As alergias que as flores nos causam

30% dos portugueses (a par de 40% dos europeus) são já afetados por aquela que é a mais prevalente das doenças alérgicas. Pior: é comum ter-se alergias - o termo clínico é polinose - a mais do que um tipo de pólen.

O nome clínico – polinose – é apenas uma designação mais imponente para um problema que é tudo menos exclusivista: a famosa alergia aos pólenes. Ano após ano, o pesadelo repete-se sob a forma de rinites alérgicas, conjuntivites, queixas de asma. Só quem passa por isto de ser alérgico às flores sabe que não é um mar de rosas.

Texto de Ana Pago

Podíamos muito bem ficar por aí, piqueniques idílicos em jardins a florir com tempo ameno, não fossem as crises que afligem regularmente os alérgicos respiratórios. É sempre assim nesta altura do ano: uns quantos afortunados a admirarem a primavera que desponta em rebentos jovens e os desgraçados do costume a sofrerem com rinites, conjuntivites, asma brônquica e até eczema atópico devido à polinização. Pode ser muito duro recordar um serão com gente reclinada na relva, a tagarelar como crianças, e só nos lembrarmos de ter passado a tarde toda a espirrar, com os olhos vermelhos a quererem saltar-nos do rosto de tanto os esfregarmos.

“No último século assistimos a um progressivo e surpreendente aumento da prevalência da rinite alérgica a pólenes: de doença rara, descrita pela primeira vez em 1819 com a designação de febre dos fenos, tornou-se a condição imunológica mais frequente no ser humano hoje em dia”, adianta a médica alergologista Mariana Couto, ciente de que 30% dos portugueses (a par de 40% dos europeus) são já afetados por aquela que é a mais prevalente das doenças alérgicas. Pior: é comum ter-se alergias – o termo clínico é polinose – a mais do que um tipo de pólen.

“Não existem dados exatos em Portugal, mas em Espanha cerca de 50% dos doentes no norte do país, e mais de 80% no sul, são alérgicos a mais do que uma espécie”, acrescenta a especialista da clínica Saúde Atlântica, no Porto. Os sintomas traduzem-se habitualmente em rinite e/ou conjuntivite, embora cerca de 40% dos afetados sofram também de asma quando os pólenes em suspensão no ar se concentram em níveis elevados – algo que sucede sobretudo na primavera, uma espécie de inferno de Dante para os alérgicos. Comichões e/ou manchas na pele são outras reações possíveis atiçadas pelos pólenes.

O que nos leva à primeira questão de base: o que é o pólen?

Como pode algo tão fugaz e microscópico como um grão de poeira causar tanto mal-estar? Na verdade, trata-se da estrutura que produz a célula reprodutiva masculina nas plantas com sementes, com um aspeto bastante variável de uma espécie para outra e tamanho entre oito e dez milésimos de milímetro (acima disso não entraria na árvore brônquica, responsável por transportar o ar inspirado e exalado entre a laringe e os alvéolos pulmonares).

As reações alérgicas surgem quando os constituintes proteicos existentes dentro dos grãos (os chamados alergénios) são libertados em contacto com a pele e as mucosas nasal, ocular e brônquica.

Por cá, sabe-se que os pólenes mais virulentos são os das gramíneas selvagens – comuns nos descampados e terrenos relvados -, especialmente ativos em dias de sol, muito quentes, com vento. As reações alérgicas surgem quando os constituintes proteicos existentes dentro dos grãos (os chamados alergénios) são libertados em contacto com a pele e as mucosas nasal, ocular e brônquica. Diz quem sofre que seria relativamente suportável lidar com um sintoma de cada vez, contudo o mais provável é um mal nunca vir só: espirros em série à mistura com tosse seca, cabeça pesada, nariz congestionado, olhos lacrimejantes, comichão na garganta, dificuldade em respirar e o diabo a quatro.

Nova questão importante: como prevenir para não ter de remediar?

Segundo o imunoalergologista José Rosado Pinto, o ideal é começar por fazer testes cutâneos que identifiquem ao certo a que pólenes se é alérgico, de forma a garantir uma abordagem o mais eficaz possível. Ainda assim, certas medidas genéricas podem ser seguidas por todas as pessoas alérgicas, reforça o médico do Hospital da Luz, enumerando algumas: evitar andar ao ar livre na época de maior concentração de pólenes; esquivar-se a áreas de arvoredo denso e jardins com relva; tomar duche e mudar de roupa ao chegar a casa; manter portas e janelas fechadas durante o dia; não cortar a relva (nem armar-se em jardineiro de um modo geral, o que pressupõe não abusar das plantas de interior); usar filtros específicos no ar condicionado.

Pessoas que planeiem férias para esta altura podem ainda trocar o campo pela praia (atenção aos passeios demorados na natureza e a fazer campismo com os pólenes em alta). Motociclistas devem preferir capacetes integrais aos modelos curtos ou abertos: a estrada já é suficientemente perigosa sem lhe acrescentarmos condutores que mal podem abrir os olhos. Na dúvida, o melhor é consultar o boletim polínico da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC), que a cada semana divulga a concentração de pólenes por região.

Dito isto, a má notícia é que os sintomas não só raramente desaparecem em quem os manifesta, como tendem a tornar-se crónicos e até a piorar em boa parte dos casos: estima-se que entre 30% e 60% de quem sofre de rinite alérgica possa vir a desenvolver asma a dado momento. A boa notícia, por outro lado, é que ninguém tem de ficar refém dos pólenes: dá para aliviar este desconforto com vacinas de dessensibilização alérgica, anti-histamínicos e outros tratamentos a definir por um médico especialista em imunoalergologia. Não será grande consolo pensar que na próxima primavera volta tudo ao mesmo, mas é melhor ser-se borboleta entre as flores do que um leão entre grades. Mesmo com o nariz a pingar.