As mães perfeitas e as mães reais

Hoje é o “Dia da Mãe” e as mães assumem um papel de destaque. São, afinal, as personagens principais durante um dia inteirinho. Hoje e em todos os dias do ano as mães sentem uma pressão gigantesca, porque se querem mães perfeitas quando, afinal de contas, somos todas imperfeitas. Ora vejamos.

A mãe perfeita sente que está grávida muito antes do teste de gravidez o confirmar. Porque há uma ligação cósmica e única entre uma mãe e um filho que o permite sem margens para dúvidas.

A mãe real nem quer acreditar quando olha para os tracinhos do teste, que conta de forma obsessiva, vai à internet pesquisar sobre falsos positivos e repete o teste três e quatro vezes.

A mãe perfeita segue à risca todas as orientações do médico durante a gravidez. Nada de doces nem outras avarias, porque até um pêssego tem imenso açúcar, restringe o sexo ao fim de pouco tempo e nada de álcool, tabaco ou café.

A mãe real engorda 20 kg ou mais, e que se lixe que depois volta a perder tudinho, come como se não houvesse amanhã, contorce-se para inalar o fumo dos cigarros alheios e sorve cervejas sem álcool com lágrimas nos olhos.

A mãe perfeita faz todos os cursos pré-parto, decora a sua barriga de gesso com corações e borboletas e aprende a respirar como um monge budista.

A mãe real nem sempre tem tempo para os cursos pré-parto, esquece-se do pacote de gesso numa qualquer gaveta da cozinha e acredita que os gritos a plenos pulmões terão o mesmo resultado que as inspirações e expirações.

A mãe perfeita tem o enxoval do bebé pronto 8 meses antes deste nascer, organizado por cores, tipos de tecido e estações do ano. Sempre com botinhas, gorros, babetes e chupetas a condizer.

A mãe perfeita consegue amamentar de forma exímia, enquanto ouve Mozart e desfolha Álvaro de Campos. A mãe real chora sem conseguir amamentar, com os mamilos em sangue e as mastites ao rubro, mas avança, destemida, recusando um antibiótico salvador.

A mãe real entra na maternidade a correr, no dia em que menos jeito dá para as águas rebentarem, e percebe quando o bebé nasce que se esqueceu da malinha da roupa no porta bagagens do carro. E o novo bebé encara o mundo com um vestido horrível com o logotipo do hospital.

A mãe perfeita consegue amamentar de forma exímia, enquanto ouve Mozart e desfolha Álvaro de Campos. Porque o bebé tem de crescer em perfeita sintonia com a cultura, que aprenderá a amar.

A mãe real chora sem conseguir amamentar, com os mamilos em sangue e as mastites ao rubro, mas avança, destemida, recusando um antibiótico salvador. Amamenta enquanto empurra o carrinho do supermercado, troca a fralda ao filho mais velho ou mexe a panela da sopa. Tudo isto ao som do programa da manhã pautado por gritos estridentes.

A mãe perfeita não sente sono nem fome e está sempre disponível para o seu bebé, ao mesmo tempo que frequenta cursos de parentalidade on line e lê todos os especialistas disponíveis nas livrarias.

A mãe real embala a espreguiçadeira com um pé enquanto trabalha no computador, confia nos seus instintos e aprende a valorizar cada minuto de brincadeira com o seu filho. Porque cada minuto vale ouro e transforma-se num verdadeiro tempo especial. E morre de sono.

A mãe perfeita está sempre calma e nunca eleva o tom de voz, segue à risca os princípios da psicologia comportamental e condiciona a sua criança tal e qual o cão de Pavlov.

A mãe real perde a calma e grita, sendo que nem sempre faz aquilo que a psicologia diz que deveria ser feito. A sua criança faz birras, diz asneiras e expele toneladas de ranho, especialmente em público.

A mãe perfeita enfia a sua criança numa redoma de vidro para que nada lhe aconteça. A criança não cai nem se magoa, não apanha germes nem sofre desilusões e vive em permanente estado de felicidade. Arriscar é arriscado.

A mãe real enfia a sua criança no mundo real, feito de adversidades e obstáculos. A sua criança cai, esfola-se, experimenta tristeza e raiva e não, não se sente sempre feliz. Arriscar, aprender a desenrascar-se e a ser autónomo dá saúde e faz crescer.

A mãe perfeita não contraria a sua criança, que deve ser livre para exprimir os seus desejos e vontades sem condicionalismos. Ouvir “não” traumatiza a criança, deve ter dito alguém de cujo nome não nos recordamos.

A mãe real sabe que ouvir “não” é estruturante e ajuda a definir regras e limites que facilitam o processo de crescimento. A criança é frustrada regularmente e aprende a viver com isso.

A mãe perfeita exige notas máximas em todas as disciplinas da escola, um bom comportamento sempre e um desempenho de excelência nas trinta mil actividades extra-curriculares da criança.

A mãe real relativiza a importância das notas escolares e valoriza a aprendizagem informal pautada por afectos, a par das brincadeiras e do tempo livre sem nada para fazer. Mesmo nada.

A mãe perfeita ama e mima sem limites. A mãe real ama e mima sem limites. E é chata.

Que bom sermos mães reais e tão imperfeitas.