Afinal, devemos ou não tomar banho todos os dias?

Sabe aquela crença de que tomar banho diariamente é um hábito de higiene básico a seguir por todos? E que quem não o faz só pode andar por aí a cheirar mal e a incubar doenças? Pois se calhar temos andado enganados até agora. Ou não.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

Há quem corra para o duche mal se levanta da cama. Quem o tome em dias alternados e até não mais do que três vezes por semana – apesar do que sempre nos disseram em crianças sobre um banho por dia ser das mais elementares regras de higiene, na tentativa de nos convencerem de que só teríamos a ganhar em entrar na banheira.

Na verdade, demasiada limpeza diária pode estar a danificar-nos a camada de micro-organismos à superfície da pele (o microbioma) e a prejudicar o seu funcionamento saudável, em vez de protegê-la contra as agressões exteriores como é suposto, alerta Kevin Hermanson, investigador em dermatologia e cosmética da Dove, Unilever.

“Enquanto antes se defendia a eliminação de todas as bactérias, hoje em dia sabe-se que a saúde da pele depende do equilíbrio entre as células e os milhões de bactérias que vivem sobre ela”, explica o especialista, para quem cuidar do microbioma deve ser prioritário nas rotinas de higiene de forma a evitar problemas como acne, dermatite atópica, psoríase, erupções cutâneas, descamação, pruridos e vermelhidões na pele.

De uma perspetiva de saúde pública, mais banhos não significa necessariamente melhor.

Já para não falar no facto de as chuveiradas diárias (e mesmo bidiárias) comprometerem a hidratação natural da pele, o que pode aumentar o risco de infeções ao contrário do que seria de supor, acrescenta em entrevista à Time Elaine Larson, especialista em doenças infeciosas da Universidade de Columbia, EUA. De uma perspetiva de saúde pública, diz, mais não significa necessariamente melhor.

“Creio que tomamos banho sobretudo por razões estéticas. As pessoas acham que o fazem por motivos de higiene ou para ficarem mais limpas, mas bacteriologicamente não é esse o caso”, acrescenta a investigadora em epidemiologia, considerando que um duche é ótimo contra maus odores, embora lavar as mãos seja mais eficaz a controlar a transmissão de agentes infeciosos e evitar doenças.

Para o dermatologista Paulo Ferreira, a frequência dependerá essencialmente dos hábitos culturais e educacionais de cada um. “Há zonas do país onde se tornou comum tomar menos banhos porque a água era mais fria, ou havia menos aquecimento. E se a pessoa se sente confortável com o duche bissemanal ou trissemanal, nós não somos contra”, ressalva, ciente das vantagens.

Segundo uma pesquisa conduzida por cientistas do Centro de Ciência Genética da Universidade de Utah, EUA, junto dos índios Yanomami, na Amazónia, a falta de banhos diários é responsável por ser este povo a apresentar a maior diversidade de funções genéticas e bactérias alguma vez reportadas num grupo humano – incluindo algumas resistentes a antibióticos com os quais nunca tiveram contacto.

Um bom banho é retemperador de forças, do mais relaxante que existe antes de deitar.

O que não faz com que se torne mais fácil para nós, que não vivemos na floresta equatorial e suamos as estopinhas no ginásio, abdicar do prazer de um bom banho: “É retemperador de forças, do mais relaxante que existe antes de deitar. Rejuvenesce-nos a um nível físico e psíquico”, aponta Paulo Ferreira, considerando ser tudo uma questão de bom senso e de ver o que funciona melhor caso a caso. Se a pessoa pratica desporto diariamente, por exemplo, de que serve bater na tecla do “não se deve” quando a própria sudoração irritará mais a pele?

“Julgo que o importante, aqui, é perceber desde logo as necessidades específicas de cada indivíduo e ter em conta que quanto mais seca for a pele, maior a necessidade de equilibrá-la depois com um creme que hidrate e permita reter a água”, adianta o dermatologista, aconselhando ainda a lavagem com um gel de banho suave, sem sulfatos, com um pH adaptado a cada tipo.

O essencial é ter o cuidado de não irritar, não agredir e não desnutrir a pele.

Além, claro, de se aplicar os princípios que todos conhecemos de fazer banhos mais curtos, menos frequentes, com água nem demasiado quente nem demasiado fria. “Se tivermos o cuidado de não irritar, não agredir e não desnutrir a pele, ou pelo menos tentar fazê-lo o menos possível, eu diria que está tudo bem”, remata o especialista, sempre pragmático.

E já que falamos em lavar o corpo sem o agredir, deixamos-lhe na fotogaleria 9 cuidados básicos para não danificar também o cabelo.