As férias estão a acabar. E o casamento também.

Se está em contagem decrescente para voltar ao trabalho, então esta crónica é para si. Com o fim das férias chegam também ao fim muitas relações. É uma realidade incontornável – no final do verão verifica-se um aumento de separações e divórcios. Aumentam os pedidos de terapia de casal, muitos ainda com a esperança em salvar a relação, outros já decididos em seguir rumos diferentes. Consultam-se os advogados, pedem-se esclarecimentos sobre partilhas e a regulação dos convívios com as crianças. Porquê? Não deviam as férias reforçar os relacionamentos amorosos?

Durante o ano vivemos noutro ritmo, mais centrados no trabalho, nos filhos e nas rotinas que nos ocupam o corpo e a mente. Mesmo com a noção de que a relação afectiva já não é o que era e que muito pouco ou nada nos une à outra pessoa, empurramos esta ideia com a barriga. Que é como quem diz, negamos, minimizamos, atribuímos a causas externas e queremos acreditar que com o tempo melhora.

A presença do outro torna-se insuportável, tudo o que o outro diz gera irritação e discute-se por tudo e por nada.

Nas férias, de uma forma geral, temos o outro por companhia. É com o outro que convivemos 24 sobre 24 horas e se, para muitos, este convívio intenso é maravilhoso e apenas reforça os vínculos existentes, para outros tantos é a consciencialização de que já não existem vínculos alguns. A presença do outro torna-se insuportável, tudo o que o outro diz gera irritação e discute-se por tudo e por nada.

O copo, já cheio, começa a transbordar, sinal evidente de uma relação desgastada e cheia de nada, apoiada em convenções sociais, nos filhos, no medo da solidão e em tantos outros medos. Neste contexto, o regresso ao trabalho é desejado como nunca antes o foi.

Não existem soluções mágicas para evitar este desfecho. Existem, sim, estratégias que exigem dedicação e que devem ser postas em prática durante todo o ano, e não apenas em período de férias. Como tão bem afirma José Gameiro*, num livro que recomendo vivamente, são sugestões para casais em que o amor continua a ser o valor mais importante. Para os outros, não há sugestões a fazer.

Gameiro indica 12 sugestões:

1. Não invadir o espaço do outro.
2. Aceitar o passado de cada um.
3. Nunca dizer tudo ao outro.
4. Estar sem os filhos, em casa ou na rua.
5. Respeitar a família de cada um.
6. Saber surpreender o outro.
7. Não se isolar, estar com os amigos.
8. Rir muito.
9. Passear muito.
10. Dar presentes sem ser nas datas oficiais.
11. Aprender a aceitar as diferenças.
12. Não confundir o todo com as partes.

São sugestões que parecem muito simples, mas apenas quem vive uma vida a dois sabe o quão difíceis podem ser de operacionalizar.

Assim, se conta as horas e os minutos para voltar ao trabalho, acreditando que lá conseguirá descansar e encontrar a paz que tanto anseia, releia as 12 sugestões e peça ajuda especializada, se necessário. Mas desde que haja amor, porque amor é coisa que não se ensina nem se treina.

*Gameiro, J. (2004). Nem contigo nem sem ti. Lisboa: Terramar.