As crianças mentem. Mas é assim tão mau?

Já percebeu que os seus filhos estavam a mentir e ficou preocupado? Existem mentiras inocentes ou mentir é sempre errado? Saiba o que dizem os especialistas, antes de pôr o miúdo de castigo quando lhe jura a pés juntos que não foi ele que comeu os doces, apesar da cara lambuzada de açúcar.

Texto de Ana Patrícia Cardoso | Fotografia Shutterstock

Em geral, as crianças aprendem a mentir desde tenra idade, entre os dois e os quatro anos. Nos primeiros tempos, os pais tendem a desvalorizar e até acham engraçada a tentativa falhada dos mais pequenos em safarem-se dos problemas. E não estão errados.

Leonor Baeta Neves, psicóloga infantil, afirma que a mentira é «normal no desenvolvimento da criança».

Um estudo levado a cabo pela Universidade McGill, no Canadá, diz que, nesta fase, a mentira é mais engraçada do que propriamente alarmante. Até porque os pequenos perceberam que podem desviar-se da situação, mas ainda não dominam as técnicas para o fazer de forma eficaz. Quando uma criança diz que não comeu o bolo com a boca cheia de chocolate, é um desafio não rir (ver vídeo).

Leonor Baeta Neves, psicóloga infantil, afirma que a mentira é «normal no desenvolvimento da criança» e que não existem «respostas simplistas» para este tipo de comportamento por parte dos educadores. Depende, sobretudo, da intenção por detrás da dita. «Existem mentiras que são um exagero de uma história ou da imaginação das crianças que ainda não dominam a noção de realidade.»

«Torna-se grave quando existe a culpabilização de terceiros. Os pais têm de chamá-lo à razão e não permitir que se repita», diz a psicóloga.

Torna-se um problema quando envolve outras pessoas, por exemplo, «Não fui eu que parti o frasco, foi o André ou António». Se uma criança culpa outra para se «safar» de um acontecimento do qual foi responsável, é preciso intervir. «Torna-se grave quando existe a culpabilização de terceiros. Os pais têm de chamá-lo à razão e não permitir que se repita», diz a psicóloga.

Quando é que os pais devem começar a preocupar-se? «Quando a prática se torna sistemática. As crianças percebem que funciona e passam a adotar a solução para tudo. É preciso muito cuidado», explica.

À medida que vão crescendo e desenvolvendo as competências, a própria mentira ganha outros contornos. Tornam-se mais conscientes do tipo de mentira que funciona ou em manter a farsa por mais tempo. E o sentimento de culpa também fica mais apurado.

Os pais e professores podem ajudar no incentivo em dizer a verdade, mas é um facto que as crianças observam os adultos a mentirem constantemente.

Em crianças dos oito aos 11 anos, nota-se a tendência para se sentirem mal quando inventam alguma coisa, segundo um estudo australiano da Universidade Macquarie, em Sydney.

Em geral, a mentira não é uma preocupação diária e é resultado do desenvolvimento cognitivo. Até porque – sejamos sinceros – ela está presente em todas as fases da vida.

Os pais e professores podem ajudar no incentivo em dizer a verdade (ver galeria acima), mas é um facto que as crianças observam os adultos a mentirem constantemente.

Para Leonor Baeta Neves, «os miúdos olham para os pais a inventarem coisas todos os dias. ‘Gostei muito desse prato’, quando na verdade não gostaram. ‘Gosto muito daquela pessoa’, quando estão sempre a falar mal dela. Estão, na prática, a dar o exemplo».

Mas dizer sempre o que se pensa seria uma dor de cabeça para todos, ou não? «As crianças são ensinadas a mentir porque a verdade é inconveniente», diz a psicóloga.