O amor é química… e física (se a química correr bem)

Longe de nós querer matar ilusões românticas, mas a verdade sobre o amor é esta: o ser humano é composto por um admirável sistema de impulsos nervosos, hormonas aos saltos e reações químicas capazes de nos levar da paixão à indiferença. Esqueça o destino ou a certeza cósmica de que estavam destinados um ao outro: não existe. Embora nada disso tenha a mínima importância quando estiver apaixonado.

Texto de Ana Pago

Ah, o amor! O coração a bater com tanta força no peito que temos a certeza que vai denunciar-nos. A pele mais vezes arrepiada. Os pensamentos desobedientes, a teimarem sempre no mesmo. O estômago com aquelas cócegas a que os especialistas mais coloquiais chamam «borboletas». Mal comparado, é como se estivéssemos a mil numa montanha-russa, mas sem a parte de acalmar no fim da viagem. Não conseguimos dormir, nem comer, nem sossegar. Não conseguimos pensar em mais nada a não ser no outro. A certeza absoluta de que estávamos destinados a ficar juntos. De que estava escrito nas estrelas.

Só que não. Mas nem vale a pena tentar fazer ver aos apaixonados que o amor é uma complexa cadeia de reações químicas no cérebro e não no coração, ressalva o neurocientista brasileiro Fernando Gomes Pinto, autor de Neurociência do Amor. «O amor está presente em tudo o que fazemos. O facto de ser um cocktail de neurotransmissões e hormonas não reduz a imensidão do sentimento», esclarece o neurocirurgião do Instituto de Psiquiatria, na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

A paixão dura seis meses a dois anos e é uma «convulsão» no cérebro.

O próprio Albert Einstein cria que explicar o que se sente pela pessoa amada é roubar magia a um tema que romancistas e filósofos debatem desde o início dos tempos, sempre com mais dúvidas do que certezas. «Há uma força extremamente poderosa para a qual a ciência não encontrou ainda uma explicação formal, embora esteja incluída em qualquer fenómeno que atua no universo», referia o cientista, para concluir que esta força é o amor, a mais invisível e poderosa de todas.

«O amor é gravidade porque faz umas pessoas serem atraídas por outras.» O amor revela e desvela. Por amor se vive e se morre. «Quando aprendermos a dar e receber esta energia universal, comprovaremos que o amor tudo vence, tudo transcende e tudo pode», enfatizava o físico.

A dopamina torna-nos eufóricos e focados no outro.

Ainda assim, não é verdade que a ciência esteja a leste das demandas do coração apaixonado (as quais são muito menos românticas do que supomos). Já no século V a.C., o médico grego Hipócrates insistia que «os homens devem saber que do cérebro, e só do cérebro, derivam prazer, alegria, riso e divertimento, assim como tristeza, pena, dor e medo».

Até podemos preferir a ideia de uniões transcendentes e almas gémeas que se encontram, porém os cientistas desmistificam: amar é um fenómeno neurobiológico complexo decorrente de múltiplas reações químicas que começam no cérebro, não na seta do Cupido. E com muito poucas diferenças independentemente do sexo, idade, etnia, orientação sexual ou filiação religiosa.

A NOREPINEFRINA TIRA-NOS A FOME, O SONO, A CLAREZA DE PENSAMENTO.

«Da leitura dos poemas, canções e histórias de pessoas de todo o mundo, concluí que a faculdade do amor romântico se encontra solidamente urdida no tecido do cérebro humano. É uma experiência humana universal», confirma a reputada antropóloga americana Helen Fisher, autora de Porque Amamos – A Natureza e a Química do Amor Romântico. E o que vem a ser este sentimento volátil e quase sempre incontrolável que nos assalta a mente, trazendo felicidade num momento e desespero no seguinte?

A FENILETILAMINA INTENSIFICA TUDO.

«Um pandemónio psíquico e físico», diz a especialista. Todas as culturas têm sido igualmente enfeitiçadas por essa força irresistível: parece que faz parte da natureza humana. «Além disso, a magia visita cada um de nós de maneira muito semelhante.»

MAS O QUE É, AO CERTO, O AMOR?

«Nunca chegaremos a um conceito que satisfaça toda a gente», resume o psicólogo Nuno Amado, pioneiro em Portugal no estudo da psicologia do amor. Sim, há parecenças nas respostas fisiológicas dos amores romântico e materno – sobretudo ao nível das áreas de recompensa ativadas no cérebro, com grandes concentrações de oxitocina (a hormona do amor) e vasopressina (responsável pelo comportamento de fidelização).

E sim, assemelham-se as regiões cerebrais «desligadas» diante da pessoa amada, para não as criticarmos nem julgarmos. Por outro lado, o amor materno estimula a matéria cinzenta periaquedutal (que atua na modulação descendente da dor e no comportamento defensivo), fazendo com que a ligação sublime entre mãe e filho seja acentuada, inigualável… e química.

Muitos parceiros gostariam de reacender a chama da paixão, mas evidências científicas mostram que isso não existe.

Foi essa a conclusão de neurocientistas do Centro Champalimaud ao mostrarem que a disposição dos pais para sacrificarem a vida pelos filhos, comum a várias espécies na natureza, depende do mecanismo de ação da oxitocina na amígdala (região cerebral relacionada com as emoções). «Pondo oxitocina na amígdala, ratos fêmeas suprimem a sua autodefesa e não se imobilizam perante uma ameaça», explica a coordenadora da pesquisa, Marta Moita.

Em vez disso, «tentavam esconder as crias por baixo do material do ninho, exploravam a caixa para localizar a ameaça ou amamentavam-nas e mantinham-nas perto de si» – algo que deixavam de fazer sem a atividade da oxitocina, o que significa que a comunicação química é importante.

«A traição também faz parte e resulta de podermos amar mais do que uma pessoa ao mesmo tempo», diz o neurocientista Fernando Gomes Pinto.

E isso é dizer pouco, adianta o neurocirurgião Fernando Gomes Pinto: «Além de a oxitocina modular o cérebro para nos permitir sentir um amor incondicional, em que somos capazes de dar a vida por outra pessoa, estudos de comportamento mostraram que os relacionamentos amorosos passam por algumas fases previsíveis.»

A própria escolha inconsciente do parceiro não é tão amorosa nem ao acaso como parece: eles pendem para mulheres de ancas largas (um sinal de fertilidade), elas para homens altos e autoconfiantes, e ambos para alguém com um perfil genético diferente do seu, que garanta descendentes mais perfeitos e resistentes a doenças.

As separações devem-se mais à ausência de afeto positivo entre o casal (abraços, beijos, etc.) do que a conflitos.

Vivências da infância que nos ficam dos nossos pais, da escola, dos amigos e até do que vemos na televisão contribuem significativamente para criarmos um perfil inconsciente do parceiro que procuramos, segundo Helen Fisher. E quando finalmente estamos no timing certo e nos deparamos com alguém que encaixe nesse ideal, é muito provável que os circuitos cerebrais se ponham em marcha e desencadeiem as tais reações químicas.

Primeiro vem a paixão, que dura de seis meses a dois anos e é exclusiva (só conseguimos estar apaixonados por uma pessoa de cada vez), com o cérebro a funcionar de modo ímpar: a dopamina torna-nos eufóricos e focados no amado; a norepinefrina tira-nos a fome, o sono, a clareza de pensamento; a feniletilamina intensifica tudo.

Caso não haja separação em nenhuma das fases anteriores, vem o amor companheiro, que pode durar uma vida.

Progressivamente – se ninguém tiver uma síncope entretanto –, essa fase intensa evolui para o amor romântico, com a oxitocina a intervir na firmeza do vínculo afetivo, a vasopressina a trabalhar pela fidelidade e a serotonina a fazer-nos sentir felizes com isso (ou a cair em depressão se por acaso o outro se afasta ou a relação esfria).

«Por último, caso não haja separação em nenhuma das fases anteriores, vem o amor companheiro, que pode durar uma vida e criar uma sincronia entre cérebros importantíssima como suporte cognitivo e emocional do casal», destaca Fernando Gomes Pinto, sem estranhar que esta simbiose garanta um aumento de pelo menos três anos à longevidade de cada um dos membros do casal.

«Amar é uma decisão conjunta da parte emocional e racional do nosso cérebro, e biológica [do corpo], de ficar junto», diz. Aqui o cérebro regressa às condições iniciais de estabilidade e deixa que a oxitocina continue a atuar como uma cola que desperta a tranquilidade típica das relações de longa duração.

«Lá porque o cérebro estabelece relações químicas para saborear chocolate, e estabelece relações químicas mais complexas para estarmos apaixonados, não significa que seja a mesma coisa», sublinha o psicólogo Nuno Amado.

Conhecedor do processo, também Nuno Amado não o acha redutor na medida em que todos os pensamentos e emoções têm um paralelo físico e químico no cérebro – não é por isso que o seu significado deixa de ser especial. Redutor seria chegar ao ponto de restringir o amor a quatro tipos de personalidade, como propôs a antropóloga Helen Fisher, relacionando-os com o neurotransmissor prevalente em cada caso: o explorador, associado à dopamina e ao desejo de novas experiências; o construtor, associado à serotonina e a regras; o diretor, associado à testosterona e à mecânica das coisas, sem jeito para socializar; e o negociador, associado ao estrogénio e à oxitocina, com aptidões linguísticas e empatia.

Ainda segundo ela, exploradores e construtores atrairiam os mesmos tipos, ao passo que diretores e negociadores, opostos, se atraem entre si. (A propósito, descubra na nossa fotogaleria alguns amores que viraram clássicos.)

«Lá porque o nosso cérebro estabelece relações químicas para saborear chocolate, e estabelece relações químicas um bocadinho mais complexas para estarmos apaixonados, não significa que seja exatamente a mesma coisa», sublinha o psicólogo, autor do livro de investigação Diz-me a Verdade Sobre o Amor e do romance Parem Todos os Relógios, também sobre paixão e amor.

A ter de defini-lo, diria que é um sentimento poderoso através do qual atribuímos sentido às experiências. «O que acontece depois é que a paixão evolui naturalmente para algo mais estável (e menos desgastante), porque a dada altura o casal tem de fazer coisas tão pouco românticas como comprar papel higiénico ou móveis do IKEA, incompatíveis com um estado obsessivo.»

E QUANDO O AMOR ACABA?
Danou-se, observa Fernando Gomes Pinto, para quem os divórcios se devem mais à ausência de afeto positivo entre o casal – falta de contacto visual, de abraços, do beijo na boca, do elogio sincero – do que a conflitos propriamente ditos. «Muitos parceiros gostariam de reacender a chama da paixão, porém evidências científicas mostram-nos que isso não existe.» O que há são mudanças nos momentos de transição entre as várias fases do relacionamento, que por não serem vividas de igual modo pelo casal geram ruturas e traições. «A traição também faz parte, ainda que seja mental, e resulta de podermos amar mais do que uma pessoa ao mesmo tempo», diz.

Enquanto os arganazes do prado são conhecidos por formarem casais extremamente fiéis devido à abundância, no cérebro, de recetores e neurotransmissores relacionados com a oxitocina e vasopressina – o sonho de todos os apaixonados –, uma pessoa com uma relação estável de muitos anos pode facilmente apaixonar-se por outra, mesmo amando o cônjuge.

E os animais? São, ou não, capazes de amar como nós?

«A sociedade tem pânico disto, mas importa falar porque a decisão de divórcio ao descobrir uma traição é muitas vezes precipitada», defende o médico, considerando que entender o processo mental do amor nos permite estar mais preparados para ele, não matá-lo. «Uma dica é os casais explorarem o olfato – entra direto para a região cerebral da memória e do prazer – e irem juntos comprar um perfume em que o outro possa escolher, na nossa pele, que aroma gostaria de ter.»

O que nos traz de volta à questão dos animais: são, ou não, capazes de amar como nós? Gregory Berns, engenheiro biomédico e professor da Universidade Emory, em Atlanta, EUA, acredita numa espécie de amor romântico primitivo ao provar que os cães usam a mesma parte do cérebro humano para sentir. Marc Bekoff, antigo professor de biologia evolutiva da Universidade do Colorado, lembra que as leoas-marinhas choram quando os seus bebés são comidos por orcas, e que golfinhos, chimpanzés e elefantes sabem quem são e fazem luto pelos entes queridos.

«A ciência está a validar o que nos dizia a intuição: que os animais sentem alegria, tristeza, pena, e as suas emoções são tão importantes para eles como as nossas para nós», realça Bekoff. É assim o amor.

LEITURAS A NÃO PERDER

PORQUE AMAMOS – A NATUREZA E A QUÍMICA DO AMOR ROMÂNTICO
HELEN FISHER
RELÓGIO D’ÁGUA, 2008

ANATOMIA DO AMOR
HELEN FISHER
DOM QUIXOTE, 1994

AMOR E SOBREVIVÊNCIA
DEAN ORNISH
ROCCO, 1999

NEUROCIÊNCIA DO AMOR
FERNANDO GOMES PINTO
ACADEMIA DE INTELIGÊNCIA, 2017

DIZ-ME A VERDADE SOBRE O AMOR
NUNO AMADO
ACADEMIA DO LIVRO, 2010

A NATUREZA DO AMOR
DONATELLA MARAZZITI
GUERRA & PAZ, 2011

A QUÍMICA ENTRE NÓS
LARRY YOUNG E BRIAN ALEXANDER
BEST SELLER, 2012

A VIDA EMOCIONAL DOS ANIMAIS
MARC BEKOFF
TEXTO EDITORES, 2015

 

O AMOR ENTRE PESSOAS DO MESMO SEXO NÃO É DIFERENTE

De acordo com a antropóloga Helen Fisher, nem toda a gente saberá encontrar as palavras certas para descrever o amor e a profusão de sentimentos que desperta, o que não significa que não o sintamos todos da mesma forma: sentimos. «A sensação no cérebro é idêntica, com a mesma química, quer se trate de homens ou mulheres, homossexuais ou heterossexuais», garante a especialista.

O mesmo se aplica a jovens e velhos: longe de mudar com a idade, a capacidade de se apaixonar está inscrita numa região demasiado primitiva do cérebro para enfraquecer com o tempo. «A única diferença é que os jovens são um nadinha mais propensos a cometerem loucuras por serem menos racionais», diz.