Abriu a época de estudo para os exames. E agora? Os conselhos dos especialistas.

Hoje é o último dia de aulas para os alunos do 9.º, 11.º e 12.º anos de escolaridade. Os próximos 15 dias deverão ser de estudo para os exames finais. Como organizar o tempo e fazê-lo render para tornar o estudo mais eficaz? Como gerir a ansiedade? E os pais, como podem ajudar? O pedopsiquiatra Pedro Strecht e o professor Renato Paiva dão alguns conselhos.

Texto de Catarina Pires | Fotografia de iStock

Hoje é dia de festa, sobretudo para os que terminam um ciclo. Vão andar em despedidas, choro e riso. É também dia de nervoso miudinho. Pelo deixam para trás e pelo que ainda têm pela frente. Amanhã, começam duas semanas de trabalho de preparação para os exames finais. E quer se queira, quer não, há sempre alguma ansiedade associada a esta fase, partilhada por pais e filhos.

Esta não é necessariamente má. Há uma dose de “boa” ansiedade, que nos põe a organizar tarefas, a antecipar e a precaver o futuro, explica o pedopsiquiatra Pedro Strecht, adiantando que “quem não revela nenhuma tensão natural nestes momentos é provável que esteja demasiado desligado de obrigações e expectativas positivas em relação à escola”.

Pedro Strecht “passava uma bela esfregona pelo sistema de ensino português, uma nódoa para o qual tardam soluções do ponto de vista curricular e avaliativo, que valoriza a memorização de informação e sua reprodução em detrimento do pensamento e da criatividade”.

Dito isto, o especialista dá um alerta aos pais: devem ser eles os primeiros a modelar a ansiedade dos filhos, controlando a sua própria. “O trajeto escolar é importante, mas aquilo que cada adolescente vier a ser no futuro é resultado de uma imensa construção de etapas. Na formação global de um filho, enquanto pessoa, há muitos outros fatores que superam uma simples média académica”.

Para Pedro Strecht – que “passava uma bela esfregona pelo sistema de ensino português, uma nódoa para o qual tardam soluções do ponto de vista curricular e avaliativo, que valoriza a memorização de informação e sua reprodução em detrimento do pensamento, da criatividade e da ação” e que observa que “esta geração passa muito mais tempo na escola e estuda muito mais do que a dos pais” -, a melhor forma de lidar com a ansiedade dos exames é estar certo de que se fez um bom trabalho ao longo do ano letivo. “Sendo assim, estudar será sobretudo rever matérias já dadas e, com certeza, anteriormente estudadas”.

Relativizar também é importante: “o que se faz em 1h30 vale menos do que aquilo que se fez ao longo de meses, ou de anos, no caso dos alunos do secundário, sempre mais pressionados com as médias. Importa lembrar-lhes que há muitos fatores que contam mais do que uma só nota”, diz o especialista, que, apesar de considerar que há vida para além da escola e que é preciso dar aos mais novos a possibilidade de sonhar, não desvaloriza a importância das notas e do desempenho académico e por isso adianta alguns conselhos práticos para as próximas semanas.

Organizem-se

Fazer um plano de estudo é essencial porque ajuda muito a ter uma ideia da tarefa que se tem pela frente e de como controlá-la. “Quanto mais organizado e previsível for esse plano, menos ansiedade se notará. Mas é importante também criar momentos de pausa e descontração diários, aquilo a que gosto de chamar ‘pontos de fuga’”, diz Pedro Strecht.

Renato Paiva, diretor da Clínica da Educação e da Academia de Alto Rendimento Escolar Wowstudy e autor de livros como SOS Tenho de Passar de Ano, Ensina o Teu Filho a Estudar ou O Segredo para Alcançar o Sucesso na Escola, também defende a importância de delinear um plano. Para o especialista, o estudo, nesta altura, deve primar por ser atempado e regular.

Renato Paiva aconselha a que o estudo seja diversificado, que envolva treino de resposta, ensinar o que se sabe, resolução de exercícios e preparação para a gestão de emoções, da ansiedade, do stress e do nervosismo

“Devemos ter um plano de trabalho que nos permita, com maior tranquilidade assumir que estamos preparados dois dias antes do exame, que devemos ter a matéria toda estudada cerca de uma semana antes e que o tempo até ao exame seja de treino, de simulação e de ajustar pequenos pormenores e informações que ainda não estejam tão bem consolidadas”.

Embora considere que não existe um método que se possa “receitar” como o mais eficaz, porque cada aluno tem um perfil de aprendizagem diferente, o professor aconselha a que o estudo seja diversificado, que envolva treino de resposta, ensinar o que se sabe, resolução de exercícios e preparação para a gestão de emoções, da ansiedade, do stress e do nervosismo. “A nota não vai caracterizar o que os alunos sabiam naquele dia, mas sim o que conseguiram demonstrar que sabiam. E isso é preciso treinar porque as condicionantes negativas que possam ocorrer no dia do exame podem, e devem, ser preparadas”, diz.

Tempo para trabalhar e tempo para descansar

Quanto ao tempo que em cada dia deve ser dedicado ao estudo, Renato Paiva considera que tão importante como o tempo de estudo é o tempo de descanso. “Insistir e trabalhar são benéficos, mas saber parar também. O sono e o descanso ajudam a aprender. Fundamental é que os alunos tenham consciência de que o tempo não volta atrás e que devem aproveitá-lo da melhor maneira possível”, diz.

As primeiras horas do dia são as mais produtivas para o estudo, diz Pedro Strecht, fazendo uma sugestão útil para os dias de estudo de muito calor (que se adivinham): “uma pequena sesta, não mais de trinta minutos a seguir ao almoço”

O pedopsiquiatra Pedro Strecht confirma que uma boa noite de sono é sempre essencial. “De base, os adolescentes e adultos portugueses já dormem pouco e mal. Ora, o sono é a arma mais reparadora para um bom funcionamento cerebral. Ignorá-lo é equivalente a ignorar uma alimentação cuidada [ver caixa sobre a importância da alimentação], virada para o desgaste extra que qualquer estudante terá durante este período. Depois, há ainda hormonas que libertamos e seguem determinado ciclo ao longo de um dia, incluindo as ditas de ativação cerebral”, explica.

“É por isso que, sem dúvida, as primeiras horas do dia são mesmo as mais produtivas para o estudo”, diz Pedro Strecht, fazendo uma sugestão muito útil para os dias de estudo de muito calor (que se adivinham): “uma pequena sesta, não mais de trinta minutos a seguir ao almoço (para também não se entrar num sono muito profundo), é sempre extremamente reparador”.

“Estudar para os exames é uma responsabilidade dos alunos não dos pais. Mau é se no secundário os meninos e meninas ainda precisam de pais-polícia que os controlem nos estudos”

Os pais devem ser a claque de apoio

Estes alunos, na sua grande maioria, já são maiores de 15 anos e terão que gerir sozinhos o seu tempo e o seu estudo, uma vez que os pais estão a trabalhar e eles ficarão em casa, por sua conta.

O que devem os pais fazer para garantir que esse tempo não é passado no telemóvel, na Play Station ou na conversa com os amigos?

A palavra-chave, tanto para o pedopsiquiatra como para o professor é confiança. “Estudar para os exames é uma responsabilidade dos alunos não dos pais. Mau é se no secundário os meninos e meninas ainda precisam de pais-polícia que os controlem nos estudos. Se assim for, algo está errado”, avisa Renato Paiva, quase fazendo eco das palavras de Pedro Strecht, que afirma a necessidade de dar autonomia aos adolescentes e manter uma boa relação de confiança.

“Estudar para os exames é uma responsabilidade dos alunos não dos pais. Mau é se no secundário os meninos e meninas ainda precisam de pais-polícia que os controlem nos estudos”, diz Renato Paiva.

“Por exemplo, é desejável que, quando os pais chegam a casa ao final do dia, o tempo de estudo já esteja a terminar. Sem autonomia ou confiança, os pais podem incorrer no erro de dizer coisas como ‘nunca te vejo a estudar’ ou ‘por acaso já estudaste hoje?’ ou os filhos ficarem a espera da presença dos adultos para literalmente ‘arrancarem’ no estudo, numa atitude de grande dependência dos pais”, que não é desejável.

Aos pais cabe ficarem, portanto, na retaguarda, no papel de claque de apoio. “A melhor forma de ajudarem é pelo incentivo, pelo exemplo, pela responsabilização, pela crença, pela linguagem positiva e encorajadora, por mostrar que estão mais preocupados com a atitude e esforço do que pelos resultados. Fazer sentir que os filhos são muito mais do que notas de exame”, diz Renato Paiva.

O que fazer e o que não fazer no período de preparação
para os exames

O que FAZER para tirar o melhor proveito e rendimento do estudo?

Manter foco, definir objetivos, planificar bem o tempo e o que fazer em cada sessão de estudo, assumir um pensamento positivo ‘vai dar trabalho mas eu vou conseguir’, tirar dúvidas atempadamente, pedir ajuda se necessário e sentir-se preparado com antecedência para evitar nervosismo e ansiedade desnecessárias”, aconselha Renato Paiva

O que NÃO FAZER neste período de preparação?

“Deve ser evitado um estudo monótono, tardio, com longas maratonas de horas a estudar, com estratégias de memorização em detrimento da compreensão. São também de afastar pensamentos negativos do género ‘o exame é sempre difícil’, ‘sempre tive dificuldades a esta disciplina’ ou ‘não vou conseguir'”, diz o especialista.

Atenção ao que come

Uma alimentação saudável e equilibrada, com pouco açúcar, deve ser a regra sempre, mas nestas alturas, há uma propensão maior a abusar de guloseimas e a saltar refeições.

Muitas vezes, há quem recorra também a suplementos, de venda livre na farmácia, nomeadamente os que contêm o que o cérebro mais desgasta nestas alturas: ferro, magnésio, vitamina B6 e B12, ómega 3, etc. Contudo, além de estes não deverem ser tomados sem orientação médica, uma boa alimentação basta para manter os níveis destas substâncias, garante o médico Pedro Strecht.

O especialista aconselha a fazer sempre e pelo menos “cinco refeições, seguindo um registo do que chamamos de ‘pirâmide invertida’, isto é, ir comendo menos a medida que o dia vai passando. Sendo assim, pequeno-almoço e almoço podem e devem ser as refeições mais fortes, em que, para além dos hidratos de desgaste rápido, importa nunca esquecer a proteína. É fundamental ainda chamar a atenção para a necessidade de beber regularmente água para manter uma boa hidratação”.