Abrir as gavetas da memória

Sinto-me como um daqueles escritores que se isolam numa ilha recôndita de um qualquer mar tropical, cheias de palmeiras e sons da natureza, para poderem dedicar-se apenas ao processo de escrita. Daqueles que podem dar-se ao luxo de parar tudo e apenas escrever. Daqueles que se justificam com a necessidade de fontes de inspiração.

Um sonho, portanto.

Tirei dois dias para isto. No meio do nada, não numa ilha, mas rodeada apenas de oliveiras, lamas, suricatas, emas, cangurus, gatos, cães, insectos (estes eu até dispensava, mas fazem parte do pacote) e mais uns bichos que, confesso, ainda não sei como se chamam. Tenho de ir perguntar à senhora deste monte, simpática e faladora compulsiva, bastante eloquente na forma como descreve o local e os seus animais. Deixarei isto para quando o sol se puser, sob pena de não conseguir escrever mais do que duas linhas seguidas durante o dia.

Ao longe ouvem-se as vacas e os burros e, aqui mais perto, o som da rega (o sol promete) e do pequeno-almoço a ser preparado dentro de casa. Ouço ainda uns pássaros aos gritos, mas também não sei que pássaros são.

Os meus conhecimentos bucólicos deixam algo a desejar, eu sei, embora sempre tenha crescido no campo. Rato da cidade no campo, poderia dizer-se.

Não se vêem mais pessoas, apenas a linha do horizonte com o sol que nasceu cedo. Há muitos, muitos anos que não via o sol nascer. Em boa verdade, vi o sol nascer apenas uma vez, em miúda, no Alentejo, quando pedi ao meu pai para me acordar de propósito, para que eu e a minha irmã o pudéssemos ver. Mortas de sono ali ficamos sentadas, a olhar para o nada, até que ele chegou. Vimos e sorrimos e a seguir voltámos para a cama. Estava feita a nossa vontade.

Estar aqui reactivou memórias importantes. Faz-me pensar neste processo fantástico de activação de memórias. Recordações que estão lá, arquivadas e fechadas a sete chaves, e das quais não nos recordamos mesmo. Depois, de repente, um cheiro, um som, uma palavra ou um local, e estas memórias emergem sem pedir licença. Invadem-nos e fazem-nos sentir, coisas boas ou coisas menos boas. Nostalgia, saudade, tristeza ou alegria…

Quando as memórias activadas são negativas, tendemos a evitá-las, voltem-lá-para-o-sítio-onde-sempre-estiveram-se-faz-favor. Um processo de negação que não permite elaborar estas mesmas memórias.

Se as voltarmos a fechar na tal gaveta, elas ficam lá, é certo. Mas desengane-se quem pensa que estas memórias não nos influenciam. Muitas vezes sem percebermos como, de forma não consciente, mas influenciam.

Falemos então de memórias negativas, até traumáticas. O que fazer com elas?

Há uma metáfora de que gosto muito (de uma forma geral, gosto de metáforas). Imaginemos um armário cheio de gavetas. Se dentro de cada uma dessas gavetas estiverem memórias negativas, que tentamos a todo o custo evitar e fazer-de-conta que não existem, fechando as gavetas à pressa para deitar a chave fora, a verdade é que teremos gavetas muito desarrumadas. E sabemos que, quando assim é, nem sempre as gavetas fecham bem. O móvel fica instável, com gavetas mal fechadas.

O que é preciso fazer para fechar as gavetas? Arrumar a papelada que lá está dentro. Quando o fazemos, percebemos que até sobra espaço e as gavetas fecham sem problema.
Arrumar a papelada é tirar tudo cá para fora e voltar a arrumar. Implica olhar para estes papéis. Implica confronto com as nossas memórias. O que pensamos? O que é que isso nos faz sentir? Será que aquilo que pensamos é, de facto, a forma mais adequada de olhar para aquela situação?

Sentimos tantas vezes emoções negativas, como culpa, vergonha, medo ou raiva, associadas a pensamentos desadequados, atribuições erradas, crenças disfuncionais.
Sim, precisamos muitas vezes de ajuda de outras pessoas para perceber isto e poder elaborar as nossas memórias. Mas a verdade é que, uma vez elaboradas, podemos, sim, fechar as nossas gavetas e até deitar a chave fora, se entendermos. Porque também temos o direito a esquecer.

No outro dia, um jovem adulto que acompanhei em criança por ter sido vítima de maus tratos dizia-me: «tenho o meu armário fechado. E não quero voltar a abri-lo. Mas sei que as gavetas estão lá arrumadinhas, por isso não me preocupo».

Memórias à parte, estão agora a chamar-me para o pequeno-almoço. Este cheiro a café e pão acabado de sair do forno faz-me lembrar…