«Os portugueses deveriam conhecer melhor a água que bebem»

É o único water sommelier certificado em Portugal e trabalha para a Super Bock Group, empresa que detém, além da cerveja Super Bock, a água Vitalis, Água das Pedras, Melgaço, Caramulo e Vidago. Em entrevista à DN Life, Manuel Antunes da Silva não tem dúvidas: os portugueses deveriam conhecer melhor a água que consomem.

Texto de Alexandra Pedro | Fotografias DR.

Manuel Antunes da Silva, water sommelier da Super Bock Group, é o único português certificado nesta área, especialista em águas minerais naturais, pela Doemens Academy, na Alemanha.

Considera que a água continua a ser um bem desvalorizado pela maioria dos portugueses, uma vez que os rótulos e as propriedades das águas são ignorados. No entanto, aconselha: «não deve beber-se sempre o mesmo tipo de água».

Saiba mais sobre o consumo de água pela voz do único especialista certificado em Portugal.

Manuel Antunes da Silva trabalha com águas desde 1991

O que é um water sommelier?
A função de um water sommelier é semelhante àquilo que se faz com o vinho: é tentar transmitir sensações o mais objetivamente possível de maneira a permitir que qualquer pessoa que vá ingerir aquela água perceba que tipo de experiência vai ter. Também passa pelo sommelier perceber quais as melhores harmonizações com outras bebidas ou numa refeição.

Que importância essas diferenças têm?
Atendendo à forma como em Portugal se vê a questão da água – como um meio disponível sem ligarmos muito à sua composição – é importante perceber que de facto as águas não são todas iguais. Há, por exemplo, águas minerais naturais e águas de nascente, que têm uma garantia de qualidade que muitas vezes não encontramos noutras águas. E é sobre estas que devem recair grande parte das nossas opções.

Os portugueses estão atentos ao tipo de água que consomem?
Acho que é fundamental que as pessoas percebam a importância da água. Quando vamos ao supermercado temos cada vez mais tendência a olhar para os rótulos, porque queremos ser mais saudáveis e alimentarmo-nos bem. No entanto, se questionarmos as pessoas sobre o tipo de água que consomem ou se leem o rótulo da garrafa, a maioria vai dizer que não sabe e que nunca leu essa informação.

«Não devemos consumir sempre a mesma água, como não devemos alimentar-nos sempre só de carne, só de peixe ou só de legumes»

Qual é então o motivo da escolha?
Escolhem muito por conhecer a marca. Mas há coisas muito simples que é preciso tentar perceber, como, por exemplo, se é uma água mineral ou de nascente ou se é uma água tratada. Por vezes, estas variedades correspondem a níveis de qualidade diferentes e que podem sofrer alterações variadas no organismo.

Se tivesse que eleger a melhor água feita em Portugal, qual seria?
Falando de águas naturais, a questão é muito semelhante à dos alimentos. Não devemos consumir sempre a mesma água, como não devemos alimentar-nos sempre só de carne, só de peixe ou só de legumes. Devemos ter em conta todos os elementos da roda alimentar e a água é aqui o elemento central. É essencial para o nosso dia-a-dia. Nisto, diria que não há uma água que seja melhor que as outras mas as águas naturais são aquelas que, quanto a mim, devem ter preferência.

Porquê?
Logo na própria captação têm condições de natureza original, aliás, podem ser consumidas no local de origem e são levadas até ao consumidor engarrafadas com a pureza original. Ao contrário do que acontece com outras águas que, para serem consumidas, têm de ser sujeitas a uma série de tratamentos.

O engarrafamento, tanto no plástico como no vidro, é um dos processos mais importantes com regras muito específicas, não é?
Todos os materiais utilizados na água são sujeitos a regras muito restritas para que não haja nada de prejudicial. Uma das principais é não colocar as águas em locais sujeitos a temperaturas elevadas, tal como acontece com grande parte dos alimentos.

«Tendemos sempre a apreciar algo quando é caro e escasso. E, felizmente, no nosso país a água não é uma coisa nem outra»

Em Portugal, as pessoas estão realmente bem informadas sobre o consumo de água?
Julgo que não. As pessoas consideram que a água é um bem essencial mas não é algo que seja devidamente valorizado. Tendemos sempre a apreciar algo quando é caro e escasso. E, felizmente, no nosso país a água não é uma coisa nem outra e, portanto, acho que não se dá a devida importância.

Em contrapartida, existe uma abundância do consumo de refrigerantes, nomeadamente entre os mais jovens.
A água não tem, à partida, contra indicações. Para uma pessoa saudável, o consumo de água deve estar no topo da lista, associado, claro, a uma alimentação correta.

«Em Portugal há outras pessoas que fazem provas de águas, mas de facto não há ninguém com este tipo de qualificação»

E como chegou à profissão de water sommelier?
Sou geólogo de formação. Trabalhei com águas minerais e de nascente ligado quer à parte de engarrafamento quer à parte de termalismo. E tudo aconteceu com uma certa sequência. Todos os produtos de água da Super Bock Group, além do controlo da captação até ao final, têm também sessões de provas – portanto não é nada que tenha chegado somente agora à minha vida. Ao longo destes anos participei em várias, o que acontece é que esta certificação veio dar-me uma outra perspetiva.

Porque acha que não há mais ninguém com este tipo de certificação?
Mesmo lá fora é uma realidade escassa. Em Portugal há outras pessoas que fazem provas de águas, mas de facto não há ninguém com este tipo de qualificação. Também porque não há cursos em Portugal.