“As doenças da coluna são já a segunda principal causa de absentismo laboral”

As dores nas costas e as doenças da coluna afetam mais de metade da população portuguesa. Desvalorizá-las pode levar a incapacidade crónica. Más posturas, sedentarismo, os pesos que carregamos todos os dias e agora o pescoço sempre dobrado para olhar para o ecrã do smartphone são os grandes responsáveis. No Dia Mundial da Coluna, falámos com Bruno Santiago, neurocirurgião e coordenador da campanha Olhe Pelas Suas Costas, que procura sensibilizar a população para a relevância atual das doenças da coluna vertebral e para a prevenção das dores nas costas, tentando que cada um adote uma atitude proativa na promoção da sua saúde.

Texto de Catarina Pires | Fotografia de i-Stock e D.R.

Estima-se que as dores nas costas afetem 7 milhões de portugueses em algum momento da sua vida. É quase toda a população adulta. O que explica esta prevalência?

Estas estimativas têm-se verificado em estudos populacionais em inúmeros países, onde se observou que 7 a 8 pessoas em cada 10 têm, ou já tiveram, dores nas costas em algum momento da sua vida. Felizmente, a grande maioria tem uma dor autolimitada, que se resolve em dias ou poucas semanas.

No entanto, as doenças da coluna vertebral são já a segunda principal causa de absentismo laboral. E ao longo das últimas décadas tornaram-se a principal causa de incapacidade em todo o mundo. Têm aumentado em todos os grupos etários e o aumento da esperança de vida tem contribuído muito para esta prevalência.

À medida que envelhecemos aumenta o desgaste das articulações e dos discos da coluna vertebral, que se tornam incompetentes para suportar a carga e os esforços diários, por vezes resultando numa compressão dos nervos que a coluna vertebral protege.

As causas prendem-se sobretudo com uma predisposição individual de cada um, associada a fatores típicos do nosso estilo de vida moderno, como o sedentarismo, o excesso de peso, o tabagismo, o número de horas sentados e a conduzir, a tensão muscular a falta de exercício físico, entre outros.

O neurocirurgião Bruno Santiago é o coordenador da campanha Olhe pelas Suas Costas.

O que fazer para prevenir?

A principal forma de prevenção é o exercício físico. Está demonstrado que o fortalecimento dos músculos lombares e abdominais estabiliza a coluna e torna-a mais resistente às más posturas e sobrecargas.

E não é preciso muito, basta uma hora 2 a 3 vezes por semana de natação, pilates ou caminhadas. A hidroginástica também é uma alternativa. Em doentes com dor recorrente ou crónica serão necessários exercícios mais específicos, mas simples, feitos em ginásio ou com um fisioterapeuta.

Por outro lado, devemos ter cuidado com a alimentação, manter o peso controlado e ter muito cuidado com a nossa postura quando nos sentamos, levantamos pesos ou transportamos sacos.

A dor faz-nos mal e muda-nos de formas por vezes difíceis de explicar. No meu dia-a-dia, fico surpreendido com o impacto que algumas cirurgias têm na transformação das pessoas, no quanto muda um indivíduo que estava num enorme sofrimento.

As posturas erradas, o peso de sacos e mochilas e agora a posição do pescoço na utilização de smartphones e tablets são fatores de risco. Há educação para a saúde que valha?

A sua pergunta é muito pertinente. A educação para a saúde é fundamental, porque hoje em dia existem, de facto, algumas pessoas preocupadas em ter um papel ativo na promoção do seu bem-estar, mesmo que estejam em minoria. Mas admito que não é fácil.

Quem nunca teve dores nas costas frequentes terá dificuldade em ter estes cuidados no seu dia-a-dia. Mesmo os doentes com queixas recorrentes muitas vezes não aceitam que o tratamento seja apenas perder peso, fazer exercício e corrigir a postura e pretendem soluções rápidas para o seu problema.

Os motivos variam, seja por falta de tempo, por não terem ginásio/piscina perto ou por simples falta de motivação. Acho que há muito pouca comunicação para o público em geral sobre este tema em Portugal, sobretudo tendo em conta a sua incidência.

A campanha “Olhe pelas Suas Costas” tenta precisamente alertar para a relevância desta “epidemia” e deixar conselhos simples que contribuem para melhorar a qualidade de vida de cada um.

A dor, em geral, e das costas em particular, é frequentemente desvalorizada. Que custos isto comporta?

A dor crónica comporta enormes custos individuais, económicos e sociais. O sofrimento que acarreta, a limitação nas atividades da vida diária, o isolamento social e a disfunção familiar, são consequências dramáticas. A repercussão económica é real, quer pela diminuição de recursos financeiros que estes doentes sofrem, quer pela perda de produtividade que afeta a sociedade em geral.

A dor faz-nos mal e muda-nos de formas por vezes difíceis de explicar. No meu dia-a-dia, fico surpreendido com o impacto que algumas cirurgias têm na transformação das pessoas, no quanto muda um indivíduo que estava num enorme sofrimento, mudança que vai para além do simples alívio da dor. Recuperam o ânimo, a alegria e capacidade de voltar a fazer pequenas coisas que todos damos por adquiridas.

É frequente os doentes automedicarem-se com analgésicos que tenham em casa, que na maioria dos casos tem um baixo risco de complicações. O risco é sobretudo de interação com outros medicamento.

Por vezes, esta desvalorização parte dos próprios médicos. É preciso sensibilizá-los também?

Não posso dizer exista uma desvalorização por parte dos médicos ou, a existir, será pontual. Apesar disso, é preciso sensibilizar para a promoção de pequenas mudanças no estilo de vida dos doentes como o exercício físico e o ensino das posturas corretas. É frequente os doentes fazerem exames e medicação para as dores, por vezes de forma crónica, sem que lhes seja entretanto recomendada atividade física ou fisioterapia bem feita, à base de exercícios.

A auto-medicação é muito comum no que dor diz respeito. É um problema?

É frequente os doentes automedicarem-se com analgésicos que tenham em casa, que na maioria dos casos tem um baixo risco de complicações. O risco é sobretudo de interação com outros medicamentos que fazem, sobretudo nos mais idosos polimedicados, ou de exagerarem nas doses quando têm dores que não conseguem suportar. Na minha experiência pessoal, o uso de medicamentos ditos alternativos é residual.

“Saber interpretar o tipo de dor nas costas é fundamental”. Quais são as diferenças e o seu significado?

Há duas mensagens importantes. Em primeiro lugar que a larga maioria dos doentes tem uma dor que é benigna, autolimitada, transitória e que vai melhorar num período em média até 4 semanas. Nesses casos é importante não fazer esforços, mas manter-se o mais ativo possível. Mesmo os doentes com hérnias discais sintomáticas vão ficar sem dor em cerca de 4 a 6 semanas em 80% dos casos. Por outro lado, é fundamental estar alerta para dores mais persistentes, que não passam ao fim de algumas semanas ou que se acompanham de alguns sinais de alarme.

No que diz respeito aos tratamentos, sabemos que a fisioterapia bem feita, à base de exercícios de fortalecimento dos músculos é o pilar do tratamento destes doentes.

Quais são os sinais de alarme para procurar ajuda médica?

Os mais importantes são a irradiação da dor ao longo da perna ou do braço, a falta de força num dos membros, uma dificuldade na marcha que agrava progressivamente ou situações em que a dor agrava durante a noite.

Se existe uma queda ou traumatismo recente ou antecedentes de um tumor também é importante dar importância a esta dor e investigá-la.

Por último, os doentes mais idosos e com osteoporose frequentemente sofrem fraturas da coluna vertebral com esforços mínimos ou quedas. Nestes casos a dor é sobretudo em pé e alivia significativamente quando se deitam.

E que ajuda médica está disponível? Que exames de diagnóstico podem ser feitos e quais os tratamentos e terapêuticas eficazes para as dores nas costas?

Depende muito do tipo e intensidade da dor e dos sintomas que a acompanham. Na fase aguda, isto é nas primeiras quatro semanas, e sem sinais de alerta, muitas vezes não são necessários exames específicos porque a dor irá ceder espontaneamente, embora necessitem de medicação analgésica. Nos restantes é necessário investigar com TAC ou ressonância da coluna, em casos selecionados.

No que diz respeito aos tratamentos, sabemos que a fisioterapia bem feita, à base de exercícios de fortalecimento dos músculos é o pilar do tratamento destes doentes. Em doentes com diagnósticos específicos duma patologia da coluna vertebral que justifique a dor, a cirurgia é muito eficaz e segura nos tempos que correm.

Um subgrupo deste doentes beneficiam também do contributo da medicina da dor com otimização da terapêutica e apoio psicológico ou de intervenções percutâneas minimamente invasivas (infiltrações, etc).

A prevenção é a melhor forma de reduzir o impacto que as dores nas costas têm em termos de incapacidade e custos para o indivíduo e para a sociedade.

A ideia que se tem é que não há muito a fazer, em termos terapêuticos, além da cirurgia, que é um último recurso, digamos assim, para as doenças de coluna. É verdade?

De todo, esse é mesmo um dos mitos que pretendemos corrigir. Hoje em dia há uma multitude de tratamentos que são oferecidos aos doentes, embora muitos deles com resultados inconsistentes. Mas, como referi, sabemos que muitos melhoram com fisioterapia bem feita com técnicas dedicadas à coluna, mas que nos convénios do SNS tem sido difícil de conseguir.

Também o contributo da medicina da dor, das intervenções guiadas por Rx e outros tratamentos como a osteopatia e acupunctura têm beneficiado alguns doentes.

A cirurgia deve ser reservada para doentes com incapacidade, lesão neurológica ou dor importante que não melhora com os outros tratamentos e, hoje em dia, com uma melhor seleção dos doentes e utilizando técnicas menos invasivas, sustentadas pela evolução tecnológica, temos obtido resultados cada vez melhores.

Mas, no âmbito do Dia Mundial da Coluna, que se assinala hoje, a campanha Olhe Pelas suas Costas põe a tónica na prevenção: “prevenir a dor de costas é sempre o melhor remédio”.

A prevenção é a melhor forma de reduzir o impacto que as dores nas costas têm em termos de incapacidade e custos para o indivíduo e para a sociedade. Se a prevalência continuar a aumentar ao ritmo das últimas décadas, teremos um enorme desafio no futuro nos sistemas de saúde, nomeadamente em termos de capacidade de resposta, listas de espera e custos económicos quer dos tratamentos, quer da consequente perda de produtividade.

Quais são os grandes objetivos desta campanha?

O objetivo principal é sensibilizar a população para a relevância atual das doenças da coluna vertebral e para a prevenção das dores nas costas, tentando que cada indivíduo tenha uma atitude proativa na promoção da sua saúde. Tentamos também informar sobre os diagnósticos mais frequentes e formas de tratamento existentes para as várias patologias.

Este ano, a campanha comemora 10 anos de existência. Que balanço faz?

O balanço tem sido muito positivo. Esta iniciativa contou com o empreendedorismo e empenho do Prof. Dr. Paulo Pereira, do Hospital de São João, nos primeiros anos e foi sempre crescendo em termos de atividades.

Estivemos presentes em muitas escolas e universidades seniores. Temos ocupado um espaço de educação para a saúde que não existia em Portugal e conseguido estar presentes em diversos meios de comunicação, chegando a um número cada vez maior de pessoas. A nossa página de Facebook tem quase 11000 seguidores e o nosso site informativo para o público em geral está agora online, ainda numa versão limitada, mas que em breve será expandido.

Vamos fazer a primeira campanha de outdoors em vários pontos das cidades de Lisboa e do Porto focada na prevenção. Contamos com o apoio de cada vez mais sociedades médicas, nomeadamente de Neurocirurgia, Ortopedia, Patologia da Coluna Vertebral, Medicina Física e Reabilitação, Clínica Geral e Reumatologia.