Alimentação e depressão: uma relação muito tóxica

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Somos o que comemos, o que significa que bolachas, cereais de pequeno-almoço ou gorduras saturadas não podem ser a base da alimentação de ninguém, muito menos de alguém a cair em depressão. Pelo contrário, um regime saudável, fresco, ao ritmo das estações, equilibra o corpo, a mente e até o peso.

Texto de Ana Pago

No dia em que a médica lhe fez o ultimato – ou ela parava de comer assim ou se resignava a viver deprimida – Eugénia Silva tomou uma decisão. “Estava a pesar mais de 100 quilos, toda eu inchada, um vazio absoluto. Sentia-me uma baleia na maré baixa, mas só a comida me dava algum alento”, conta a baby-sitter, recordada do desânimo ainda maior que se seguia, fazendo-a comer a dobrar. “Era um círculo infernal que me afundava, só queria morrer.” Percebeu que estava feita ao bife se não mudasse algo.

Isto porque existe uma relação bastante tóxica entre alimentação e depressão, na medida em que nada se funde tanto em nós como o que ingerimos, afirma Maria de Oliveira Dias, autora do blogue The Love Food e do livro Cozinha Vegana (Editora Corvus). “Estamos desconectados do nosso corpo e não fazemos a ligação básica de que somos, literalmente, o que comemos: torna-se órgãos, músculos, sangue, mas também no que somos, fazemos e pensamos”, diz.

O intestino é o nosso segundo coração, o nosso segundo cérebro e onde está 70% do nosso sistema imunitário.

Na prática, sugerem já vários especialistas, a causa do problema (e também a resposta para ele) reside no sistema nervoso entérico – a parte do sistema nervoso que se encarrega de regular o aparelho digestivo e o desempenho do trato gastrointestinal, pâncreas e vesícula biliar. “O intestino é o nosso segundo coração, o nosso segundo cérebro e onde está 70% do nosso sistema imunitário”, revela a health coach, especializada em comida saudável, biológica e da estação, sem açúcar ou glúten.

Some-se a isso o facto de 95% da serotonina produzida pelo nosso corpo ter origem nas células intestinais e não é preciso ser-se grande matemático para calcular os estragos no organismo. “Enchemo-nos de farinhas e açúcares refinados, comida altamente processada, carne que cresceu com ração pobre, a antibióticos e adrenalina”, explica Maria de Oliveira Dias, considerando que abusamos nas quantidade mas não nos nutrimos (o típico enche e engorda).

Por outro lado, cortamos nos legumes, fruta da época, cereais integrais, leguminosas, oleaginosas e tantos outros alimentos que nos fazem bem, com essa pobreza em fibra que daí resulta a não beneficiar em nada a flora intestinal. “Passamos a vida a tomar medicamentos para aliviar sintomas e não vamos à base, à raiz do problema”, lamenta a health coach. Para ela é extraordinário ver como tudo está interligado e só agora se começam a fazer essas constatações.

Sintomas depressivos surgem associados a uma alteração dos hábitos alimentares, com maior consumo de alimentos ricos em gordura e hidratos de carbono.

Um estudo levado a cabo pela Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto, em 2017, mostrou que a presença de sintomas depressivos surge associada a uma alteração dos hábitos alimentares, com maior consumo de alimentos ricos em gordura (ácidos gordos trans e saturados) e hidratos de carbono, nomeadamente açúcares simples que compõem bolos, produtos de pastelaria, chocolate, gelados e cereais de pequeno-almoço.

Outros estudos indicam ainda que a carência de alguns nutrientes como ácidos gordos essenciais, vitaminas B6, B9, B12 e D, magnésio, zinco e aminoácidos essenciais (dos quais o mais estudado é o triptofano, precursor da serotonina) é frequente em indivíduos com depressão, doença que a Organização Mundial de Saúde estima ser já a principal causa de incapacidade no mundo.

“Comer alimentos de conforto pode momentaneamente atenuar os sintomas, mas a longo prazo irá agravar os episódios depressivos, além de aumentar o risco de várias doenças crónicas”, traduz a nutricionista Rita Rocha de Macedo, autora de A Dieta Prática (da Editora Planeta). A começar na obesidade e a terminar sabe-se lá onde, a lista de potenciais maleitas não tem fim. “Promover uma alimentação e estilo de vida saudáveis é crucial para a manutenção da saúde física e mental de uma pessoa”, reforça.

Aconteceu com Eugénia Silva, que distraía a dor tremenda da traição do marido (e do divórcio sequente) com cubos de manteiga, toucinho frito e mil-folhas. “A minha médica tinha razão: durante quatro anos comi horrores porque desisti de mim”, assume a baby-sitter, que entretanto perdeu 40 quilos e voltou a sentir-se plena, corpo e mente. “Curar-me envolveu terapia, muita medicação, não foi só comer bem. Mas esse foi um fator decisivo.”

Uma vez que a depressão não tem uma causa clara, tudo conta na hora de equilibrar a pessoa doente.

O que significa que é possível modificar a dieta para prevenir a depressão, sempre assegurando o devido acompanhamento psicológico em indivíduos de risco, defende Rita Rocha de Macedo: “Devemos privilegiar gorduras mono e polinsaturadas, os frutos oleaginosos ao natural, o azeite em detrimento de manteigas e óleos.” Abrir as refeições principais com uma sopa e incluir fruta, hortícolas, leguminosas, carnes brancas, peixes ricos em ómega 3, ovos e laticínios magros, ensina a nutricionista, adepta do padrão alimentar mediterrânico.

Sem esquecer ainda o exercício físico, a vida ao ar livre e o convívio com família e amigos, acrescenta a health coach Maria de Oliveira Dias, lembrando que a depressão não tem uma causa clara e tudo conta na hora de equilibrar a pessoa. “Não me parece que seja isolando nutrientes, como tem sido feito com o ómega 3, que se cure a doença”, diz. Porém no final, grão a grão, até isso ajuda.


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