As 9 queixas mais comuns na terapia de casal (e como resolvê-las)

Não dá para saber muito bem onde uma crítica acaba e a outra começa – estão todas interligadas. E sendo assim, tudo contribui para o gigantesco molho de brócolos emocional que faz descambar relações. Seja como for, são estas as queixas mais comuns na terapia de casal. Para evitar que se repitam.

Texto de Ana Pago | Fotografias da Shutterstock

COMUNICAÇÃO MEDÍOCRE

Para não dizer reduzida ao básico ou mesmo inexistente. «E isto quando conversas profundas entre o casal são aquilo que mais promove a ligação forte que os faz querer ultrapassar as desavenças», defende a psicóloga clínica e coacher sexual Cristina Mira Santos, para quem este pode muito bem ser o ponto onde começa a ruína das relações. «Se não se cria tempo para dizer ao outro que o amamos, para lhe fazermos um elogio, está tudo estragado.» E atenção: falta de tempo não significa que não o tenhamos. «Apenas que estamos a definir mal as nossas prioridades.»

VAZIO EMOCIONAL

É uma consequência direta da queixa anterior, a ponto de atitudes simples, que o parceiro faz sem pensar, serem encaradas como autênticas provocações: «Ele não lavou a loiça do jantar porque não se preocupa comigo», ou ele só deixa as peúgas no chão porque já nem quer saber o que eu sinto». E aqui não há outra alternativa a não ser insistir no diálogo, aponta Cristina Mira Santos. Para quebrar esse distanciamento letal que se cria e vai atrair ainda mais negativismo para a relação, como uma onda. «À falta de palavras, experimentem dar ao outro um abraço como aqueles que davam ao início», sugere a sexóloga.

FALTA DE SEXO

Eles queixam-se mais da quantidade – pouco ou nenhum sexo porque elas não estão para aí viradas – e elas da qualidade – se não querem, é por estarem fartas de fast-food, com pouco envolvimento. «Tudo o que se faz antes para ativar a energia erótica da mulher não é um pré para qualquer coisa, é já o ato principal», sublinha a terapeuta. Se o casal chega a casa estafado, a precisar de dormir após um dia esgotante, então o sexo tem mesmo de ser nutridor para ambos. «Também já tenho muitas mulheres a queixarem-se de pouco sexo, mas isso é mais devido às dificuldades de ereção que os seus homens sentem e os faz evitarem o ato para não se confrontarem com a situação.»

USO EXCESSIVO DO TELEMÓVEL

E das redes sociais. E da Netflix. «Há pouco falávamos da falta de tempo, mas se ele existe para ver séries e mexer no smartphone isso quer dizer que até o temos, apenas não o direcionamos para as coisas certas», traduz Cristina Mira Santos, alertando para o facto de nenhuma relação sobreviver à falta de intimidade. «O que acontece muitas vezes no meio disto é alguém surgir na nossa vida de repente, dar-nos a atenção de que achávamos não precisar e lá vamos nós, por estarmos sedentos de amor.»

INFIDELIDADE

Consequência direta da queixa anterior, varia consoante o nível de envolvimento fora da relação, a duração do caso e se chegou, ou não, a vias de facto. Uma coisa é certa, garante a terapeuta: se o casal procura ajuda neste ponto, significa que ainda acredita que a relação possa ser salva. «De novo, a estratégia tem sempre que passar por criar tempo. E nesse tempo que se cria, procurar efetivamente, o caminho de volta para se envolver com o outro e ter conversas profundas», explica. É por tantos casais acreditarem que o parceiro tem de saber lê-los que acabam a alimentar ressentimentos injustos.

DIFICULDADES FINANCEIRAS

São constantemente uma espada a balançar em desequilíbrio sobre a cabeça do casal, admite Cristina Mira Santos. E sim, as mais frequentes têm a ver com a falta de dinheiro, mas também com a incapacidade de se fazer uma gestão funcional se se tem muito dinheiro (as despesas aumentam em igual medida), se apenas um dos parceiros trabalha ou até mesmo se um ganha bastante mais do que o outro. Na verdade, observa, «quando são elas a pôr mais dinheiro em casa existe quase sempre uma mágoa da parte do homem que descamba frequentemente num questionar da sua própria virilidade».

TAREFAS NÃO PARTILHADAS

«A discussão da igualdade de género dentro da família é importantíssima», avisa a psicóloga, considerando impossível manter-se o registo, nos dias que correm, do homem que chega e ficar no sofá a beber uma cerveja, enquanto a mulher faz o jantar, dá banho aos filhos, prepara as marmitas para o dia seguinte e ainda arruma a cozinha, lavagem dos azulejos incluída. «Não há milagres num cenário assim. É normalíssimo que a mulher chegue à cama sem vontade, mais do que o homem.» Muito diferente de serem os dois a despachar as tarefas domésticas e a fomentarem uma noção de partilha que só vai incendiá-los. «O cansaço até pode ser idêntico, mas não a disposição para o amor, com toda a certeza», diz.

DISCUSSÕES CONSTANTES

Resultam de cansaço, mudanças de humor, um a entrar em depressão e o outro sem a mínima paciência para vulnerabilidades. «Nesta etapa o casal tem de perceber até que ponto vale a pena continuar a lutar pela relação, se existe salvação possível e se é algo que ambos desejam que aconteça – e em que moldes», resume Cristina Mira Santos. E aqui não há como o diálogo (sempre, sempre ele) para descobrir se aquele amor que era até à morte acabou ou ainda lhe resta uma hipótese. Sem a interferência de terceiros, o que nos leva à última queixa da lista.

CONFLITOS COM A FAMÍLIA

Com a do próprio, mas sobretudo com a do parceiro, uma vez que as mães tendem a sair em defesa dos filhos sem que lhes tenha sido pedido e sem olharem à razão (quem nunca?). «Este envolvimento é capaz de destruir relações se o casal não souber manter uma lógica de entendimento e elogio entre si antes de permitir o envolvimento de terceiros», reforça a psicóloga e coacher sexual. À sua maneira, familiares metediços ou conflituosos até podem estar só a querer ajudar, apesar dos resultados desastrosos. Cabe a cada um tentar ser o mais flexível possível, ainda que evitando que se intrometam na vida a dois, façam juízos de valor ou tomem partidos.