Aprender a relaxar é uma ferramenta para a vida

Ainda o avião não descolou e já um senhor na fila de trás respira de forma ofegante. Com as mãos ao peito e um olhar assustado, inspira e expira a toda a velocidade. Preocupados, os passageiros ao seu lado perguntam em que podem ajudar, ajudam-no a tirar a gravata e fazem soar a campainha, pedindo socorro desenfreadamente. O assistente de bordo aproxima-se e, com uma voz melodiosa, pede repetidamente para o passageiro se acalmar. Alguém traz água e incentivam-no a beber pequenos goles. E é então que, entre a água que se entorna, uma senhora que grita “eu também tenho medo!” e os sussurros entredentes de quem assiste, ouve-se uma vozinha. Fininha, quase sumida, soa vinda de uma fila da frente. “Eu ensino-o a relaxar, como a minha professora me ensinou”.

Estupefacta, constato tratar-se de uma criança, um menino que não terá mais do que sete anos de idade. Um menino que, do alto da sua sabedoria e generosidade, partilha com todos aquilo que, num momento como este, poderá ser a mais útil das ferramentas. Aprender a relaxar.

Acho que poucos lhe deram crédito, até o menino se levantar e aproximar-se lentamente. “Eu ensino-o, faça como eu… vamos fechar os olhos e respirar muito devagarinho. E vamos pensar em coisas boas. Eu gosto de imaginar que estou a jogar à bola ou então esticado dentro de água, a flutuar… pense numa coisa boa, e não deixe de respirar devagarinho… também podemos fazer de conta que temos um limão nas mãos e que o vamos espremer… apertamos, muito, muito, muito, até o sumo sair todo… e depois largamos, e ficamos com as mãos muito molinhas… foi assim que a minha professora me ensinou e é assim que eu faço sempre que estou nervoso ou quando tenho um ataque de raiva”.

E pronto. Em menos de dois minutos tivemos a melhor aula de sempre. Uma lição de vida, em boa verdade. E não é que o dito senhor lhe prestou atenção e o tentou imitar, fechando os olhos e pensando sabe-se lá em quê? E acalmou.

Esta criança possui uma ferramenta poderosíssima para lidar com um estado de ansiedade. Porque estar ansioso e relaxado ao mesmo tempo não é possível, tudo o que possamos fazer no sentido de relaxar nos afasta, necessariamente, de um estado ansioso. Respirar lentamente, com inspirações e expirações profundas, contrair e descontrair grupos musculares (que podem ser diversos, dependendo do treino de relaxamento em concreto) e imaginar cenas agradáveis e geradoras de prazer e tranquilidade (uma estratégia imagética) são, afinal de contas, os ingredientes necessários para conseguir relaxar. O batimento cardíaco diminui, o ritmo respiratório desacelera e os músculos vão ficando, progressivamente, mais relaxados. Há toda uma sensação boa e morna que se apodera de nós.

Ensinar as crianças a relaxar é tão importante como ensiná-las a atravessar a rua ou a brincar na praia em segurança.

Mas aprender a relaxar requer treino, tal e qual como quando treinamos o corpo num ginásio. Fazer uma primeira vez sob a orientação de quem sabe, e depois muitas outras vezes, já sozinhos, até que estes procedimentos se automatizem. E uma vez automatizados, ganhamos uma sensação de controlo única que nos permite, então, adaptar o treino a situações específicas nas quais sentimos que a ansiedade está a crescer e a tomar conta de nós. Por exemplo, quando nos irritamos e temos dificuldade em controlar os impulsos, quando andamos de avião, falamos em público ou fazemos um teste. E aprendemos a relaxar de uma forma discreta e subtil, tão subtil que quem está à nossa volta não repara.

Ensinar as crianças a relaxar é tão importante como ensiná-las a atravessar a rua ou a brincar na praia em segurança. Diria mesmo que o treino de relaxamento deveria ser uma componente obrigatória nos curricula escolares. Tendo em conta que a escola é palco de tantas ansiedades, pela pressão associada à avaliação de desempenho mas, também, ao relacionamento com os pares, ensinar as nossas crianças a relaxar parece-me mesmo imprescindível.

Que a professora deste menino seja uma inspiração para todos nós.