Adriana está a ajudar a reescrever a história dos refugiados

(Fotografia de Fréderic Moreau de Bellaing).

Começou por ir para Bruxelas fazer voluntariado com refugiados. Comprou uma viagem para um mês mas já se passaram quatro anos. Desde maio de 2018, Adriana Costa Santos passou de voluntária a trabalhadora da Plataforma Cidadã de Apoio aos Refugiados. E é ela a face visível da luta pela justiça social, que dá a voz a todos os que não têm essa possibilidade e que veem, diariamente, os seus direitos violados.

Texto de Cláudia Pinto

Quando se licenciou, em Relações Internacionais, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), em Lisboa, em 2015, Adriana Costa Santos, hoje com 25 anos, decidiu fazer uma pausa. Sempre gostou de estudar e embora o pai não concordasse com a ideia de não seguir logo para o mestrado, sabia que precisava de um ano sabático e que gostaria de se envolver em projetos de voluntariado. Como não tinha nenhum plano em concreto, a melhor amiga – que estava em Bruxelas a fazer Erasmus – perguntou-lhe se não queria ir ter com ela durante um mês para ser voluntária num campo de refugiados.

“Comprei bilhete de ida, com data de 1 de outubro, e de volta, a 1 de novembro de 2015”, conta. Não regressou. Pelo menos em definitivo, pois as viagens a Portugal que vai fazendo, no verão ou no Natal, cingem-se às férias. E nem sempre por muito tempo. Neste Natal, por exemplo, ficará apenas quatro dias. “Isto não para, estão sempre coisas a acontecer”, explica, enquanto é entrevistada via telefone e vai recebendo mensagens no telemóvel, continuamente. Tem dificuldade em desligar. Como poderia fazê-lo se lida diariamente com situações limite e vidas suspensas?

“O que me move são as soluções. Seria incapaz de saber que tudo isto se passa de forma invisível e não fazer nada”, desabafa Adriana Costa Santos. (Fotografia de Fréderic Moreau de Bellaing).

Aquilo que começou por ser um projeto temporário de voluntariado transformou-se no seu emprego, há ano e meio. Adriana sempre se interessou pela questão dos refugiados e ainda tentou procurar formas de ajudar em Portugal mas rapidamente percebeu que o nosso país “trata estas pessoas de forma humana e digna”, ao contrário do que encontrou na Bélgica. Sente-se mais útil lá. Atualmente é vice-presidente da Plataforma Cidadã de Apoio aos Refugiados (tradução do nome original Plateforme Citoyenne de Soutien aux Réfugiés Bruxelles), onde começou por ajudar num campo de dia a acolher pessoas que chegavam, oriundas de vários países. “Era importante começar a dar voz a quem não tinha essa possibilidade”, diz.

Quanto à entrega e defesa da tese de dissertação, aconteceu neste ano, em agosto, dedicando o tema ao impacto psicológico e sociológico da diminuição do estatuto social de refugiados sírios.

Em setembro de 2016 teve início o seu mestrado em Antropologia, na Université Libre de Bruxel­les mas, com o acumular de responsabilidades e de tarefas na Plataforma Cidadã, teve de adiar a sua conclusão. Foi nessa altura que achou que seria importante arranjar uma casa e trabalhar para pagar os estudos. Passou para a gestão e recrutamento de voluntários da Plataforma, uma atividade que mantinha como voluntária e que conciliava com outros trabalhos, em bares ou de babysitting. Quanto à entrega e defesa da tese de dissertação, aconteceu neste ano, em agosto, dedicando o tema ao impacto psicológico e sociológico da diminuição do estatuto social de refugiados sírios. “Muitos deles eram médicos e engenheiros, tinham emprego e o facto de virem para Bruxelas levou a que perdessem esse estatuto e tivessem de recomeçar em trabalhos que não correspondiam minimamente às suas habilitações”, conta Adriana, que recebeu a nota de 15 valores.

Com a chegada de novos refugiados, sobretudo do Sudão e da Eritreia, em finais de 2016 e início de 2017, Adriana Costa Santos criou o grupo privado de Facebook Hébergement Plateforme Citoyenne (que conta hoje com mais de 40 mil membros) para apelar a que os cidadãos alojassem refugiados nas suas casas. A iniciativa foi um sucesso. “Muitas pessoas foram aderindo e o mais curioso é que, da primeira vez que acolhiam alguém, escreviam sobre a sua experiência e incentivavam outros. Recebíamos mensagens de pessoas que acolheram outras e que ficavam comovidas por poder ajudar.” Os cidadãos começaram a perceber os riscos que os refugiados corriam. “Muitos, em trânsito para Inglaterra, podiam ser apanhados pela polícia ou ter de saltar para camiões na autoestrada.”

Na Plataforma Cidadã de Apoio aos Refugiados, Adriana é a face visível da luta pela justiça social, dando voz a todos os que não têm essa possibilidade e que veem, diariamente, os seus direitos violados. (Fotografia de Fréderic Moreau de Bellaing).

Das frases que mais recebeu realça as seguintes: “De facto, são pessoas como nós”; “Muitos deles são adolescentes como os meus.” Mas a que mais a marcou foi logo no começo da iniciativa, uma senhora que comentava: “No início tive medo, por mim, pela minha casa, pelos meus filhos. No dia seguinte, tinha medo por eles [refugiados].” Adriana não está a lutar sozinha. O namorado belga Mehdi Kassou também é voluntário e assegura a parte da comunicação. “Todos os dias tentamos mobilizar mais pessoas e mudar mentalidades”, diz. E tem conseguido. Hoje, são cinco mil os voluntários e nove mil as famílias que acolhem outros em suas casas. No total, e segundo dados à data de fecho desta edição, tinham sido possibilitadas 240 mil pernoitas através da Plataforma.

O facto de este movimento estar a crescer deu à Plataforma Cidadã algum poder de pressão política. “Na Bélgica, como o governo federal era de extrema-direita e pelo facto de estar completamente fechado a qualquer tipo de negociação, a única alternativa que tínhamos era tentar negociar com o governo regional que acabou por nos propor um campo [Porte d”Ulysse], onde alojamos, todas as noites, 350 pessoas. Também nos foi concedido um subsídio para ter pessoas a trabalhar no mesmo”, conta. A jovem não é branda nas críticas. “Ao mesmo tempo que os discursos políticos extremistas descredibilizam o poder dos cidadãos em fazer a diferença, os argumentos de corrupção, de tirania, de medo, levam a que a agenda política esteja longe de querer dar novos direitos a estas pessoas.”

Adriana conhece o peso de lidar diariamente com “violência, emergência social, histórias de vida terríveis”. Os refugiados atualmente chegam do Sudão (sobretudo do Darfur onde houve um conflito étnico), da Etiópia e da Eritreia. Algumas pessoas vêm ainda do Iraque, da Síria e de outros pontos de origem. “O que me move são as soluções. Seria incapaz de saber que tudo isto se passa de forma invisível e não fazer nada”, desabafa.

A Plataforma tem um projeto de alojamento coletivo que consiste em colocar casas à disposição, por várias freguesias, para alojar cerca de 15 pessoas em cada uma, com a devida coordenação dos voluntários. Há cerca de um ano, foi aberta uma casa para mulheres – a Sister”s House – que permite alojar, todas as noites, 26 refugiadas sem abrigo. Divididas em dois apartamentos cedidos pelo município de Ixelles e com a ajuda de 35 voluntárias, além de terem um teto, recebem comida, possibilidade de tomar banho, acompanhamento psicológico, social e médico.

“No discurso de entrega do prémio, tanto eu como o Mehdi confessámos que os nossos sentimentos eram muito ambíguos por sabermos que estávamos a ser reconhecidos por algo que não deveríamos estar a fazer”, explica.

Têm sido vários e recorrentes os prémios atribuídos a esta Plataforma. Como Adriana e o namorado são as faces mais expostas, acabam por ser sugeridos para algumas distinções que habitualmente recusam. “Não estamos de acordo. Temos como filosofia recusar distinções a título pessoal e solicitar que sejam atribuídas à Plataforma Cidadã, como um todo, enquanto trabalho conjunto”, diz Adriana. Foi o caso do Prémio Henri La Fontaine [nobel da Paz em 2013] para o Humanismo, entregue em outubro de 2018, uma distinção que reconhece personalidades e instituições que defendam a justiça social e o humanismo. “No discurso de entrega do prémio, tanto eu como o Mehdi confessámos que os nossos sentimentos eram muito ambíguos por sabermos que estávamos a ser reconhecidos por algo que não deveríamos estar a fazer”, explica.

Em dezembro de 2018, recebeu, a título pessoal, o Prémio Direitos Humanos Amnistia Internacional Bélgica (secção francófona), distinção atribuída a jovens que defendam os direitos humanos.

Adriana partilha o orgulho que sente por estar a ajudar “a reescrever a história” e sente que faz parte de uma geração mais forte, resiliente e combativa, fruto dos tempos difíceis que se vivem. “Sou de uma geração de filhos de pais que viveram o início da democracia e netos de pessoas que combateram ou que resistiram contra a ditadura. Os nossos pais lutaram para que tivéssemos direitos e temos de lutar para que certas situações não continuem a existir”, conclui.