As boas e más rotinas no regresso ao trabalho

Fala-se muito em más rotinas, rotinas monótonas, excesso de rotinas, contudo, para muita gente é um verdadeiro alívio retomá-las depois das férias. Conheça as boas e más rotinas depois das férias.

Texto de Ana Pago

Se um dia tivesse 48 horas, talvez Sara Brito não sentisse que a sua rotina está a tentar matá-la: “Acordo sempre às 05h30, arranjo-me, preparo as marmitas, despacho os miúdos, deixo-os no ATL antes das aulas, corro para o emprego rezando para que não haja trânsito na 25 de Abril, trabalho sem pausas para fugir ao inferno da ponte à tarde, faço o meu treino, vou buscá-los à escola, oriento os banhos, faço o jantar, dou um jeito à casa, meto-os na cama, passo roupa e agarro-me ao computador a resolver pendências”, enumera a consultora de 40 anos, exausta só de pensar. É certo que os dias lhe rendem imenso, mas também se sente vazia. “Eu já não sou eu, não me reconheço. Sou um zombie em piloto automático”, lamenta.

“Pelo menos 40% das nossas rotinas não são mais do que o resultado de hábitos”, avisa o jornalista norte-americano Charles Duhigg, autor de A Força do Hábito

Tudo porque rotinas são uma série de hábitos que seguimos a achar que nos tornam a vida melhor ou mais agradável, e raramente vemos o quanto nos limitam ou prejudicam. “Elas fazem-nos sentir seguros mesmo que a mente consciente ande distraída”, explica o psicólogo Jeremy Dean, que escreveu Porque Fazemos o Que Fazemos (ed. Bertrand Editora) para mostrar que se por um lado atividades dolorosas ficam mais fáceis com a repetição, como levantar cedo e ir trabalhar, por outro dinâmicas que nos dão prazer rapidamente perdem a graça. “Este é o motivo por que algumas pessoas têm de continuar a quebrar os seus limites no que respeita a experiências, simplesmente para voltarem a ter a sensação que se perdeu”, diz.

E não: por mais que pareçam resultar de decisões ponderadas, “pelo menos 40% das nossas rotinas não são mais do que o resultado de hábitos”, avisa o jornalista norte-americano Charles Duhigg, autor de A Força do Hábito (ed. Dom Quixote). Ele próprio descobriu uma em si de que não gostou nada: todas as tardes fazia uma pausa, deixava a redação do The New York Times e ia ao bar comer um bolo de chocolate, o que o deixou com peso a mais. “Apesar de cada hábito poder ter pouco impacto sozinho, com o tempo aquilo que comemos, o que dizemos aos nossos filhos, o que decidimos poupar/gastar ou a frequência com que nos exercitamos tem grande influência na nossa saúde, produtividade, finanças e felicidade”, sublinha.

Dito isto, há quem tenha interiorizado a rotina de fumar mal acorda sem se importar que esteja a perder 11 minutos de vida por cigarro fumado e 3h40 por maço, segundo cálculos da Universidade de Bristol, Inglaterra. Para outros, é o copo de whiskey no fim de cada refeição, como se não soubessem que o consumo de álcool mata três milhões de pessoas por ano. Os dados são da Organização Mundial da Saúde e a revista médica The Lancet vai mais longe ao informar que um copo por dia, durante um ano, aumenta em 0,5% o risco de problemas relacionados com o álcool, nomeadamente cancro, doenças cardiovasculares, cirrose, AVC, acidentes ou violência.

No caso de Sara Brito, a má rotina é completa: “Sei que não durmo o suficiente, o que me afeta o desempenho cognitivo e pode dar em diabetes, Alzheimer e coisas piores”, admite a consultora. Nunca toma o pequeno-almoço antes de sair, facilitando ganhos de peso, fadiga e risco cardiovascular. Também não tem tempo para aquele estado sonolento e desfocado que Mareike Wieth e Rose Zacks, investigadoras em psicologia da Universidade do Estado de Michigan, EUA, apuraram ser vital para a criatividade num artigo divulgado no jornal Thinking and Reasoning.

As próprias rotinas laborais, hoje, são propícias a doenças potencialmente fatais decorrentes de stress prolongado: “Há os fatores económicos à frente de tudo, a falta de equipas de trabalho e de trabalho em equipa, os salários injustos, a desmotivação, a carga horária excessiva”, enumera Fátima Lobo, professora da Universidade Católica de Braga em Psicologia do Trabalho e das Organizações. Do que vê, em vez de se apontar o dedo a quem trabalha, melhor faríamos em reconhecer que a forma como isso está a ser feito é disfuncional e trocar as atuais rotinas por outras que permitissem, de facto, resolver problemas.

“Até porque depois ainda temos as tarefas domésticas no meio de tudo o resto”, lembra Sara Brito, agastada com essa rotina que não mata mas mói a maioria das mulheres. “Lá em casa tenho mesmo de ser eu a fazê-las porque sou sozinha com dois filhos pequenos. Mas qual é a desculpa da maioria dos homens para serem elas a gastar quase seis horas diárias em tarefas não remuneradas, quer tenham um emprego fora de casa ou não?”, indigna-se.

É que um dia só tem 24 horas, não 48. E se há outra rotina que também a mói, mas Sara não dispensa, é a de fazer uma hora de exercício de segunda a sexta. “Às vezes dói-me tudo e vou na mesma treinar, é o meu momento zen“, confessa. Entre a corrida, a bicicleta e o pilates sente-se aventureira: “Já cheguei a pedalar em cima de lesões e a correr com um braço ao peito. Depois fui buscar os miúdos, dei-lhes banho e fiz o que sempre faço”, diz. No fundo, nenhuma rotina é tão má que não nos permita escapar-lhe um pouco.

“Suspirava, ansiava, desesperava pelas minhas rotinas.”

No regresso daquela viagem de férias à Turquia, Laura respirou fundo, aliviada. Foi uma semana assombrosa: Istambul, Pamukkale, Capadócia, Éfeso. Mas o melhor de tudo foi voltar. “Na etapa final já só pensava em chegar a casa, cozinhar uma bela sopa portuguesa e comê-la no sofá a ver séries na televisão em pijama, que basicamente é o que eu faço todas as noites”, conta a designer. Ia trabalhar no dia seguinte e nem isso era mau: “Suspirava, ansiava, desesperava pelas minhas rotinas.”

E é natural que assim seja, já que a rotina implica familiaridade e é tranquilizante em grande parte dos casos, explica o psicólogo clínico Vítor Rodrigues. “Para muitos as férias implicam uma sobrecarga devido à logística de se andar constantemente de um lado para o outro, às vezes com excesso de parentes e amigos atrás, pelo que é legítimo atividades normais proporcionarem um certo alívio”, diz. Vemo-nos a regressar ao que conhecemos melhor, o que se nem sempre é confortável, pelo menos é confiável. “Eu diria que todos precisamos de alguma rotina nas nossas vidas por nos dar uma certa impressão de estrutura e previsibilidade”, acrescenta o psicoterapeuta.

Para Vítor Rodrigues, trata-se de encontrar um sentido de que o mundo continua reconhecível e, em certa medida, previsível. “Para isso precisamos de repetições, nem que seja o Sol continuar a nascer ou as leis da natureza permanecerem imutáveis”, observa

Nisso, a ida à Turquia foi providencial para Nuno, que considerava seriamente demitir-se antes da viagem: “Todos os dias discutia com o meu chefe, um tipo que acha que sabe tudo e saca dos galões se lhe mostram que não”, recorda o programador. Laura apoiou o marido, consolou-o, sugeriu-lhe apenas que não agisse levado pela fúria. “Na minha cabeça já tinha decidido que ia sair, sabe? Fui viajar numa de ganhar coragem para dar o passo.” Até que às tantas sentiu que não queria desacomodar-se, não ainda. “Ali, ao menos, tenho estabilidade. Sem ela estaria perdido.”

Para Vítor Rodrigues, trata-se de encontrar um sentido de que o mundo continua reconhecível e, em certa medida, previsível. “Para isso precisamos de repetições, nem que seja o Sol continuar a nascer ou as leis da natureza permanecerem imutáveis”, observa. Pelo caminho, também dá jeito que a casa, o emprego, a família e amigos continuem lá, e que por sua vez eles se repitam o suficiente para serem reconhecíveis. “Poeticamente, eu diria que as rotinas confirmam a memória que nos dá a tal sensação de estabilidade”, resume.

De resto, a noção de zona de conforto não tem necessariamente uma carga negativa. Na sua génese, em 1908, os investigadores Robert M. Yerkes e John D. Dodson, do Laboratório de Psicologia de Harvard, postularam que um certo grau de conforto resultará num desempenho estável, desempenho esse que só será melhorado se enfrentarmos algum stress – um fenómeno que ficou conhecido como lei de Yerkes-Dodson. No entanto, se o stress ultrapassar determinado limite, variável de pessoa para pessoa, a performance tende a piorar.

“Zona de conforto é um conjunto de atividades e comportamentos que fazem parte de uma rotina, um padrão que minimiza o stress e os riscos possíveis”, confirma Joana de São João Rodrigues, especialista em psicologia clínica e da saúde. Além de conseguir manter a ansiedade em níveis baixos, a nossa zona de conforto traz-nos segurança – e mesmo prazer – ao fazer-nos sentir que controlamos umas situações e evitamos outras causadoras de dor.

O problema é que “quando estamos dentro dessa zona confortável normalmente não há crescimento pessoal ou profissional, e então tendemos a resistir às mudanças e a novas perspetivas”, aponta a psicóloga. Razão por que merece a pena perguntar: onde se traça, afinal, o limite entre o conforto bom e a pasmaceira?

“Sem alguma repetição não conseguiríamos reconhecer nada nem ninguém, inclusive nós mesmos”, esclarece o psicólogo Vítor Rodrigues. Pelo contrário, rotina a mais pode fazer-nos sentir aprisionados e monótonos, sem abertura, horizontes, criatividade ou aprendizagem. “Seríamos um bocado mortos-vivos, de modo que eu traço aí o limite: rotina que dá estabilidade, confiança e certa previsibilidade, sim. Rotina que nos torna uma repetição de nós, sem centelha de vivacidade, não.” Sobretudo porque a felicidade está do lado do crescimento, o que significa que seremos menos felizes se esse crescimento sair minado em todo este processo”, diz.

No caso das crianças este equilíbrio torna-se ainda mais notório. Na escola, são as rotinas pedagógicas que ensinam os mais novos a ser, a estar e a fazer, facilitando a afirmação de regras e o máximo de liberdade para cada criança. E o melhor é que não é difícil desenvolver-se esta autonomia através das rotinas, diz Vítor Rodrigues. A seu ver, começa tudo por convidar as crianças a participarem nessa elaboração: “Depois da aventura, repouso em segurança; depois do crescimento, rever matéria dada; depois da iniciativa, retorno à estrutura. Aos poucos, fazemos que elas sintam o conforto do ninho e da previsibilidade, assegurando que são conciliadas com muitas oportunidades de crescimento”, diz o psicólogo.

Na dúvida, diz, há que ir aprendendo a aceitar o desconforto, certos de que todos temos o nosso porto seguro a que podemos voltar.