Antibióticos: já não salvam como antes

Antibióticos: já não salvam como antes

As bactérias resistentes aos antibióticos matam cerca de 700 mil pessoas anualmente. E podem vir a matar mais do que o cancro, se continuarmos a fazer um uso indevido desta categoria de fármaco. A comunidade médica não tem dúvidas: o cenário é de alerta.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia iStock

Em 2018, celebram-se os 90 anos da descoberta da penicilina. A efeméride não é comemorada em êxtase mas a verdade é que se tratou de uma verdadeira revolução. Os antibióticos são uma parte fundamental nos tratamentos médicos e a sua aplicação já salvou um número incontável de vidas.

No entanto, volvido quase um século, as infeções por bactérias resistentes a antibióticos tornaram-se uma das principais ameaças (senão a principal) dos sistemas de saúde modernos. Estas já são atualmente a causa de morte de cerca de 700 mil pessoas por ano.

E a Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta para um futuro ainda pior. Se nada for feito, em 2050, 10 milhões de pessoas morrerão por ano – 390.000 na Europa – devido a este tipo de infeções. É o mesmo que dizer que morrerá uma pessoa a cada três segundos por esta causa, mais do que devido a cancro ou a diabetes. Assustador?

Maria do Rosário Rodrigues, diretora nacional do Programa de Prevenção e Controlo de Infeções e de Resistências aos Antimicrobianos (PPCIRA), vai mais longe. «O impacto destas infeções na população europeia é comparável ao impacto causado pelo somatório da gripe, tuberculose e HIV/SIDA.»

A prescrição excessiva e o uso indevido de antibióticos está a acelerar este processo de forma preocupante. Para Ernestina Reis, médica e coordenadora do Programa de Apoio à Prescrição de Antibióticos do Centro Hospitalar Universitário do Porto, o uso inadequado da ambioterapia é um problema grave.

«Temos doentes que, à partida, têm infeções víricas (por exemplo, uma constipação banal) e continuamos com a ideia de que é preciso tomar antibióticos para curar mais depressa. Desconfiamos do médico quando este nos diz para ir para casa, mas a verdade é que, ao tomarmos medicamentos sem necessidade, podemos estar a tratar colonizações bacterianas que não deviam ser tratadas. Temos milhões de bactérias com as quais convivemos diariamente e precisamos delas.»

Entre 1983 e 1987, foram aprovados 16 tipos de antibióticos para combaterem bactérias, entre 2008 e 2011, foram apenas dois.

Ana Rita Brochado, investigadora no European Molecular Biology Laboratory (EMBL), em Heidelberg, na Alemanha, explica o processo que acontece no organismo. «Quando se aplica um antibiótico frequentemente ou de forma indevida, o que acontece é que outras bactérias vão entrar em contacto com esse fármaco. Só aquelas que têm mecanismos de resistência sobrevivem. Ou seja, está a promover a prevalência de microrganismos resistentes aos antibióticos. Os outros vão morrer. Gera, assim, um desequilíbrio que favorece as bactérias resistentes, que acabam por propagar-se muito mais.»

A gonorreia é um exemplo. Segundo a OMS, mais de «um milhão de pessoas estão infetadas com gonorreia em todo o mundo e a falência de tratamento de último recurso com cefalosporinas foi confirmada na Áustria, Austrália, Canadá, França, Japão, Noruega, Eslovénia, África do Sul, Suécia e Reino Unido.»

Para a médica do Centro Hospitalar Universitário do Porto, é um desafio urgente. «Um doente que esteja internado e venha a desenvolver uma infeção morre porque não temos como tratá-lo.»

E se voltarmos aos números, percebemos porquê. «Estima-se que, por ano, 8,8 milhões de infeções associadas aos cuidados de saúde ocorram nos hospitais europeus e 39% destas são causadas por bactérias resistentes aos antibióticos de última linha como os carbapenemes e a colistina».

Portugal está entre os quatro países europeus (juntamente com a Itália, Grécia e Roménia) com maior mortalidade, segundo o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças. A coordenadora do PPCIRA lembra um estudo comparativo realizado em 2014. «Verificou-se que morriam mais pessoas devido a infeções do que por acidentes de viação. Cerca de treze doentes por dia com um custo de 3% do orçamento da saúde no país.»

Maria do Rosário explica: «É necessária a implementação de Programas de Apoio à Prescrição de Antibióticos em todas as Unidades de Saúde que promovam o bom uso dos mesmos, ou seja, que estes sejam utilizados nas doses certas.

O mercado farmacêutico não tem conseguido acompanhar e verificou-se, inclusive, um decréscimo no lançamento de novos fármacos. Se, entre 1983 e 1987, foram aprovados 16 tipos de antibióticos para combaterem bactérias, entre 2008 e 2011, foram apenas dois. No entanto, outras alternativas estão a ser estudadas.

A investigadora do EMBL foi a única portuguesa a participar num estudo inovador que combinou, pela primeira vez e de forma sistemática, vários antibióticos ou estes com outros compostos. Em três mil combinações testadas, 7% excederam as expectativas. Nesses casos, os antibióticos conseguiram ser mais agressivos e eficazes contra as bactérias do que se tivessem sido administrados sozinhos.

«Em vez de se criar um novo antibiótico, criamos um superantibiótico com fórmulas já existentes. Em si, é uma ideia muito atrativa porque o processo torna-se mais rápido já que sabemos, à partida, que estes compostos não são tóxicos.» No entanto, o projeto está ainda numa fase muito embrionária.

A curto prazo, é importante aplicar medidas concretas nas unidades de saúde, como explica Maria do Rosário. «É necessária a implementação de Programas de Apoio à Prescrição de Antibióticos em todas as Unidades de Saúde que promovam o bom uso dos mesmos, ou seja, que estes sejam utilizados nas doses certas, no tempo certo e nas indicações adequadas».

Apesar dos esforços que estão a ser feitos, a Ana Rita Brochado fala de «um cenário muito pouco animador. É verdade que, na Europa, podemos fazer mais para controlar. Mas o mundo não é a Europa e é muito difícil controlar os standards de uso dos antibióticos. E sobretudo, controlar a propagação das bactérias superresistentes».

EM NÚMEROS

Um estudo do Centro Europeu para a Prevenção e o Controle de Doenças concluiu que morrem por ano mais de 33 mil pessoas na Europa por infeções provocadas por bactérias resistentes a antibióticos.