Afinal, o que temos em comum não é tão importante como o que nos separa

«Tu não sabes o que dizes.» Lembro-me da frase da mulher, mas não me lembro bem dela, nem sei o que falavam antes daquilo. Eu ia a olhar para o telemóvel, para não variar, e, quase a chegar à estação do Saldanha, preparava-me para sair. Mas, mesmo antes de as portas do metro abrirem e de elas avançarem também para o cais, ouvi o que atirou à rapariga, possivelmente a filha. «Difícil não é arranjares um namorado. Difícil é quereres ficar com ele a vida toda. Eu não quis ficar com o teu pai. E ele não queria ficar comigo.» Não fui o único a ouvir a conversa, outras caras se viraram na direção daquelas duas que depois sumiram entre a mole de gente que avançava para as escadas rolantes. Não sei é se ficaram a pensar naquilo nos dias seguintes, como eu fiquei.

É verdade: a dificuldade não reside propriamente em conhecer alguém que goste de nós e de quem gostemos também. Com tanta gente no mundo, mais difícil é ficar sozinho. E há várias formas de encontrar esse outro que nos preenche. Pode ser a pessoa que se senta na secretária ao lado no escritório, pode ter sido apresentada por amigos comuns ou pode até ter chegado com a ajuda do algoritmo de um site de matchmaking. Pouco importa. A menos que sejamos tão originais que nos tornemos bizarros ou bichos do mato impossíveis de aturar (e tenhamos consciência disso), o dia chegará em que nos cruzaremos com quem nos enche as medidas. E vice-versa.

Começar uma relação também não é a parte mais difícil. As saídas durante a fase de conquista ajudam a fazer a triagem e perceber que tipo de pessoa temos do outro lado. Com mais ou menos tempo de engate, maior ou menor timidez para dar o primeiro passo e maior ou menor química física – e o que não vai bem à primeira pode melhorar-se à segunda ou à terceira –, tudo se resolve. Até o início de um namoro. Bolas, há dez mil anos que andamos a ensaiar a interação humana de forma mais ou menos igual. As redes sociais só vieram baralhar um pouco mas, na génese, desde que sejamos nós a escolher, a coisa acontece com naturalidade.

O difícil – e aí, sim, a senhora do metro tinha razão – é manter a relação. Isso é que é complicado. O que aprendemos com a tentativa- erro de enlaces anteriores permite-nos reconhecer melhor os problemas – e antecipá-los. Mas, ainda assim, continuamos a ter uma tendência extraordinária para nos agarrarmos só ao que temos em comum e deixar para segundo plano o que nos separa do outro. Isto é natural? Talvez. Se a relação tiver de evoluir, há tanto tempo para debater as coisas más, lá mais para a frente, que não vale a pena desaproveitar a boleia das boas. Mas já devíamos ter aprendido que explorar os interesses que se tocam é coisa fácil de fazer. Sejam filmes, músicas, livros, destinos de viagem ou pratos favoritos. O difícil vem
depois: aprender a superar o que é diferente. Aí é que se avança para outro nível.

Entre os muitos desafios que se colocam, talvez seja esse o principal: depois de identificar as dificuldades, é preciso aprender a contorná-las. O que podemos deixar de fazer porque enerva o outro, sem que com isso deixemos de ser nós próprios? E o que podemos pedir que a outra pessoa faça, em nome da relação, sabendo que está a caminhar fora da sua zona de conforto? Encontrarmo-nos nas nossas diferenças. Arranjar um meio caminho por onde possamos seguir, sabendo que cedemos um pouco e pedimos ao outro para ceder também. Esse é que é um desafio valente para tentar manter uma relação durante algum tempo. Se resulta, ou não, isso são outros quinhentos…

[Publicado originalmente na edição de 29 de novembro de 2015]