«A amamentação pode tornar-se mais difícil por insegurança das mães»

A amamentação pode ser um processo doloroso para muitas mães. Cristina Leite Pincho, autora do livro Amamentar, acha que muito se deve às inseguranças que surgem nesta fase e explica como tornar o «bicho-de-sete-cabeças» num processo natural.

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia iStock

«Sou a favor da amamentação. Acredito que, se é o que a natureza desenhou, é o mais natural para o bebé e para a mãe e, como tal, é realmente o melhor que se pode fazer pela saúde dos dois. (…) No entanto, há mães que não podem ou não querem amamentar, ou fazem-no durante pouco tempo, e o que tenho observado ao longo destes anos como consultora de lactação é que muitas vezes essa decisão é tomada com base em mitos, pressões alheias e por não saberem a quem recorrer para esclarecem as dúvidas que surgem».

É desta forma que Cristina Leite Pincho, doula e consultora de lactação, apresenta o seu livro Amamentar – A Escolha Natural para o seu Bebé [edição Livros Horizonte].

Amamentar, de Cristina Leite Pincho

O tema não é novo, mas Leite Pincho acredita que ainda existem uma série de dúvidas e mitos em torno do processo de amamentação. É na tentativa de esclarecer estas dúvidas, «sem cair em generalizações» e com especial cuidado para «que ninguém se sinta excluído», que explica à DN Life quais são as grandes angústias das mães.

«Quando escrevi o livro, tive o cuidado e a noção que tinha de escrever muito delicadamente porque este é um assunto muito sensível» para várias pessoas, começa por dizer a autora, licenciada em Ciências Sociais, nas áreas de psicologia e política social.

«Há muitas mães que querem amamentar e que se deparam com muitos obstáculos. Um dos mais frequentes é a falta de confiança».

Para Cristina Leite Pincho o processo de amamentação é mais do que um processo, é uma relação e um laço criado entre mãe e filho, no qual o pai também deve envolver-se. No entanto, sublinha, este não é um procedimento fácil, pelo menos em alguns casos.

«Há muitas mães que querem amamentar e que se deparam com muitos obstáculos. Um dos mais frequentes é a falta de confiança», afirma a consultora.

Quando assim é, a alternativa é o leite «artificial», que pode ficar aquém das características do leite materno, de acordo com a autora.

«A questão do leite artificial não é mais do que uma tentativa de replicar o leite materno, sendo que cada espécie tem um leite específico para cada cria. O que os humanos fazem é tentar colmatar as necessidades do bebé. Por variadas razões, começou a arranjar-se substitutos do leite materno, mas é preciso esclarecer que este tipo de leite fica aquém das características do leite humano», diz Cristina Leite Pincho.

«se o bebé não está a receber leite da mãe, é ótimo que se encontre um substituto»

Acrescentando: «existem mães que não conseguem amamentar. Ou porque o leite não foi bem estimulado ou por razões clínicas. Nestes casos, se o bebé não está a receber leite da mãe, é ótimo que se encontre um substituto».

No entanto, a doula e mãe de cinco filhos, entende que há muitos casos em que a utilização do leite artificial se deve a alguns receios e mitos encontrados durante o processo de amamentação.

«Por exemplo, existem muitas mães que acreditam que os bebés têm fome e recorrem ao leite artificial. Há efetivamente mães que têm pouco leite, isso não está em causa, mas existem muitas situações em que são apenas outras pessoas a achar isso» e acabam por influenciar o processo.

E aqui, indica, as mães deparam-se com um dos seus maiores problemas: a falta de segurança.

Amamentação. Até quando?

As recomendações da Organização Mundial de Saúde sobre esta matéria são claras: a mãe deve amamentar a criança até aos dois anos ou mais, defendendo a amamentação exclusiva até aos seis meses de vida.

Também nesta matéria Cristina Leite Pincho não tem uma opinião absoluta. «Quando as pessoas entram no processo de amamentação sabem que vão ter que dar de mamar por dois ou mais anos, tendo em conta as indicações da OMS, que calcula as características do leite. No entanto, não tem em conta a estrutura da sociedade, culturais, etc.»

«As mães que tentam amamentar os seus bebés sentem-se frequentemente culpadas pelas pressões que lhes põe em cima»

Quer com isto dizer a autora que há muitos fatores que podem condicionar a amamentação. «Este processo deve ser visto como uma relação. Vão existir muitos obstáculos. E o facto de haver tanta informação por vezes leva à perda do espaço de escuta entre a mãe e o bebé».

No seu livro, o peso da responsabilidade de amamentar é um dos tópicos: «a culpa». «As mães que tentam amamentar os seus bebés sentem-se frequentemente culpadas pelas pressões que lhes põe em cima, seja pelo comportamento do bebé, seja pelo seu peso, pelo sono ou qualquer outra situação».

«muitas mães estão com determinadas expectativas em relação à amamentação e de repente as coisas não correm como elas querem»

E o mesmo acontece com quem não consegue dar leite à sua cria. «Também as mães que não amamentam relatam que se sentiram julgadas por não o fazerem. Muitas vezes, quando se fala sobre este assunto, diz-se às mães que dar leite artificial pode prejudicar o bebé. Ora, isso gera culpa, pelo que não deveria dizer-se», explica a autora.

Estes são casos frequentes, segundo Cristina Leite Pincho, que assume que existem «muitas mães que têm determinadas expectativas em relação à amamentação e de repente as coisas não correm como elas querem».

O papel do pai

«O pai do bebé tem um papel muito importante no processo de amamentação». Em primeiro lugar, «tem de ajudar a mãe a estar confiante e deve, acima de tudo, garantir que a dinâmica da amamentação funcione da melhor maneira possível».

«Também neste aspeto não se deve generalizar, o que funciona para cada casal é como deve acontecer», frisa a autora, sublinhando que este é um processo muito difícil também para os pais, que muitas vezes assistem a momentos difíceis das suas mulheres pela primeira vez.

Os mitos da amamentação

Algumas das grandes questões relacionadas com a amamentação podem basear-se em mitos. Cristina Leite Pincho desmitifica alguns dos mais frequentes no seu livro. «Tudo o que for uma regra demasiado absoluta acaba por ser um mito», diz à DN Life.

«Dar de mamar de x em x tempo, dar só de uma mama ou até que dar de mamar tem de doer» são apenas algumas das ideias erradas sobre amamentação, enumerados pela autora.

Veja outros mitos relacionados com a amamentação através da fotogaleria.


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