Os adolescentes estão a beber (de) mais. Como devem os pais reagir?

O álcool faz parte do convívio familiar e com amigos e é um dos «desbloqueadores» sociais mais utilizado em todo o mundo. Chega o verão e as festas e festivais e, com eles, a publicidade a convidar para «um copo». Os jovens são um grupo mais vulnerável no que respeita a consumos. A psiquiatra Mónica Almeida explica como os pais devem lidar com isso.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia Shutterstock

Os festivais de verão, os sunsets, as noites quentes e festas brancas estão aí para nos divertirmos a valer – sempre de copo na mão. A questão é: a partir de que idade? A lei portuguesa estabelece que é aos dezasseis anos, mas a maioria começa mais cedo. E logo com noites de excessos e álcool em demasia.

Os pais estão mais ou menos a par da realidade fora de casa e querem confiar nos filhos. No entanto, há que ter consciência de que, na fase da adolescência, ainda há que estabelecer limites e dizer que «não».

Falámos com Mónica Almeida, psiquiatra da Unidade Psiquiátrica Privada de Coimbra (UPPC), para perceber os malefícios do consumo de álcool em idade precoce e como agir, sobretudo em casa, para controlar a situação.

Os números relativos ao consumo de álcool na adolescência são preocupantes, não são?
De forma geral, os dados da União Europeia apontam para um crescimento no consumo de álcool entre os jovens. Cerca de um quinto dos jovens com mais de quinze anos consome cinco ou mais bebidas, pelo menos uma vez por semana. Estamos a falar de uma quantidade muito preocupante, sim. A região da UE é também aquela que mais bebe álcool em todo o mundo.

Existe uma enorme pressão e todo um marketing que nos rodeia que reflete o álcool como algo positivo. As festas, a diversão, sobretudo, entre os amigos, com os brindes e a valorização da amizade através do álcool.

Estamos a falar de comportamentos viciantes?
Sim, são padrões de comportamento que se repetem. A adolescência tem também essa questão. É um período de busca no geral, de experiências, aprendizagens, da própria identidade. Muitas vezes, os hábitos adquiridos neste período têm maior propensão para se perpetuarem no tempo.

No entanto, existe uma grande pressão social para começarmos a beber desde jovens.
Absolutamente. Existe uma enorme pressão e todo um marketing que nos rodeia que reflete o álcool como algo positivo. As festas, a diversão, sobretudo, entre os amigos, com os brindes e a valorização da amizade através do álcool. E isto, na cultura portuguesa, está muito enraizado. Quando combinamos alguma coisa com alguém, combinamos para «beber um copo».

No verão, particularmente, vemos esse marketing atuar em força e o consumo de álcool dispara entre os jovens.
É uma diferença muito significativa entre o inverno e o verão. Também porque, em período de aulas, há uma maior restrição de saídas, das dormidas fora… Há menos oportunidades nestes meses. Chega o verão e o período de férias grandes, com os acampamentos, as idas para casa dos amigos ou mesmo familiares, as festas nas aldeias. Há muito mais hipóteses para beberem álcool sem o controlo dos pais.

Os jovens tendem a procurar um efeito imediato no álcool, euforizante e que pode surgir a partir de soluções nada aconselháveis.

Quais são as bebidas de eleição nestas idades?
Se pensarmos bem, o vinho e a cerveja são bebidas mais amargas, mais estranhas ao palato. Os jovens acabam por optar pelas mais doces, pelos vodkas com sumos, licores. Também bebem shots que transmitem a sensação de partilha do momento. Tendem a procurar um efeito imediato no álcool, euforizante e que pode surgir a partir de soluções nada aconselháveis. Em Portugal, ainda não vemos muito, mas em alguns países europeus e orientais, usam os tampões vaginais embebidos em álcool para essa sensação instantânea. A absorção é mais rápida e pode levar ao descontrolo muito rápido. Aqui, a questão nem está no palato ou na partilha com amigos. Só estão à procura da euforia e da desinibição.

E quando os pais bebem em casa? Ou seja, quando a cultura do álcool vem da própria educação.
É uma questão complicada. Até aos dez anos, mais ou menos, tendemos a ver o álcool como uma coisa horrível, que repudiamos. Depois, existe uma mudança de pensamento e passamos a vê-lo como bom e necessário. Se, em casa, a bebida é vista com bons olhos e mesmo consumida numa base diária, é natural que os jovens apreendam esse hábito mais rápido. O melhor é mesmo um consumo moderado e uma educação franca no sentido de promover limites, para que os jovens percebam claramente os efeitos do consumo.

A fiscalização mais apertada e as multas avultadas seriam uma boa política para contornar o consumo exagerado.

É quase impossível a proibição total do consumo de álcool já que, ao sair de casa, os adolescentes têm fácil acesso. Quais são, então, as medidas a tomar?
A proibição imediata não é o caminho. A Organização Mundial de Saúde alerta para a necessidade de limitar o poder de compra, uma vez que os jovens que têm muito dinheiro para gastar, é mais natural que vão à procura de bebidas mais caras e com maior gradação alcoólica. Também é importante considerar as diferentes idades. Em Portugal, o limite mínimo permitido é dezasseis anos mas há países com dezoito ou mais. Na Europa, tende a ser dezasseis também mas é a região do mundo onde se bebe mais na adolescência.

25% das mortes em idades jovens, dos 15 aos 30 anos, são por acidentes de viação e mais de um quinto dessa percentagem acontece por causa do excesso de álcool.

Isso acontece porque há pouca fiscalização e penalização para quem vende álcool a menores de 16?
A fiscalização mais apertada e as multas avultadas seriam uma boa política para contornar o consumo exagerado. Se as próprias bebidas fossem mais caras também limitaria o consumo porque os jovens não têm muito dinheiro mas ainda há sítios com cervejas a setenta cêntimos. Sobretudo, regular o marketing, deixar de vender esta ideia de convívio e mostrar os malefícios também. Fizemos isso com o tabaco e teve resultados, temos de começar a fazer com as bebidas alcoólicas também. É importante perceber que 25% das mortes em idades jovens, dos 15 aos 30 anos, são por acidentes de viação e mais de um quinto dessa percentagem acontece por causa do excesso de álcool.

Quais são os sinais de alerta a que os pais devem ter em atenção?
O mais importante é perceber se há um padrão regular de consumo. O jovem bebeu um pouco demais num dia de anos ou no Natal e até contou aos pais não é preocupante. Se acontece a cada vez que sai com os amigos é um sinal. Sobretudo, se começam a notar que o filho tem questões de inibição e já procura no álcool o escape para essa timidez. Há dois traços de personalidade na adolescência que são mais propensos para a bebida: os impulsivos e disruptivos, que habitualmente têm menos noção da responsabilidade e procuram romper os limites e, por outro lado, os adolescentes mais tímidos ou deprimidos que procuram uma forma de interação. Se começam a estar sempre irritados no dia seguinte ou a pedir dinheiro a mais para sair também considere que são sinais. Acima de qualquer coisa, não tratem o assunto como se não tivesse importância.