Sabia que os animais também são generosos?

O altruísmo surge entre os animais de maneiras que a nós, humanos, nem nos passariam pela cabeça. Alguns são bem mais generosos do que muita gente.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

BALEIA

Há quem lhe chame baleia-de-bossa ou baleia-cantora (Megaptera novaeangliae), mas nenhum desses atributos pesa tanto como o facto de este cetáceo de 17 metros e 40 toneladas responder às vocalizações de mamíferos que estejam a ser atacados e ir a correr (neste caso a nadar) salvá-los. Num artigo publicado na revista Marine Mammal Science, o ambientalista Robert Pitman refere mais de uma centena de situações, todas documentadas, em que baleias-corcundas interferiram nas caçadas de orcas: ao verem focas e outros pequenos animais presos em blocos de gelo, viravam-se de barriga para cima e mantinham-nos fora de água, longe dos dentes dos predadores.

FORMIGA

Esta espécie africana de formigas (Megaponera analis) é tão conhecida por se alimentar exclusivamente de térmitas como pela formação – em colunas – com que invade as termiteiras, com os atacados a arrancarem umas quantas patas às que agarram pelo caminho. Seria de pensar que as formigas mutiladas ficariam para trás, entregues à sua sorte, até serem mortas pelos invadidos, certo? Errado: a amputação liberta feromonas, a indicar onde tombaram, e logo uma equipa de socorro vem lamber-lhes as feridas, aplicar antibiótico e carregá-las de volta ao formigueiro. Uma realidade tão contrária à ideia de que vence sempre o mais forte, o mais apto, que o próprio evolucionista Charles Darwin mencionou a contradição no seu livro A Origem das Espécies.

MORCEGO

O nome latim do morcego-vampiro (Desmodus rotundus) assusta bem menos que o comum, o que não invalida que este pequeno Drácula da América do Sul apenas beba sangue e saia a voar à noite para morder as suas presas, sobretudo animais domésticos de grande porte. E a verdade é que quase torcemos para que ele os encontre, dado que 70 horas em jejum é o máximo que aguenta antes de morrer – uma fatalidade que sucederia mais vezes caso os morcegos não dividissem o alimento com os esfaimados do grupo, incluindo os que não são seus familiares diretos. Dente por dente…

MACACO

Chlorocebus pygerythrus é outro nome difícil para designar um simples macaco africano de 50 centímetros, cor de rato, que desata aos guinchos sempre que vê um predador aproximar-se do grupo com segundas intenções. Sim, claro: gritar denuncia a sua posição de vigia e arrisca-se seriamente a virar fricassé. Sim: talvez fizesse melhor em fingir que não era nada com ele (assim como assim, se outros não viram ele também podia não ter visto). Mas ninguém gosta que lhe comam os companheiros. Até um macaco tem os seus princípios.

POLVO

Abnegação de mulher, ainda para mais sendo mãe, tem muito que se lhe diga. Mesmo que a fêmea-mãe seja um polvo da espécie Graneledone boreopacifica, criatura das profundezas vista a velar ininterruptamente pelos seus ovos durante 53 meses (perto de quatro anos e meio), o que lhe valeu o recorde mundial de desenvolvimento mais longo de ovos antes de morrer de exaustão. Que se cuide a anterior recordista de zelo pré-natal, a salamandra alpina, que transporta os filhos no corpo por um período de até quatro anos.

ARANHA

A Diaea ergandros trata-se de um exemplar da família das aranhas-caranguejo e é outra fêmea-mãe que se deixa matar na condição de que as suas aranhinhas cresçam saudáveis e robustas, nem que para isso tenha de senti-las a comerem-lhe as entranhas. De facto, as crias alimentam-se à base de carne da mãe e ovos não fertilizados, uma dieta invulgar altamente proteica. A expressão «dar até doer» ganha todo um novo significado.