Dia Mundial da Alimentação: o que (não) comem os portugueses?

De acordo com a bastonária da Ordem dos Nutricionistas, Alexandra Bento, a população continua a estar mal informada sobre a alimentação, sendo essencial aumentar a literacia das pessoas, das empresas e dos negócios de restauração.

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia Shutterstock

Cerca de 6 milhões de portugueses têm obesidade ou pré-obesidade. De acordo com o mais recente estudo da Organização Mundial de Saúde, são os homens que têm mais excesso de peso, mas é entre as mulheres que existem mais casos de obesidade.

A Ordem dos Nutricionistas indica também que entre os fatores de risco «que mais contribuem para os anos de vida saudável perdidos pela população portuguesa» destacam-se os hábitos alimentares inadequados (15,8 por cento), seguindo-se a hipertensão arterial (13 por cento) e o índice de massa corporal elevado (11,5 por cento).

O alarme persiste quando a Direção-Geral de Saúde indica que metade das causas de doença e de morte no país têm relação direta com a alimentação. Ainda assim, dados da OCDE mostram que o investimento de medidas preventivas é escasso em Portugal. A média europeia em custos de prevenção é de 3 por cento, enquanto por cá gasta-se cerca de 0,2 por cento.

«Em Portugal, 28,5 por cento das crianças entre os 2 e os 10 anos têm excesso de peso, entre as quais 12,7% são obesas», indica a Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil.

Números à parte, para a Bastonária da Ordem dos Nutricionistas, Alexandra Bento, a intervenção é urgente. «Portugal tem que impor mais ritmo e mais intensidade àquilo que são as medidas para promover a alimentação saudável. Estamos com 40 anos de atraso», frisou a nutricionista, num encontro com jornalistas promovido a propósito do Dia Mundial da Alimentação, assinalado esta terça-feira.

E como se faz esta promoção? A especialista considera que a intervenção nas escolas pode ser uma das «armas» a utilizar para combater a falta de literacia da população portuguesa em relação à alimentação saudável.

Numa experiência desenvolvida numa escola de 2º e 3º ciclo em Amarante, que visava sensibilizar os alunos sobre o desperdício alimentar, verificou-se que aquilo que os alunos mais deitam fora é a sopa, os legumes e a fruta. Muitos deles movidos pelo reflexo daquilo que são as suas refeições e hábitos em casa.

Para a bastonária é essencial «trabalhar as competências dos jovens e alterar certos comportamentos face à alimentação, envolver professores e auxiliares nesta tarefa e rever os manuais escolares para conseguir passar a mensagem alimentar». Tudo isto, trabalhando nos vários pontos de venda de alimentos das escolas, como o refeitório, o bar ou o serviço de venda nas máquinas.

«O Ministério da Educação quer resolver os problemas ligados à alimentação mas ainda não teve energia suficiente para o fazer»

As refeições nas cantinas escolares continuam a ser uma das grandes preocupações para a Ordem dos Nutricionistas, que, segundo Alexandra Bento, continua a receber algumas queixas nesta matéria. «Não tenho a perceção que as refeições escolares estejam melhores nas escolas. No entanto, acho que o sistema está mais alerta. O próprio Ministério da Educação, ao criar equipas fiscalizadoras, mostra uma reação a este problema».

«O Ministério da Educação quer resolver estes problemas mas ainda não teve energia suficiente para o fazer», diz a especialista, acrescentando que em fevereiro deste ano a Ordem dos Nutricionistas enviou uma série de propostas de intervenção que ainda não obteve resposta por parte do Governo.

Alexandra Bento considera também que a restauração deve estar sob o olhar atento do Governo no que diz respeito à alimentação e criar-se um comprometimento com algumas medidas «que devem ser simples e que não signifiquem perda de lucro do setor». Tais como: redução do sal na confeção das comidas, retirar o sal das mesas e só colocar quando o cliente assim exige ou nas cartas de sobremesas pôr a fruta em primeiro lugar e com preços mais baixos que os doces.

De acordo com a bastonária, os hábitos alimentares dos portugueses estão muito associados ao consumo exagerado de carne (come-se duas vezes mais do que se devia) e ao excesso de sal e açúcar.

Premissa comprovada no Inquérito Alimentar Nacional, realizado no ano passado, que indica que os portugueses não comem alimentos suficientes do grupo das hortaliças (colocam 11 por cento no prato, quando o recomendado é 23 por cento) e frutas (que é 14 por cento, quando deveria ser 20 por cento).

Fotogaleria em cima pode ver algumas recomendações da Direção-Geral de Saúde para ter uma alimentação saudável.