O que está a levar o nosso sistema imunitário a virar-se contra nós?

Já são mais de 100 as doenças autoimunes – como o Lúpus, que assinalou na sexta-feira o seu Dia Mundial – e estão a ganhar contornos de “epidemia” nos países desenvolvidos. Em Portugal, não se sabe números exatos, mas serão cerca de meio milhão de doentes, cinco por cento da população nacional. O que está a levar o nosso sistema imunitário a virar-se contra nós?

Texto de Catarina Pires | Fotografia de Shutterstock

Cátia Resendes, 30 anos, tinha dois meses de vida quando o seu corpo começou a dar sinais de que alguma coisa não estava bem. Eczema, agravado pelos tratamentos prescritos, que demorou a ser controlado. Mais tarde, um diagnóstico de asma e alergias diversas, pelo meio febres altas, tratadas com antibióticos, mas sem se perceber bem a origem. Aos 7 anos, começaram as dores nas articulações quase incapacitantes.

De tal forma que aos 9 a menina, açoriana, natural de Angra do Heroísmo, foi enviada para o Hospital de Santa Maria, em Lisboa. A família teria ainda pela frente um calvário de dois anos até que lhe fosse dado um diagnóstico: Lúpus Eritematoso Sistémico (LES), síndrome de Raynaud (condição que afeta o fluxo sanguíneo nas extremidades do corpo), artrite reumatoide, osteopenia, “uma série de doenças associadas ao lúpus”, diz Cátia. “Após o diagnóstico, os médicos concluíram que os medicamentos todos que tomei agravaram a minha condição e levaram a que o meu organismo ficasse ainda mais suscetível a infeções, acelerando o LES. Mas depois de iniciar a medicação adequada, a doença estabilizou e muito raramente tinha uma crise de febre ou infeção”. A sua história, no entanto, sofreria ainda um dramático revés.

Aos 17 anos, na sequência de complicações de uma infeção urinária, fez uma septicemia, foi colocada em coma induzido e uma PTT (Púrpura Trombocitopénica Trombótica) obrigou à amputação de um terço de cada pé e das primeiras falanges de quase todos os dedos das mãos, além da perda de visão do olho direito.

“Depois das amputações foi um novo começo, uma nova aprendizagem, uma nova etapa, mas mais que isso, a aceitação do meu corpo, do que restava dele”, diz Cátia, hoje casada, mãe de um filho de três anos e estável em termos clínicos.

O caso de Cátia é extremo, mas dá conta de algumas das dificuldades com que se defronta quem sofre de uma doença autoimune, nomeadamente a de se chegar a um diagnóstico que permita um tratamento adequado. Isto apesar de as patologias que decorrem da autoimunidade estarem em crescimento em todo o mundo desenvolvido e também em Portugal, onde afetarão já cerca de meio milhão de pessoas (mais do que o cancro e quase tanto como as doenças cardiovasculares), um número que evoca a palavra “epidemia”.

O Serviço Nacional de Saúde tem cerca de 500 médicos e 42 consultas dedicados às doenças autoimunes, diz António Marinho. Os internistas e os reumatologistas são os especialistas que mais trabalham com estas doenças.

Embora ainda não seja totalmente claro para os cientistas o que leva o sistema imunitário a virar-se contra si próprio, sabe-se que na origem desta disfunção estão alterações genéticas, uma modulação deficiente do sistema imune e exposição a fatores ambientais como a poluição, as toxinas, os antibióticos, os vírus e bactérias, as hormonas ou o stress.

Normalmente, o sistema imunitário protege o corpo dos microrganismos externos, produzindo anticorpos que são proteínas especiais que reconhecem e destroem os invasores. As doenças autoimunes acontecem quando estes anticorpos atacam as células do próprio organismo, tecidos e órgãos, ou seja quando o sistema imunitário se desorienta e ataca o próprio corpo e os órgãos que deveria proteger.

“Quanto mais desenvolvidos são os países, menos doenças infecciosas existem e mais doenças autoimunes se desenvolvem”, diz João Araújo Correia, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna.

“O crescimento destas doenças é um fenómeno mundial dos países industrializados”, confirma João Araújo Correia, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, que admite que um uso excessivo e incorreto de antibióticos, assim como os que consumimos através da alimentação, a que acrescem os químicos, pesticidas e quejandos, pode estar também relacionado com a autoimunidade.

“Quanto mais desenvolvidos são os países, menos doenças infecciosas existem e mais doenças autoimunes se desenvolvem. Tem que ver com a aprendizagem do sistema imune, feita (ou não) nos primeiros meses e anos de vida. Se não for feita, porque a criança não é exposta a micróbios e bactérias, o sistema imune não se desenvolve normalmente», diz o especialista.

António Marinho, coordenador do NEDAI – Núcleo de Estudos de Doenças Autoimunes, da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, confirma, mas explica que tem que haver uma predisposição genética que leve a que a exposição a esses agentes ou fatores ambientais provoque alterações do sistema imunitário congénito e adquirido.

Para o especialista, que não usa a palavra epidemia, o número que tem aumentado mais é o das doenças classificadas como autoimunes. “Por exemplo, a tiroidite ou a diabetes tipo 1 não eram referenciadas como autoimunes e hoje são. Estamos a falar de mais de 100 doenças [no site do NEDAI há uma listagem que contabiliza 118], umas muito graves, outras não tanto, umas sistémicas [que afetam vários órgãos], outras que afetam apenas um», diz o especialista, que considera ser esta a principal razão para o crescimento destas doenças.

A artrite reumatoide afetará entre 150 e 200 mil portugueses, a espondiloatrite 70 a 75 mil doentes e o lúpus, que assinala hoje o seu Dia Mundial, atingirá entre 25 e 30 mil pessoas.

O número e diversidade de patologias autoimunes, muitas delas com sintomas e órgão afetados semelhantes, são também uma das razões para a dificuldade de diagnóstico, que, apesar de tudo, de acordo com António Marinho, é hoje mais célere e preciso.

“O diagnóstico evoluiu bastante, mas depende se tem de se basear apenas na observação clínica, sintomas e história do doente ou se há marcadores analíticos para o apoiar. Por outro lado, o acesso a médicos que tenham experiência destas patologias nem sempre é fácil, daí que seja fundamental o trabalho em rede e a sensibilização e formação dos médicos de medicina geral e familiar», diz o internista da Unidade de Imunologia Clínica do Hospital de Santo António, Centro Hospitalar e Universitário do Porto.

Das mais de 100 doenças causadas por processos autoimunes – que atingem mais as mulheres do que os homens – a que tem maior peso em Portugal é a artrite reumatoide, que de acordo com a estimativa de António Marinho afetará entre 150 e 200 mil doentes, a espondiloatrite ocupará um segundo lugar, com 70 a 75 mil doentes e o lúpus, que assinala hoje o seu Dia Mundial, atingirá entre 25 e 30 mil pessoas.

«Ao todo, com doença autoimune sistémica grave em Portugal serão 300 a 400 mil doentes. Mas neste número não entra, por exemplo, a tiroidite, que afeta cerca de um quarto das mulheres portuguesas», diz o coordenador do NEDAI. Não estará pois longe da realidade o número redondo de meio milhão de pessoas afetadas.

A esclerose múltipla, em que o ataque é ao sistema nervoso, as doenças inflamatórias do intestino, a psoríase ou o vitiligo, que afeta a pele, são outras das patologias provocadas pela agressão do sistema imunitário ao organismo que deveria proteger.

Muitas destas doenças têm sintomas que se confundem e podem afetar os mais diversos órgãos, daí a já referida dificuldade diagnóstica e daí todas as especialidades médicas poderem ser envolvidas no seu acompanhamento, mas são os internistas e reumatologistas os médicos que mais as têm estudado e trabalhado na área da imunologia clínica. De acordo com António Marinho, o Serviço Nacional de Saúde dispõe de temos 500 médicos e 42 consultas dedicadas às doenças autoimunes.

Tem havido também avanços importantes no tratamento, como as terapêuticas biológicas a permitirem a muitos doentes uma vida relativamente normal. Apesar de implicarem custos elevados, o SNS comparticipa nos casos em que existe indicação e «serão cerca de 25 a 30 mil o número de doentes a fazer biológicos em Portugal», revela o especialista, que alerta: “a única forma de diminuir o risco e viver melhor com a doença é ter uma vida saudável: não fumar, comer bem – dieta mediterrânica, com pouca gordura, poucas carnes vermelhas e muitas verduras e frutas – e fazer exercício físico”.

Foi isso que Cátia Resendes, apesar de todas as dificuldades por que passou, fez, quando escolheu viver: «o lúpus tem sintomas complicados de lidar – o cansaço diário que sentimos, as dores articulares, que no meu caso são crónicas, a que acabamos por nos habituar -, mas é preciso aprender a aceitar e a viver da melhor maneira possível. A alimentação saudável, o exercício físico e o descanso diário são essenciais, assim como um acompanhamento médico regular e o respeito pela medicação prescrita, de forma a controlar a doença. Assim, consigo ter uma vida relativamente normal, só tenho de estar mais alerta para perceber e identificar sintomas que possam desencadear um estado crítico».