Ar condicionado: uma luta de sexos?

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É capaz de ser a maior causa de discussões entre homens e mulheres no escritório: elas queixam-se de estar um frio que não se aguenta, eles objetam ter demasiado calor. E sendo assim aumenta-se a temperatura do ar condicionado, como elas suplicam? Ou deixamo-lo no frio ao gosto deles, ainda que isso afete a produtividade de boa parte da equipa?

Texto de Ana Pago

Ao entrar pela primeira vez no escritório para substituir uma colega em licença de maternidade, Inês Silva percebeu que nunca se considerara uma mulher friorenta porque nunca antes trabalhara tão perto de uma saída de ar condicionado. “Foi há dois anos, no início de julho. Vinha da rua de vestido e sandálias, a destilar num calor que nem calças dava para usar, e pouco depois de me sentar no meu lugar já estava enregelada até aos ossos”, conta a contabilista, arrepiada só de pensar.

Bem passou a fazer chás de gengibre e a andar com um casaco que fazia a irmã rir-se dela todas as manhãs: ia assar ali dentro, garantidamente. Devia estar mas era maluca para vestir aquilo. “Também eu pensava o mesmo, até voltar para a minha secretária e congelar pela milionésima vez”, recorda Inês Silva, que nunca se cansou de pedir que desligassem o ar ou tapassem a conduta, sem sucesso. “Juro que não sou nada piegas, mas não acho normal ter de pôr uma manta polar nas pernas para conseguir aquecer.”

Nem normal nem muito produtivo, a avaliar por um estudo recente realizado em conjunto pela Universidade do Sul Califórnia, EUA, e pelo Centro de Ciências Sociais WZB de Berlim, divulgado na revista científica PLOS One: segundo os dados obtidos junto de 543 estudantes alemães, testados em provas matemáticas e escritas em ambientes que variavam dos 15 aos 23º C, as mulheres conseguiram melhores performances com mais calor, sem que isso se traduzisse numa diminuição expressiva da produtividade masculina.

As mulheres tiveram um desempenho significativamente melhor em temperaturas mais altas, ao passo que o dos homens foi apenas um pouco pior.

“A nossa pesquisa demonstrou que as discussões laborais em torno do ar condicionado não se limitam ao tópico do conforto”, sublinhou em entrevista à BBC Agne Kajackaite, especialista em economia comportamental e uma das autoras do estudo que mediu a relação entre calor/frio e aproveitamento no trabalho (incluindo o rendimento cognitivo de cada um). Do que viu, há muito mais em jogo do que as alegadas queixinhas delas e encolheres de ombros deles, sobretudo por gozarem sempre do termóstato a seu favor.

“As mulheres tiveram um desempenho significativamente melhor em temperaturas mais altas, ao passo que o dos homens foi apenas um pouco pior”, explica a investigadora do Centro de Ciências Sociais WZB de Berlim, defensora de alguns ajustes necessários e urgentes para se equilibrar o bem-estar nas empresas: “Os gestores deviam começar a prestar mais atenção à temperatura do escritório, ouvir o que dizem os seus funcionários e levá-los a sério, dados os efeitos consideráveis na produtividade”, acrescenta.

Antes deste estudo de Kajackaite, uma outra pesquisa de 2015, publicada na revista científica Nature Climate Change, revelava que os ares condicionados dos prédios de escritórios baseiam a sua temperatura num modelo de conforto térmico calculado na década de 1960, tendo em conta a taxa metabólica de um homem médio de 40 anos e 70 quilos. O facto de eles terem, por norma, mais massa corporal do que as colegas torna-os particularmente insensíveis a temperaturas que, a elas, as deixam a bater o dente.

Saber que a temperatura corporal de homens e mulheres é diferente não significa que haja tentativas relevantes de resolver um problema que muitos nem consideram como tal.

Já para não falar na questão de usarem roupas bastante quentes – calças e casacos em tecidos grossos, camisas de mangas, sapatos fechados com meias –, por oposição aos tecidos finos, decotes e pés à mostra delas. “Existe uma regra de etiqueta e protocolo no local de trabalho que diz que os homens não podem mostrar as pernas”, sustenta Raquel Guimarães, diretora executiva da Fashion School, no Porto. Tirando firmas mais criativas ou disruptivas, em que não fazem tanto sentido as normas convencionais do fato escuro, “neles até as meias devem ser subidas o suficiente para não revelarem pele ao cruzarem a perna”, reforça a especialista em imagem empresarial.

E não: saber que a temperatura corporal de homens e mulheres é diferente não significa que haja tentativas relevantes de resolver um problema que muitos nem consideram como tal. Isto apesar do que se perde em poupança energética, com repercussões ao nível das alterações climáticas, e de o homem médio do passado ter sido entretanto substituído por forças de trabalho mistas, em que as mulheres já nem sequer são uma minoria. “Muitos homens pensam que elas estão com mariquices quando, na verdade, é a fisiologia feminina a falar”, escreveu o físico holandês Joost van Hoof a propósito do estudo avançado na Nature Climate Change.

Os próprios autores da pesquisa – os biofísicos Boris Kingma e Wouter van Marken Lichtenbelt, do Centro Médico da Universidade de Maastricht, Holanda – concluíram que a taxa metabólica média das mulheres ficava entre 20 e 32% abaixo daquela que constava nas tabelas usadas para calibrar as temperaturas dos ares condicionados. Logo nessa altura, sugeriram ajustar o modelo para que incluísse a taxa real de ambos os sexos, considerando variáveis como o peso, a idade, a indumentária e outras que, em conjunto, influenciam os resultados da equação.

E qual é, afinal, a temperatura perfeita?

Ou pelo menos uma que permita a todos trabalharem no mesmo local sem andarem às turras pelo controlo do ar? De acordo com os especialistas por dentro deste assunto, à partida 21º C seriam um valor aceitável para os homens e 24º C para as mulheres, uma vez que o corpo feminino necessita de mais uns 3º C do que o masculino para alcançar iguais níveis de conforto. De resto, foi para 24,4º C que a atriz Cynthia Nixon, a Miranda Hobbes de O Sexo e a Cidade, pediu que se aumentasse a temperatura dos ares condicionados de todos os escritórios, num debate no canal americano CBS.

“Em ambientes frios as mulheres apresentam maior vasoconstrição, ou seja, as veias estreitam-se para reduzir o fluxo de sangue e evitar a perda de calor. Daí sentirem as mãos e pés mais gelados”, explicou à BBC Clare Eglin, responsável pelo Departamento de Fisiologia da Universidade de Portsmouth, Reino Unido. Já eles, diz, além de terem uma temperatura diferente (mais quente) nas extremidades, beneficiam de mais massa muscular e mais calor gerado por ela, pelo que não precisam de reduzir o fluxo de sangue na pele para manterem a temperatura interna.

Em última análise, dita o bom senso, ninguém deve sofrer mais à secretária do que aquilo que o trabalho lhe exige em si mesmo. Homens podem despir os casacos, arregaçar as mangas, abrir janelas para pouparem as colegas ao desconforto. Mulheres irão vestir uma sweatshirt, enrolar-se numa écharpe, mas terão de continuar a bater o pé para não passarem horas a espirrar violentamente, de olhos molhados, a sonhar com o calor. Quem vai ao ar…