Ana Rita, Vítor e Leonor. Histórias de quem vai mudar de vida no novo ano

Na passagem de ano, Ana Rita Silva, Vítor Santiago e Leonor Sousa Dias tiveram desejos bem concretos além dos fundamentais “saúde”, “paz” e “amor”. Vítor, 58 anos, certamente pensou na reentrada na sociedade após sete anos desempregado como cuidador da mãe e da irmã. Leonor irá a todo o gás em direção à terceira carreira como treinadora mental. E Ana Rita prepara-se para o ritmo palpitante de uma nova vida na Suécia, com o marido.

Texto de António Pedro Pereira

A TERCEIRA VIDA DE LEONOR AGORA COMO TREINADORA

Jurista, não. Professora, já não. Coaching? Porque não? Leonor, 50 anos, vai começar a terceira carreira agora como treinadora mental de crianças e jovens.

Podendo viajar no tempo e no espaço, Leonor Sousa Dias optou por uma terceira via depois de abraçar as duas em simultâneo e separadamente. Recomeçar a vida profissional aos 50 anos. Após um curso de Direito quase não exercido e outro de Ciências da Educação com 17 anos de ensino no 1.º ciclo país fora. Em 2020, vai abrir empresa, tornar-se patroa e mudar de carreira – treinadora mental de crianças. A história do bicho-do-mato que adiou anos o “um dia vou viajar” e num ímpeto de segunda-feira comprou uma viagem a Marrocos que ainda hoje está a percorrer.

“Em 2020 vou tornar-me coach. Vou constituir empresa. diz Leonor Sousa. (Fotografia por Álvaro Isidoro/Global Imagens)

“A primeira viagem que fiz. Eu pedia sempre os catálogos e dizia que um dia… Uma segunda-feira inscrevi-me e fui a Marrocos, uma viagem ao deserto. Tremia como varas verdes. Éramos seis, um casal e três raparigas e um rapaz, estes quatro ainda fazem parte do meu grupo de amigos. Foi em 2002”, diz Leonor, nascida no Porto em maio de 1969, mas a viver em Lisboa.

Coincidiu com o início da segunda e mais duradoura carreira (até agora), a de professora do 1º ciclo. “Fui para Direito aos 18 anos, depois casei-me e divorciei-me. Ainda tentei o Direito, mas não era mesmo aquilo. Seria uma péssima advogada de tribunal. Para professora, fui no seguimento de uma pergunta da minha mãe: “Já que gostas de crianças, porque não dar aulas? Fiz o curso e estive na profissão 17 anos. Dar aulas pode ser maravilhoso, mas pode ser horroroso. Dar aulas a crianças pode ser um inferno. No ano passado dei-me conta de que a vida estava a passar e eu estava fechada numa sala de aulas. E não tinha problemas – estava no quadro desde o segundo ano. Mas estava a murchar e o conforto estava-me a baralhar. Só tinha prazer nas viagens”, explica Leonor. “Pensei ir para Enfermagem depois do Direito. Mas se a divertir-me custa-me aguentar as noites, imagine-se a trabalhar” ,acrescentou.

“Em 2020 vou tornar-me coach. Vou constituir empresa, a página na internet está a ser construída”, diz.

“Quando chegou a faculdade percebi que havia dois ou três cursos que podia aguentar. Mas o mundo mudou tanto que até a sabedoria que os nossos pais nos transmitiram não serve de nada”, justifica-se sobre as mudanças de rumo que foi tomando na vida. “Em setembro, pedi licença sem vencimento porque foi possível pedi-la”, junta.

E eis que vem um ano inteiro e limpo: “Em 2020 vou tornar-me coach. Vou constituir empresa, a página na internet está a ser construída”, diz.

“Fiz uma certificação internacional em coaching de alta performance em janeiro. São três dias intensivos. Há umas semanas, fiz uma certificação no Porto com o coach Ricardo Frade e em janeiro vou fazer uma certificação dada por formadores que trabalhavam na Lego e se autonomizaram. É a Lego Serious Play, certificada pela Association of Master Trainers. Dá-me o direito de treinar e de certificar no futuro. E em fevereiro tenho outra formação, certificada pelo Brendon Burchard, que trabalhou com a Oprah, o Obama, etc. Mas a grande responsável por esta mudança é Susana Torres, mediaticamente conhecida pelo trabalho desenvolvido com o futebolista Eder, que marcou o golo que garantiu à seleção portuguesa o título europeu em 2016 na final frente à França.

Susana é especializada em treino mental no desporto de alta competição e dá umas formações que Leonor frequentou – aliás, a de fevereiro será ministrada pela ilustre coach. “Este ano vai ser o da mudança. Não conseguia fazer este processo sozinha. Não somos nada sem os outros. Se conseguiu com o Eder, também consegue comigo. Tirar-me do banco e meter o golo do euro”, ri-se a trepidante professora em vias de se tornar treinadora.

Com Susana Torres, Leonor separou o trigo do joio. Apesar de alguns acessos de cólera. “Sabia o que não queria. E essencialmente com o coaching da Susana agora sei o que quero. Somos as piores pessoas para nós. Retirar algo para mim aqui de dentro foi uma odisseia. Com ela, fui pela abordagem artística. Colagens e interrogações na tela. Pergunta da Susana, que até me deixou zangada uns dias: “Porque é que não fazes uma escola aproveitando coisas boas do ensino? Gostas de viajar, podes fazer um projeto nos PALOP. Fiquei com os espinhos todos de fora”, diz às gargalhadas, assumindo paradoxalmente que tomar decisões ainda é um processo doloroso. Sim, até para quem vai na terceira carreira e correu as sete partidas do mundo.

“Numa sessão com a Susana, respondi que na educação não me distingo em nada. Sou boa na relação e na comunicação com os miúdos. Disse-me: “Considerando nestes meses todos em que estamos a trabalhar, há aqui uma questão: recebo propostas para trabalhar com miúdos mas não tenho tempo, tu tens o conhecimento.” Era coach à Mourinho, a Mourinha. Era a forma de orientar aquela malta toda”, prossegue Leonor. “Com alguma raiva e quando passou percebi que não era servido descabido o que me disse”, assente.

E em janeiro a treinadora de mentes para crianças ganhará contornos mais efetivos. Entretanto: “Nunca tive coragem para dar o passo em frente para desenhar. Neste momento, estamos a fazer ilustrações para um grupo de apoio a crianças com cancro.”
Para já, está em viagem por Angola. E na Páscoa estará na peugada de Charles Darwin entre a Colômbia e o Equador. Aí vai Leonor.

UM TRABALHO, A VOZ QUE VÍTOR QUER QUE OIÇAM

Desempregado há sete anos, o contrato de trabalho em 2020 abre uma janela de desejos consumáveis para Vítor Santiago, de 58 anos, “pai” da mãe e da irmã.

Aos 58 anos, Vítor Santiago só quer que a sociedade entenda o homem e as suas circunstâncias. Nascido no Huambo, Angola, e residente em Marvila, Lisboa, o luso-angolano vai voltar, sete anos depois, ao mercado de trabalho em 2020. Do qual sente que foi dispensado por não ter tido proteção dos seus direitos laborais como cuidador da mãe, de 89 anos, e da irmã, doente crónica e inapta para o trabalho. “Tive alguns trabalhos precários na construção civil. Se tivesse um emprego, as pessoas entendiam. Mas não, despediram-me”, diz num misto de desalento e esperança.

O ano de 2020 será, tudo indica, de realização de muitos desejos para Vítor Santiago. Recuperar alguma da autoestima que estas frustrações sociais provocam, além de voltar ao mercado de trabalho aos 58 anos. (Fotografia por Gerardo Santos/Global Imagens)

Neste ano, depois de ter chegado à Associação CAIS e encontrado um caminho, ainda que então por definir, que o podia levar de volta à recuperação da autonomia e cidadania (ainda mais) ativa. “Propuseram-me esta coisa há dois ou três meses. Fiz uma formação de três semanas com uma psicóloga que me atualizou relativamente ao sistema de trabalho, de como me preparar para entrevistas a fazer um currículo. A formação começou a 4 de novembro, na sede da CAIS, em Lisboa. [No seguimento] era para haver em dezembro um estágio de duas semanas numa empresa. Mas o processo atrasou-se e agora só em janeiro”, vai explicando o homem que já teve muitos ofícios.

“E o acordo era que íamos duas semanas e depois ficávamos com contrato de três meses, sustentado por uma bolsa”, no âmbito dos projetos sociais de reintegração no mercado de trabalho que a CAIS mantém com empresas.

O ano de 2020 será, tudo indica, de realização de muitos desejos para Vítor Santiago. Recuperar alguma da autoestima que estas frustrações sociais provocam, além que de voltar ao mercado de trabalho aos 58 anos – “já viu a dificuldade na minha idade?” – e a consequente melhoria do orçamento salarial (parcamente preenchido pelas pensões da mãe e irmã) é uma imensa estrada de luz e esperança para o próprio, mas também para a família que coordena afetivamente, mas também no plano da gestão do quotidiano entre hospitais, farmácias, medicação e lides da casa.

E tudo isto, e tudo isto é tanto numa vida de contrariedades, deixa Vítor sorridente, apesar de pragmático (ver para crer, basicamente). A cepa de Vítor Santiago é feita de muitas voltas à pista da vida. É um homem de andanças. Regresso compulsivo ao país dos pais após o 25 de abril de 1974, de volta à casa de partida africana para tentar uma vida melhor, mais de uma década em empresas que ainda hoje são líderes do setor da preparação de refeições e gestão de refeitórios, jornadas na construção civil sem vínculos duradouros. E como herança familiar uma mãe idosa a requerer cuidados médicos e uma irmã com uma doença psiquiátrica para cuidar, acompanhar e garantir que segue a medicação fundamental para o equilíbrio mental.

“Eu nasci em Angola, a 27 de setembro de 1961, em Nova Lisboa, hoje Huambo. Sou filho de mãe angolana, nascida lá em 1931, e de pai português – nasceu em 1929 – que foi para Angola aos 2 anos”, apresenta-se Vítor Santiago.

“Atualmente, vivo numa habitação social em Marvila com a minha mãe, Ivone Beatriz Gomes, de 88 anos, e a minha irmã mais nova. Estou desempregado desde 2013”.

O vaivém Angola-Portugal-Angola-Portugal começou dois anos após a Revolução dos Cravos por cá, e no ano seguinte ao da independência do país que outrora foi uma colónia portuguesa. “Em 1976, viemos com a minha mãe para Portugal, via África do Sul- éramos quatro irmãos, três rapazes e uma rapariga; um voltou para Angola, o gémeo da rapariga, e morreu de ataque súbito”, explica Vítor, que na altura já não tinha o pai na fotografia familiar – “ele trabalhava longe de casa e foi-se afastando, chegando a ter outras mulheres e filhos”.

“Atualmente, vivo numa habitação social em Marvila com a minha mãe, Ivone Beatriz Gomes, de 88 anos, e a minha irmã mais nova. Estou desempregado desde 2013. A minha irmã teve problemas desde a infância. Nunca frequentou escolas porque achavam que tinha um ligeiro atraso. Depois descobriram que o problema era não ouvir bem, o que a impedia de falar e aprender. Com a idade, têm-se sucedido as depressões, já esteve internada e é seguida no Hospital Júlio de Matos”, contextualiza.

“Estou desempregado devido aos conflitos entre a minha irmã e a própria mãe. Só trabalhos precários na construção civil, se tivesse um emprego, as pessoas entendiam e respeitavam os meus direitos. Mas não, era fácil e despediram-me”, explica. “Não posso sair de Lisboa porque tenho as duas a meu cargo. Sou pai delas, mas elas é que me sustentam com as pensões, de 200 e tal euros cada uma”, ri-se com sarcasmo.

“A minha mãe fraquejou, apesar de estar lúcida. A minha irmã precisa de injeções mensais e comprimidos para dormir. Ainda há dois meses tive de chamar a polícia para a internar. Recusava tomar os comprimidos. E na urgência os médicos não a queriam internar. Mas lá a internaram. Agora, está numa fase melhor”, respira mais aliviado.

“A minha sorte é ser solteiro. Quando regressei a Angola, em 1989, estive lá nas primeiras eleições, em 1992, e pensei que aquilo fosse mesmo ter paz, mas pegou-se novamente a guerra. Voltei em 1998 e regressei a Lisboa em 2001, o ano em que o meu pai faleceu. Só tenho lá irmãos agora”, conclui.

E cá, talvez o início de uma relação mais estável com a dignidade que procura no mercado laboral. A ver se “as pessoas” o entendem como cidadão de plenos direitos, para equilibrar com os deveres acumulados.

ANA RITA EMIGRA POR AMOR E PARA VIAJAR

O desejo de emigrar é um destino misterioso: caiu Abu Dhabi, ergueu-se Filipstad (Suécia) e o casal Silva cumpre um objetivo de vida. Viver noutro país, gozar o casamento e viajar.

O destino de um emigrante pode ser tão casual quanto a complexidade do carácter humano. Ana Rita e Hilário suspiravam pela ideia de mudar de país e estiveram perto (achavam eles) de o fazer em 2019. Mas o privilegiado trabalho em Abu Dhabi (Dubai) caiu com o estrondo de um esquema fraudulento. Daí resultou o casamento de papel passado e os misteriosos caminhos do amor junta-os num novo ano, numa nova vida e num novo lar numa pequena vila da Suécia. Ana Rita vai por amor, Hilário porque conseguiu um trabalho bem pago e aliciante, mas que rejeitaria se a mulher se opusesse.

“Tenho uma história hilariante. Casámos porque achávamos que íamos emigrar para Abu Dhabi, em abril. Mas era uma fraude, um esquema fraudulento”, conta Ana Rita, que vai agora, em 2020, mudar-se com o marido, Hilário, para Filipstad, na Suécia.

“O meu marido foi em setembro e eu vou agora para Filipstad. Nunca emigrámos, mas sempre foi um desejo nosso. Sinto-me mulher de futebolista”, diz, às gargalhadas, Ana Rita Silva, 31 anos e cinco meses mais nova do que Hilário Silva (ela nasceu em setembro e ele em abril de 1988). “Ele queria muito ir para fora, mas dizia-me: “Se não quiseres, não vou”, prossegue a gestora de conteúdos que foi dispensada antes de poder bater com a porta. Com estrondo.

“Ia-me despedir quando fui despedida. Trabalhava na área de conteúdos. Fui despedida porque sou muito insubordinada. Cresces a ouvir dizer que podes dizer o que pensas, mas chegas ao mundo do trabalho e não é bem assim. O meu antigo chefe disse-me: “És muito boa profissional, mas não gosto do teu feitio”, explica Ana Rita, que gosta de tudo em pratos limpos.

“Nunca me imaginei como dona de casa, sou muito ativa e trabalho desde 19 anos. Não sei falar sueco, mas a Suécia é o país europeu que melhor fala inglês. Filipstad fica na linha de Oslo e de Estocolmo, no interior, sul, e tem seis mil habitantes. Arranjar trabalho em Filipstad é difícil, a empresa em que trabalha o meu marido emprega grande parte da população. Surgiu a ideia de fazer algum tipo de voluntariado. Mas o governo sueco incentiva os filhos de imigrantes a aprender a língua materna. E dar aulas de Português é uma possibilidade”, diz.

No entretanto, o casal vai poder cumprir outro desejo comum. “Vamos ter melhor qualidade financeira. É para varrer o norte da Europa, viajar é uma grande prioridade”, dispara Ana Rita enquanto despacha os últimos caixotes para desimpedir a casa que habitaram até final do ano em Santa Marinha, Vila Nova de Gaia. Mas assente: “Vou por amor.”

O meu gestor disse-me: “Não vou fazer microgestão.” Se fizeres o trabalho em seis horas, sais. Tens as tuas tarefas e objetivos.

Engenheiro de produção, Hilário encontrou um emprego em que se sair às 18.00 ninguém lhe pergunta se vai “almoçar a casa”. “O horário é mais ou menos o mesmo, das 8.00 às 16.00 agora, em Portugal era das 8.00 às 16.30. O meu gestor disse-me: “Não vou fazer microgestão.” Se fizeres o trabalho em seis horas, sais. Tens as tuas tarefas e objetivos. Na semana em que tive a chatice com o meu gestor em Portugal, disse-me: “Isto não é um trabalho de oito horas.” Pois não, no dia anterior tinha feito 13. Aqui não há gritos. Aí falava tudo muito alto”, explica o engenheiro. Voz à Ana Rita, a protagonista desta história de amor e descobertas. “Tenho uma história hilariante. Nós casámos porque achávamos que íamos emigrar para Abu Dhabi, em abril. Mas era uma fraude. Recebeu uma proposta que depois viemos a descobrir ser uma fraude. Desconfiámos quando nos pediram quase dois mil euros para tratar dos vistos. Já tinha assinado contrato e era uma empresa fidedigna. Alguém clonou a página de LinkedIn do responsável de recursos humanos da empresa. Lemos posteriormente um artigo a alertar para aquela pessoa”, ri-se Susana. “Quando se confirmou que já não íamos, tínhamos a família a perguntar: “Mas vão casar na mesma, certo?” [risos] Não era algo que tivéssemos planeado, mas já estava organizado e decidimos avançar. E ainda bem, foi muito bonito”, diz com graça a licenciada em Comunicação pela Universidade do Porto.

A ideia de emigrar era tema de conversa do casal, mas foi Hilário quem liderou o processo. “Desde janeiro (2019) que tinha decido mudar. Não gostava do que fazia, não acredito nos princípios. E fui procurando. Numa das mil entregas de currículos, recebi uma proposta muito boa do Dubai. Existiam no Linkedin, conheciam os processos, com documentos fiáveis. A proposta era de sete mil euros mensais, com motorista e casa. Nos sites fidedignos eram essas as condições daquela empresa. Só quando pediram quase dois mil euros para vistos é que começamos a desconfiar. Falhei porque não solicitei nenhuma conversa por Skype, foi tudo por e-mail. Depois descobrimos um artigo a alertar para a fraude, com o e-mail que usavam, o nome da pessoa, etc. A empresa em questão é enorme no setor da construção e tem investimentos no Algarve”, aprofunda Hilário.

“Os nossos desejos eram manter o casamento, viajar e evoluir. É uma grande oportunidade profissional para mim, mas a prioridade era a minha relação. E lá, conciliar a vida pessoal com a profissional é possível. Ali há vida, saio às 16,17.00 e posso fazer muitas coisas com a Rita”, diz Hilário. E conclui: “A empresa para a qual trabalho está em Itália, nos Estados Unidos, na Alemanha e na Dinamarca. Para já, quero explorar as possibilidades aqui em Filipstad, mas, depois, quem sabe se outras portas se abrem para nós.”