Alimentação sustentável: Se quer salvar o planeta, tenha atenção ao que come

Quando compra um alimento, pensa na sua pegada ecológica? Imagina quantos litros de água foram necessários para a sua produção ou quantos quilómetros viajou até chegar às prateleiras do supermercado? A forma como se alimenta pode determinar o futuro do planeta. Em 2050, estima a Food and Drug Administration (FAO), seremos 9 mil milhões de pessoas no mundo, pelo que será preciso produzir mais 60% de alimentos. Não basta utilizar transportes públicos, reduzir o uso de água e reciclar. É urgente ter atenção ao que leva para mesa. Para saber como ser mais amigo do ambiente na hora de se alimentar, falámos com nutricionistas, ambientalistas e pessoas que tentam seguir uma alimentação sustentável

Texto de Joana Capucho | Fotografia de Mário Ribeiro

Rosa Pomar tem uma horta. Bem no centro de Lisboa, atrás do prédio onde vive. Um espaço que até há dois anos e meio era um jardim abandonado, dominado por plantas invasoras, hoje, é um pedaço de terra cuidada, de onde retira alimentos diariamente, respeitando a sazonalidade.

Por esta altura, há beringelas, tomates (normais e cereja), pimentos, manjericão, batata-doce, couves e ervas aromáticas. E há galinhas que põem ovos, e cujo destino ainda é uma incógnita, já que a designer e empresária, de 42 anos, é ovolactovegetariana. Consome ovos e laticínios, mas dispensa carne e peixe. No entanto, admite exceções.

«A carne e o peixe não fazem parte dos meus hábitos, mas como bacalhau no natal e, excecionalmente, consumo carne, se for caseira, biológica ou se souber a origem», diz Rosa Pomar.

É-lhe difícil precisar em que altura começou a preocupar-se com o ambiente. «Desde miúda que achava o tema interessante. Recortava artigos de jornal sobre o ambiente, acompanhava a Greenpeace. Comecei a fazer reciclagem muito cedo», recorda.

Ainda «sem noção» do impacte ambiental da agropecuária, deixou de comer carne e peixe aos 19 anos, mantendo-se vegetariana durante largos anos. Voltava à proteína animal quando engravidava, até porque não é fundamentalista. «A carne e o peixe não fazem parte dos meus hábitos, mas como bacalhau no natal e, excecionalmente, consumo carne, se for caseira, biológica ou se souber a origem».

Ter uma alimentação amiga do ambiente passa muito por isto: pensar como é que os alimentos foram produzidos, quantos quilómetros viajaram até chegar ao prato, se foram processados, como estão embalados.

Embora produza muito do que consome, Rosa ainda é obrigada a comprar uma grande parte dos alimentos. «Procuro sempre os portugueses, mesmo que tenha de sair de uma loja e entrar noutra. Levo os meus sacos, compro a granel, com o mínimo de embalagens e processamento». Procura ter uma alimentação consciente, porque «comer conscientemente é fazê-lo de forma mais sustentável e saudável».

Ter uma alimentação amiga do ambiente passa muito por isto: pensar como é que os alimentos foram produzidos, quantos quilómetros viajaram até chegar ao prato, se foram processados, como estão embalados. Porque tudo isto tem consequências do ponto de vista ambiental.

ESCOLHAS MAIS AMIGAS DO AMBIENTE

«Se multiplicarmos o impacto daquilo que comemos por biliões de pessoas, vamos ver que a alimentação tem muito mais impacto do que os transportes ou a poluição industrial, por exemplo. Estamos todos muito preocupados com as emissões de gases com efeitos de estufa, mas esquecemos-nos que todos os gestos, como comprar um alimento, são determinantes para o ambiente», diz Pedro Graça, diretor do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável da Direção-Geral da Saúde.

A alimentação habitualmente considerada mais amiga do ambiente é aquela que não contempla carne nem peixe, como a de Rosa Pomar. Alexandra Bento, bastonária da Ordem dos Nutricionistas, reconhece que «pode causar menor impacte ambiental, no entanto, isto não significa que se deva deixar de consumir estes produtos».

Isto porque, explica, «a sustentabilidade alimentar não é apenas o reflexo do impacto ambiental, também depende de outros fatores como, por exemplo, a adequação nutricional, a cultura alimentar e a acessibilidade». Por isso, sugere, devemos «limitar o consumo de alimentos de origem animal, considerar o consumo de porções do tamanho da palma da mão».

Para gerar um quilo de carne de vaca são necessários, em média, 15 500 litros de água e à pegada hídrica acrescem elevadas emissões de CO2, grandes ocupações de solo, etc.

Nem os próprios ambientalistas defendem que, de um momento para o outro, a população se torne vegetariana ou vegan. «Se a pessoa estiver na disposição de o fazer, é a melhor solução para o planeta. Mas um passo interessante seria seguir as recomendações da Direção-Geral da Saúde, porque consumimos muito mais proteína animal do que precisamos e muito menos frutas, legumes e vegetais do que devíamos», diz Susana Fonseca, da direção da ZERO (Associação Sistema Terrestre Sustentável).

E que recomendações são essas? Pedro Graça diz que «era mais do que suficiente fazer apenas uma refeição de carne ou de peixe por dia. O mais sensato seria fazer apenas duas ou três refeições de carne por semana». E privilegiar os produtos hortícolas, a fruta, os cereais integrais e seus derivados e os tubérculos.

Atenção à produção

Uma alimentação sustentável está associada a um baixo impacte ambiental nas várias fases, desde logo na produção. Por exemplo, para gerar um quilo de carne de vaca são necessários, em média, 15 500 litros de água e, à pegada hídrica, acrescem elevadas emissões de CO2, grandes ocupações de solo, a energia necessária para o processamento, a produção de rações.

Segundo dados do Worldwatch Institute, 51% do total das emissões de gases responsáveis pelo efeito estufa são causadas pela pecuária e atividades relacionadas. Mas esta não é uma percentagem consensual. A Food and Drug Administration (FAO), por exemplo, diz que a pecuária é responsável por 14.5% das emissões.

Com o crescimento da dieta vegan – no Reino Unido seguida por 3.5 milhões de pessoas – surgem cada vez mais estudos que também questionam o seu impacte ambiental. Uma investigação publicada na revista Elementa, em 2016, comparou dez tipos de dieta e concluiu que a vegan não é tão sustentável como se pensava, devido à forma como utiliza e desgasta os solos.

Produção de vacas nos Açores, que tem em consideração o bem-estar animal e a sustentabilidade ambiental.

Parece, no entanto, que as formas de produção têm um peso importante no impacte ambiental da alimentação. «Um alimento proveniente de agricultura biológica [que não usa pesticidas ou adubos químicos] poderá ser mais amigo do ambiente. Se estivermos a falar da produção animal, e se considerarmos um animal que passe mais tempo ao ar livre, constituindo grande parte da sua alimentação com os recursos naturais do pasto onde se insere, poderemos ter no final uma carne dita mais amiga do ambiente», explica Helena Real, secretária-geral da Associação Portuguesa de Nutrição (APN), destacando a importância de não existir grande processamento.

Quer isto dizer que as vacas criadas nos Açores, por exemplo, são mais sustentáveis? «Nos Açores podem existir diferentes modelos de produção, pelo que não será adequado generalizarmos dessa forma… Contudo, os modelos que prevejam um período de tempo maior fora do estábulo serão mais sustentáveis», diz a nutricionista. Por outro lado, adverte, não chega que seja produzido de forma eficiente se o processo até ao consumidor gastar imensos recursos.

Foi a pensar na sustentabilidade que nasceu, em 2015, o Cabaz do Peixe, em Sesimbra. Catarina Grilo é mentora do projeto.

Vejamos o caso do peixe, que, embora tenha menos impacto ambiental do que a carne, está na topo da lista dos alimentos menos amigos do ambiente. Para um consumo mais consciente, é preciso ter atenção ao método de captura – preferir a pesca tradicional -, à sazonalidade, aos quilómetros que percorre, à sobrepesca.

A aquacultura, por exemplo, provoca grandes alterações no meio ambiente. Alexandra Azevedo, veterinária e ativista com ligação à Quercus (Associação Nacional de Conservação da Natureza), diz que as melhores espécies para consumir em Portugal são a cavala e o carapau. «São peixes da nossa costa e não estão ameaçados», esclarece.

A dieta mediterrânica é, segundo os especialistas, um exemplo de um padrão alimentar sustentável.

Foi a pensar na sustentabilidade que nasceu, em 2015, o Cabaz do Peixe, em Sesimbra: a venda de peixe fresco, proveniente das embarcações de Sesimbra, preferencialmente de pesca de anzol, a cada semana ou quinzenalmente em pontos fixos.

Por 22 euros, os clientes têm direito a três quilogramas de peixe, fresco e amanhado. «Uma grande vantagem ambiental é no transporte. Por outro lado, há um grande esforço para que seja proveniente da pesca artesanal, que, embora não esteja isenta de impacto, é menor do que na pesca de arrasto», diz Catarina Grilo, mentora do projeto.

Ser saudável não é necessariamente ser sustentável

A dieta mediterrânica é, segundo os especialistas ouvidos pela LIFE, um exemplo de um padrão alimentar sustentável. Além de promover a diversidade no consumo, com reduzidas quantidades de carne e peixe, incentiva a utilização de alimentos sazonais e locais, o que permite diminuir custos com energia, embalagem e transporte associados à importação. Por outro lado, apela à moderação no consumo e à redução do desperdício.

Se por um lado ter uma alimentação sustentável é, necessariamente, ter uma alimentação mais saudável, o contrário nem sempre acontece. «Há alimentos interessantes do ponto de vista nutricional, mas que não são produzidos no país, ou seja, viajam muitos quilómetros, o que faz que sejam pouco sustentáveis», alerta Helena Real. Refere-se, por exemplo, à quinoa e ao abacate, ambos muito usados por quem procura seguir regimes mais saudáveis.

Comer cerejas no Natal, ou morangos em fevereiro, não só não tem o mesmo interesse do ponto de vista nutricional, como tem elevado impacte ambiental.

Quando o assunto é comida e ambiente, também é importante levar em consideração a sazonalidade, que nem sempre é valorizada, porque os consumidores habituaram-se a ter os alimentos disponíveis durante quase todo o ano. Contudo, comer cerejas no natal, ou morangos em fevereiro, não só não tem o mesmo interesse do ponto de vista nutricional, como tem elevado impacte ambiental.

Relativamente à ideia de que uma alimentação boa para a saúde implica custos mais elevados, Susana Fonseca, da Zero, diz que «não é necessariamente assim», já que «se baixarmos na cadeia alimentar, passamos a ter mais vegetais e cereais», que tendem a ser mais baratos do que a carne e o peixe. Se quiser seguir uma alimentação biológica, por exemplo, mas fizer as compras no hipermercado, a conta vai subir.

Hoje, há uma grande preocupação com os alimentos, mas investimos pouco para os preparar e confecionar. Temos de planear para saber comer saudável»

«Mas se for a um pequeno produtor de agricultura biológica, os produtos ficam mais baratos ou ao mesmo preço do que na agricultura convencional». Contudo, ressalva, é preciso respeitar o custo dos alimentos, aquilo que eles custam a produzir.

Tudo isto, sublinha Pedro Graça, implica «dar mais atenção à comida». «Hoje, há uma grande preocupação com os alimentos, mas investimos pouco para os preparar e confecionar. Temos de planear para saber comer saudável», conclui o responsável pelo PNPAS.

Números

  • 1,3 mil milhões de toneladas de alimentos são desperdiçados ou perdidos anualmente, cerca de 1/3 do que é produzido
  • 34% dos portugueses (mais de 3,5 milhões) consomem mais de 100 gramas de carne por dia, segundo o último inquérito alimentar
  • 15.500 litros de água é a quantidade necessária para produzir um quilograma de carne de vaca
  • 79% das emissões de NO2 (dióxido de nitrogénio) resultam da utilização de fertilizantes nos solos

O que é uma alimentação sustentável?

Segundo a definição da FAO (2015), uma alimentação sustentável tem baixo impacte ambiental e contribui para a segurança alimentar e nutricional da população, assim como para o seu estado de saúde, tanto no presente como no futuro.

As dietas sustentáveis protegem e respeitam a biodiversidade e o ecossistema; além de que permitem otimizar os recursos naturais e humanos. Para além disso, uma dieta sustentável é culturalmente aceite, nutricionalmente adequada, acessível pela população, segura e economicamente justa.

Reduzir, reciclar, reutilizar

Quem tem preocupações ambientais deve interessar-se também pela forma como os alimentos são embalados, armazenados, confecionados e desperdiçados. Cuidados que Marta Dutra, terapeuta em Medicina Tradicional Chinesa, de 44 anos, tem diariamente. Tornou-se vegan em 2009, sobretudo «pelo sofrimento animal envolvido», mas «as preocupações ambientais vieram por arrasto». «Sempre que possível, compro biológico e a granel. Uso plástico, mas reutilizo e reciclo», adianta.

Quando vai às compras, Marta procura alimentos locais e sazonais, mas admite que às vezes comete pecados. «Tenho uma manga no frigorífico que não foi produzida cá. E as bananas vieram da Madeira». Já as sobras, encaminha-as para o vizinho. «Que as dá aos animais, ou faz compostagem». E tenta reutilizar tudo o que é possível. «A água de cozer o grão-de-bico, por exemplo, dá para fazer suspiros ou mousse de chocolate».

Cowspiracy: O segredo da sustentabilidade é o documentário que já levou muitas celebridades a tornarem-se vegan.

Para proteger o ambiente, Marta defende que todas as pessoas deviam deixar de comer carne e peixe. «Como isso não é possível, qualquer refeição sem carne já é benéfica». Recomenda, por isso, a visualização do documentário Cowspiracy, O segredo da sustentabilidade, que já levou muitas celebridades a tornarem-se vegan.

Na opinião da veterinária Alexandra Azevedo, «a carne deve ter destaque em ocasiões festivas, mas, fora isso, serve apenas para aromatizar os pratos». Segue uma dieta que «em que nalguns casos é vegana, ovovegetariana ou ovolactovegetariana, noutros a carne é reduzida e, muitas vezes, é um simples condimento, e peixe é reduzido sendo complementado com algas ou desfiado».

Autora de vários livros sobre alimentação, conta que uma parte dos ingredientes que usa provêm da sua pequena horta onde, em modo biológico, cultiva variedades tradicionais e ainda ervas aromáticas e ervas espontâneas ou silvestres comestíveis.

Os restantes são adquiridos «diretamente aos produtores ou o mais diretamente possível em mercados de rua e bancas de produtores no mercado tradicional, de preferência biológicos certificados e avulso».