nova para dizer. Para deixar os leitores a pensar no sentido da vida, na importância de não deixar coisas por dizer, na necessidade de arrumar a cabeça. Esse dia nunca tinha chegado. Até hoje. Afinal não são precisas trombetas. Basta um sinal. Um clique. Vi há pouco no Facebook que o P. casou. Ia sabendo dele pela rede social, mas nunca mais tínhamos falado. Está feliz. Mandei-lhe uma mensagem a dar os parabéns e confirmou-me que sim, que a vida resolveu. Com naturalidade.

 

[Publicado originalmente na edição de 10 de maio de 2015]