Antes de Greta, foi Severn a lutar pelo ambiente

A canadiana Severn Cullis-Suzuki, hoje com 40 anos, foi das primeiras vozes juvenis a falar sobre a crise ambiental. Em 1992, discursou no Rio de Janeiro para delegados da ONU.

Texto de Álvaro Filho

Embora não conste da lista de nomes que designam as tempestades, o “furacão Greta” atingiu em cheio o planeta em 2019. Inundou as ruas de ruidosos adolescentes, abanou as estruturas do sistema e fez da sueca de semblante e tons graves o símbolo de um tsunami global de uma juventude movida pelo instinto de sobrevivência e pela tormenta das hormonas. As imagens são inequívocas: a sueca Greta Thunberg não está só em sua luta – ou melhor, em nossa luta – e a verdade é que nunca esteve, nem agora nem antes.

Há quase três décadas, uma miúda recém-saída da infância também catalisou a atenção mundial sobre as ameaças climáticas. Em 1992, então com 13 anos, a canadiana Severn Cullis-Suzuki arrecadou 13 mil dólares numa vaquinha para ir à Conferência das Nações Unidas sobre o meio ambiente, no Rio de Janeiro. Assim como Greta, Severn discursou para uma audiência de sisudos delegados da ONU, que escutaram em contrito silêncio as queixas, ansiedades e, mais dramático ainda, os apelos para que os adultos, finalmente, se portem como tal.

Com 13 anos, Severn Cullis-Suzuki consegui arrecadar 13 mil dólares para ir discursar à conferência das nações unidas que se realizou no Rio de Janeiro e alertar os adultos presentes para a destruição do Planeta.

Mais do que uma curiosidade histórica, o facto de duas adolescentes separadas no tempo e no espaço protagonizarem momentos semelhantes em nome de uma mesma causa, é um sinal de alerta. Se o mundo parou para ouvir Severn, mas 27 anos depois não foi capaz de traduzir o apelo em medidas para travar a deterioração ambiental, há um risco relevante de o “furacão Greta” perder a intensidade das rajadas até se tornar uma inofensiva brisa.
A favor de Greta há o poder da revolução tecnológica. Quando Severn discursou no Rio de Janeiro, a internet ainda gatinhava, arrastando-se através de uma conexão discada, e as redes sociais levariam ainda mais de uma década para nascer. À época, a notícia foi destaque em jornais e telejornais, consumida provavelmente pelos mesmos adultos aos quais a canadiana apontava o dedo acusatório.

O discurso da Servern só chegaria à internet mais tarde. Publicado no canal da ONU no YouTube em 2017, ou seja, 25 anos depois – uma eternidade na cronologia da Web – contabiliza desde então pouco mais de 114 mil visualizações. Greta, por sua vez, é filha da instantaneidade e comunica sem intermediários com a sua geração. Com oito milhões de seguidores apenas no Instagram – popular entre as jovens da sua faixa etária (os pais fatalmente estarão entre os 2,5 milhões de fãs no Facebook) -, o seu último post alcançou 735 mil gostos horas após ter sido publicado.

Entre as imagens no colorido mosaico do perfil figura uma na qual empunha um cartaz ao lado de uma mulher madura, durante uma entre tantas greves estudantis que ajudou a inspirar, desta vez em Vancouver, no Canadá. A dona do sorriso franco ao lado de Greta é justamente Severn Cullis-Suzuki. Os rostos do passado e do presente na luta pelo clima encontraram-se em 25 de outubro e, pela primeira vez juntas, marcharam em defesa da causa que as uniu.

Numa manifestação em Vancouver,no Canadá, a 25 de outubro de 2019, Greta Thunberg posou ao lado de Severn Cullis-Suzuki. (Foto D.R.)

Prestes a completar 40 anos, Severn pode não ter mantido o protagonismo mediático, mas não abandonou os ideais que a levaram ao Rio de Janeiro. No ato em Vancouver, aproveitou-se da presença de Greta para lembrar que as pessoas costumam dar mais atenção quando é uma “criança que está a enfrentar o sistema”. Ao contrário da sua sucessora, porém, recolheu o dedo em riste e defende agora que as gerações – a dela e a de Greta – deem as mãos para salvar a Terra.

A linha mais moderada já se refletia no discurso de 1992, quando inusitada cena de uma criança a encarar uma audiência madura já era o suficiente para causar um furor. Em um dos momentos mais incisivos da sua fala, a canadiana com o semblante sério, porém sereno, lembrou aos adultos que não havia fórmula para desfazer a extinção de um animal ou a desertificação de uma floresta. “Se não conseguem arranjar o planeta, parem de destrui-lo”, sugeria o documento cujo título Listen to the Children sugeria um apelo.

Greta Thunberg parece menos propensa ao armistício. A sua fala em setembro na ONU, tanto no conteúdo como na fisionomia transfigurada da sueca, sugere que as crianças de hoje não se contentam mais em apenas serem ouvidas e estão dispostas a partir ao ataque. A começar pelo título, How Dare You!, pronunciado repetitivamente, num misto de ultraje e ira. A primeira frase, “Estamos de olho em vocês”, sugere o tom de ameaça, ao parafrasear o aviso não menos ameaçador do Grande Irmão da célebre distopia de George Orwell, 1984.

Assim como o Big Brother orwelliano, os little brothers de Greta perceberam que a violência simbólica pode ser eficiente. As paralisações às sextas-feiras, com salas de aulas vazias e ruas cheias de adolescentes, por si só, provocam pânico nos pais e são um pesadelo para os governantes, cientes de que há sempre algo a ser reivindicado e que uma manifestação pacífica pode ser o rastilho para distúrbios incontroláveis, nos moldes dos coletes amarelos de Paris ou dos recentes acontecimentos em Hong Kong e na América do Sul.

Este poder de mobilização e a capacidade de reação são, na opinião de Severn, o que pode marcar a diferença entre os tempos de Greta e o dela. Em recente entrevista ao Libération a canadiana lembrou que há 27 anos era uma voz solitária, em contraste com o numeroso exército de seguidores da sueca nas redes sociais. “Além do mais, a sociedade hoje percebe melhor o jogo ambiental”, reforça.

Greta também conta com a “colaboração” do seu principal oponente. Se há quase três décadas era preciso recorrer aos efeitos especiais para ilustrar graficamente os danos causados pela deterioração do meio ambiente, hoje os efeitos climáticos dispensam o uso de ecrãs e fazem-se sentir na pele. E é sempre mais fácil mobilizar um exército para a batalha quando se sente a presença do inimigo.

O encontro em Vancouver marcou uma espécie de passagem de bastão entre ambas. Severn não esconde a sensação de que não só o seu discurso mas também a sua luta perpetuam-se na voz e nos gestos de Greta. Talvez por isto se tenha recolhido imediatamente depois para se dedicar à causa com a qual lida nos últimos anos, de carácter mais emocional do que global.

Casada com um descendente da tribo Haida, a canadiana luta para preservar o idioma da tribo ameríndia, falado por menos de uma centena de pessoas, quase todas septuagenárias. E não parece haver ninguém mais apropriado para preservar a fala de um povo do que a menina que cresceu a conviver com os riscos de não ouvir o que tinha a dizer.