Adoção: o dia em que elas nos transformaram num pai e numa mãe

Ana Kotowicz e o marido adotaram duas crianças há dois anos. Agora, depois de uma longa caminhada burocrática e emocionalmente desgastante, a jornalista escreveu o livro Adotar em Portugal – Um Guia Para Futuros Pais, e conta à Life, na primeira pessoa, o que sentiu no dia em que recebeu o telefonema pelo qual todos os pais nestas circunstâncias anseiam.

«Mãe, como é que decidiram ter as filhas?» A mais velha repete a mesma pergunta uma e outra vez. E já me corrige quando eu salto um pormenor, ou quando tento apressar a versão. A sua parte favorita é a do dia do telefonema, e farta-se de rir sempre que digo que o pai não acreditava quando eu lhe disse que íamos ter duas filhas de uma só vez. A minha preferida é a do dia em que nos conhecemos e fui chamada de mãe pela primeira vez.

Mas, afinal, como é que aconteceu? Foi mais ou menos como vos vou contar, embora em versão supersónica.

Em 2002, quando eu e o Paulo nos conhecemos, já eu ansiava por ser mãe. Ele ainda não pensava muito nisso. Queria ser namorado primeiro, marido depois, e só mais tarde pai. Tínhamos muito tempo pela frente para namorar. Só os dois.

Em 2012, quando nos casámos para celebrar a nossa primeira década juntos, já queríamos muito ter uma família. Não sabíamos que a gravidez era impossível, mas intuíamos. Quando a certeza chegou, o passo seguinte era óbvio. A adoção já fazia parte do nosso léxico. Faltava o falhanço num disco de Petri para nos dar o boost para passar à fase seguinte.

Quando chegou o diagnóstico de infertilidade, a certeza de que íamos avançar já estava connosco. Faltava o resto. Até que idade? Um ou dois? Rapaz ou rapariga? A etnia importava? E os problemas de saúde?

Imaginava se seria capaz de amar alguém que não nasceu de dentro de mim, que não teria os meus olhos nem o sorriso do pai. Sim, sim, sim, era o que o meu interior gritava.

De repente, a imagem de mim com dois bebés no colo – sempre sonhei ter gémeas – desaparecia. Imaginava-me com uma criança de três, de cinco, de oito anos aninhada em mim. Às vezes rapaz, às vezes rapariga, ora de cabelos louros, ora de carapinha. Imaginava se seria capaz de amar alguém que não nasceu de dentro de mim, que não teria os meus olhos nem o sorriso do pai. Sim, sim, sim, era o que o meu interior gritava.

Passou um ano entre a fertilização falhada e o início do processo de adoção. Depois veio a burocracia, a avaliação, a visita a casa. Tudo coisas que demoraram menos de um nanosegundo, mas que na altura foram gravadas em câmara lenta. Passaram-se dois anos até o telefone tocar. E lembro-me exatamente como foi.

Estava deitada no quarto dos brinquedos quando o telefone fixo tocou. Costumo ignorar o seu toque porque nunca nada de importante chega a partir dali. Nada chegava. Até aquele dia de férias de Natal.

«Temos duas manas», atirou a voz sorridente sem qualquer tipo de preliminares. E foi assim, como uma espécie de murro na boca do estômago, que soube que ia ser mãe. Rebentaram as águas, pensei.

Quando ligaram pela segunda vez, estava pronta para despachar uma operadora de telemarketing. Estava a beber a primeira chávena de café do dia para me ajudar a acordar enquanto me sentava naquele quarto – como fazia tantas vezes – a tentar adivinhar quanto tempo faltaria para estar cheio de filhos.

Do outro lado da linha uma voz soava a parcialmente conhecida, a vagamente importante. Era da Santa Casa da Misericórdia. «Temos duas manas», atirou a voz sorridente sem qualquer tipo de preliminares. E foi assim, como uma espécie de murro na boca do estômago, que soube que ia ser mãe. Rebentaram as águas, pensei. A conversa que se seguiu desapareceu dentro de mim. Não sei dizer se foi longa ou curta, se me deram muita ou pouca informação. Só queria ir dizer ao futuro pai, que estava a dormir.

Corri casa fora e lembro-me de pular em cima dele enquanto dizia o nome das nossas filhas. E de lhe dizer que era mesmo o nome das nossas filhas. Lembro-me de ele me rosnar, de não acreditar, de me dizer para parar com a brincadeira.

Ser chamada de mãe pela primeira vez é uma sensação que vai ficar agarrada à minha pele para sempre.

E eu a insistir, a pular, a repetir o nome delas e as idades e a pouca informação que retive do telefonema. E ele baralhado, estremunhado, a demorar a acreditar em mim, até não lhe restarem dúvidas de que era verdade e podermos então os dois fazer a dança da felicidade.

Até que o dia chegou. Ser chamada de mãe pela primeira vez é uma sensação que vai ficar agarrada à minha pele para sempre.

Elas estavam a andar de baloiço. A imagem é tão vívida que só pode estar a acontecer agora. Nós parámos quando elas levantaram os olhos para nós. Estava cheia de medo que fugissem, que nos rejeitassem. «Pai, mãe», gritaram e desataram a correr na nossa direção. Pularam cada uma num dos nossos colos, deram-nos um beijo e um abraço e a mais velha disse: «Vamos brincar.» E nós fomos. Até hoje.

E foi assim que elas nos adotaram e transformaram um casal sem filhos num pai e numa mãe.

Adotar em Portugal, de Ana Kotowicz. Ed. Livros Horizonte, 224 páginas, 17,90 euros.