Ano Novo, a mesma vida?

Com a aproximação do fim do ano começam a formar-se nas nossas mentes as famosas resoluções de Ano Novo. O ano velho passa-se em revista, olha-se para trás e recorda-se o que de bom e menos bom aconteceu, os desejos concretizados, os que permanecem ainda por concretizar, as conquistas, as desilusões, os ganhos e as perdas. E com este olhar no passado delineamos o futuro.

«No próximo ano vou mudar de emprego, vou ao ginásio, vou alterar os meus hábitos de consumo, vou por fim à relação amorosa (ou nada amorosa) que tenho, vou perder peso ou ganhar peso, vou fazer voluntariado, vou viajar, vou deixar de fumar, vou arrumar as gavetas, vou arriscar e conhecer um grande amor, vou deixar de comer carne, vou…»

Porque razão sentimos esta necessidade em mudar, em dizermos para nós mesmos que o iremos fazer e, depois, nem sempre o conseguimos? Penso que a resposta mais óbvia é apenas uma. Porque face ao desconforto e à insatisfação desejamos mudar. Mas mudar custa

Definem-se planos e mudanças, agendas e objetivos. Sejam pessoais ou profissionais, de lazer ou quaisquer outros, formular desejos e definir metas faz parte do ritual.

Mas a verdade é que passado um dia (umas horas, bem vistas as coisas) tudo parece voltar ao que era antes. Continuamos a fumar ou a beber, mantemos o peso que temos, presos nas mesmas relações tóxicas que queríamos alterar e sem coragem para largar o emprego estável, mas nada gratificante, que temos há anos. E todos os anos isto se repete. .

O fim do ano aproxima-se e é como se, a cada passagem de ano, uma luz anunciasse possíveis mudanças. Ganha-se coragem, identificam-se as áreas problemáticas na nossa vida e acreditamos (ou queremos acreditar) que as iremos alterar assim que o ponteiro passar a barreira da meia-noite. Mas nem sempre isso acontece.

Penso que vale a pensa refletir um pouco sobre isto. Porque razão sentimos esta necessidade em mudar, em dizermos para nós mesmos que o iremos fazer e, depois, nem sempre o conseguimos? Penso que a resposta mais óbvia é apenas uma. Porque face ao desconforto e à insatisfação desejamos mudar. Mas mudar custa.

Mudar significa sair da nossa famosa zona de conforto, que é como quem diz, abandonar o que é estável, seguro e previsível. Mudar significa arriscar, enfrentar o desconhecido e o imprevisível. O que pode ser extremamente assustador e mesmo ameaçador. E perante algo desta natureza tendemos a retrair-nos.

A cada Ano Novo sentimos necessidade de um recomeço. E para recomeçar é preciso acreditar e confiar, com sabedoria, aceitação e persistência

Manter o equilíbrio, mesmo que patológico. Uma paz podre. Sabemos que as coisas não estão bem, mas é o que temos. Acabamos por nos acomodar, pois mais vale isso do que enfrentar todo um processo, tantas vezes doloroso, de mudança.

Penso que a cada ano que começa sentimos necessidade de ganhar uma nova energia e motivação, e pensar de forma positiva é fundamental neste processo. Sabemos a importância que os pensamentos têm naquilo que sentimos e no que fazemos. Mas para além de nos focarmos em pensamentos positivos, que mais poderemos fazer? Como implementar as mudanças desejadas?

Uma estratégia importante é identificar objetivos intermédios ao invés de uma meta final. Imaginarmos uma corrente, que podemos dividir em elos, e tentar alcançar um elo de cada vez. Pequenos passos, de forma gradual e por aproximações sucessivas são sempre mais fáceis de alcançar.

Outra estratégia facilitadora para conseguirmos concretizar as nossas resoluções de ano novo pode ser a antecipação de consequências positivas. Não apenas a curto prazo, mas também (e acima de tudo) a médio e longo prazo.

Focarmo-nos nas vantagens que podem advir mais tarde ajuda-nos a não adiar nem desistir. A cada Ano Novo sentimos necessidade de um recomeço. E para recomeçar é preciso acreditar e confiar, com sabedoria, aceitação e persistência. Saber esperar também, que as coisas certas aconteçam no tempo certo. Porque muitas vezes acontecem.

Rute Agulhas é psicóloga e terapeuta familiar, especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, Psicoterapia e Psicologia da Justiça. Perita na Delegação Sul do INMLCF, é docente e investigadora no ISCTE-IUL, além de membro do Conselho Jurisdicional da Ordem dos Psicólogos Portugueses. A pedido da autora, a crónica segue as regras do antigo Acordo Ortográfico.


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