As redes sociais estão a mudar o nosso cérebro?

Um «gosto» no Facebook, um comentário no Instagram, um tweet ou um snap novo. Quantas vezes por dia para o que está a fazer para abrir notificações das redes sociais? Quanto tempo passa a fazer scroll? Já pensou nos efeitos que isso pode ter no cérebro? Há quem diga que está a acontecer com as redes sociais o mesmo que aconteceu com o tabaco: só daqui a largos anos se saberá exatamente que implicações têm. Mas já existem algumas pistas.

Texto de Joana Capucho | Fotografias ShutterStock

Sejkko é o nome artístico do cientista Manuel Pita no Instagram, onde reúne perto de 300 mil seguidores de todo o mundo. Com fotografias de «casas solitárias» e paisagens, o doutorado em Inteligência Artificial e Ciências Cognitivas já conquistou a atenção de publicações como a Wired, o The Telegraph ou o HuffPost.

Dessa atividade intensa no Instagram nasceu parte do seu fascínio pelas «dinâmicas das redes complexas», área na qual prosseguiu a sua investigação no pós-doutoramento. Desde que criou a conta, há seis anos, Manuel tem vindo a questionar-se sobre a utilização das redes sociais, o que o fez mudar a sua forma de estar nestas plataformas.

«Antigamente, qualquer momento podia ser um momento para desbloquear o telemóvel e ver quantos likes mais tinham entrado em algum post, ou para publicar uma foto». Atualmente, Manuel vai ao telemóvel em momentos específicos e predeterminados do dia, e publica conteúdos apenas duas vezes por semana. «Fui o meu próprio sujeito experimental nos efeitos dos ciclos de dopamina [neurotransmissor associado ao bem-estar e ao prazer] no meu sistema. E aprendi a valorizar muito mais a minha capacidade de me focar numa coisa ou, no máximo, duas, por dia”.

Marco André, de 40 anos, não é cientista nem está por dentro dos efeitos que as redes sociais podem ter no cérebro, mas também sentiu que tinha de alterar a forma como usava estas plataformas. «Estava sempre a fazer scroll, a ver opiniões de pessoas que achava medíocres, posições radicais, fake news. Um exemplo: antes de saber que o Bolsonaro era candidato à presidência do Brasil, já tinha visto a política de armamento dele nos vídeos automáticos do Facebook. É selvagem o que está a acontecer. Nós somos humanos, curiosos. Sinto que perdia imenso tempo a pensar em coisas que não diziam respeito à minha realidade».

«O cérebro é extremamente plástico, dos órgãos mais plásticos que temos, quer no sentido de se desenvolver muito ativamente em resposta a estímulos externos, quer no sentido de atrofiar se não for estimulado»

Como resolução de ano novo, Marco decidiu criar novos perfis nas redes sociais e reduzir drasticamente o número de «amigos», bem como o tempo que passava ligado. «Passei de várias horas por dia para menos de meia hora. Estava a perder tempo, enquanto podia estar focado em mim, na família, nos amigos».

Por considerar que nem tudo é mau, optou por não se «desligar» completamente. «Apenas precisamos de autocontrolo, de autorregulação. Ficamos tristes e deprimidos se sentimos que toda a gente tem uma vida melhor do que a nossa, mudamos a nossa perceção das coisas de que gostamos se não temos os likes que estamos à espera. Estamos a viver tempos incríveis, mas isto ainda é o início da revolução da informação».

Ainda estamos na infância da era digital, mas parecem existir poucas dúvidas de que os cérebros estão a ser estimulados de uma maneira nunca antes vista. Há estudos que mostram que as redes sociais provocam alterações do ponto de vista cognitivo e comportamental, mas pouco se sabe, neste momento, sobre os efeitos que isso terá a longo prazo.

«O cérebro é extremamente plástico, dos órgãos mais plásticos que temos, quer no sentido de se desenvolver muito ativamente em resposta a estímulos externos, quer no sentido de atrofiar se não for estimulado. Sem dúvida que as redes sociais, tal como tudo a que estamos expostos, modificam o nosso cérebro, até porque estimulam muito mais os neurónios e os circuitos neuronais”, diz Isaura Tavares, presidente da Sociedade Portuguesa de Neurociências (SPN).

Esta é uma ideia que tem vindo a ser defendida por vários especialistas nos últimos anos. É o caso do neurocientista Garry Small, que considera que a internet está a mudar os nossos cérebros e pode ajudar a combater o envelhecimento, já que estimula muitas zonas do cérebro e promove novos circuitos neuronais. Mas também há quem admita que uma estimulação tão intensa de determinadas zonas cerebrais pode ter consequências negativas.

Para compreender como tudo se processa é necessário, segundo Manuel Pita, falar da dopamina. «O mecanismo de validação social implementado via likes e comentários na maioria das redes sociais mexe com os mesmos subsistemas do cérebro que ficam alterados em pessoas viciadas, por exemplo, no jogo ou em certas drogas. Estes subsistemas controlam a produção e consumo de um neurotransmissor chamado dopamina», explica o professor e investigador no Centro de Investigação em Comunicações Aplicadas e Novas Tecnologias – CICANT, da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.

42 por cento da população mundial é utilizadora ativa das redes sociais. São mais de três mil milhões de pessoas

Quando aumenta o nível de dopamina no cérebro, há um aumento do fluxo sanguíneo e uma sensação de maior prazer. É o mesmo que acontece com o exercício físico, a comida e o sexo, mas, com as redes sociais, a gratificação é mais imediata. «O problema é que a repetição do comportamento pode acontecer muito mais frequentemente, o que tem o potencial de criar uma forte habituação», diz o investigador. Isto acaba por levar a alterações dos comportamentos. «A necessidade de estar ligados, de ver quantos likes entraram no último post, acabam por criar tempos prolongados nos quais não estamos presentes em lugar nenhum. Tempos nos quais estamos na subida ou na descida de um ciclo de dopamina», refere o cientista.

Nada disto é por acaso. «O som de uma mensagem nova no Facebook cria o desejo de ir ver o que se passa. As empresas sabem o que estão a fazer. Há a ânsia de ir espreitando e é difícil resistir a esse apelo», reconhece Tiago Lapa, professor de Sociologia e Comunicação da Escola de Sociologia e Políticas Públicas do Instituto Universitário de Lisboa.

Na fotogaleria em cima tem algumas orientações para usar as redes sociais com cabeça

«As redes sociais tocam nas necessidades mais básicas do indivíduo: de reconhecimento, de sociabilidade, de manter sentimento de pertença». Nesta altura, refere, nem os próprios cientistas estão cientes do impacto que as redes sociais digitais podem ter. «Têm potencialidades enormes e permitem fazer coisas fantásticas», mas a literacia é essencial. «É importante informar as pessoas dos potenciais impactos negativos a vários níveis, e fazer face a esses desafios».

Nicholas Carr, autor de livros como Os superficiais ou O Google está a tornar-nos estúpidos? e finalista do Pulitzer em 2011, tem vindo a defender que as novas tecnologias estão a comprometer a capacidade de atenção, concentração e até a memória dos utilizadores.

Segundo o cientista Manuel Pita, a capacidade de foco é, efetivamente, uma das áreas que está a ser afetada pelo uso das redes sociais. «Um estudo recente feito na Universidade Aalto, na Finlândia, argumenta que o tentar completar várias tarefas ao mesmo tempo diminui a produtividade, particularmente em tarefas que dependem de informação temporal», diz o professor da Universidade Lusófona.

Imagine que está a escrever um e-mail e, durante esse período, interrompe a tarefa para abrir várias notificações. Ao ser forçado a passar de uma tarefa para a outra, o cérebro «acaba por ficar sobressaturado, com efeitos importantes na memória de curto prazo, concentração e atenção».

Já a autoestima pode ser afetada de duas maneiras. «O feedback positivo que se obtém através das partilhas em redes como o Instagram ou Facebook permite ao indivíduo obter informação de múltiplos observadores que validam os seus gostos e interesses, reforçando que aquilo que valoriza é o que realmente é importante e apreciado por muitos», esclarece o psicólogo João Faria, coordenador do núcleo de intervenção no uso da Internet e das Telecomunicações no PIN-Progresso Infantil.


FOMO, o medo de ficar de fora: Descrito pela primeira vez no ano 2000, o Fear Of Missing Out – FOMO (medo de ficar de fora, em português) adquiriu proporções maiores com o crescimento de plataformas como o Facebook e o Instagram. «Representa uma possível perturbação da ansiedade por se sentir que está a perder interações importantes nas redes sociais», explica o psicólogo João Faria. Como existe o medo de perder um evento, um momento especial que está a acontecer noutro sítio, é reforçada a necessidade de se estar permanentemente conetado, a atualizar feeds. «Acredito que este fenómeno se vai expandindo à medida que as redes sociais se diversificam e alcançam mais necessidades humanas. Este é um risco maior no futuro», considera o psicólogo.


Por outro lado, quando existem «mensagens de ódio e de invalidação de um grande número de observadores», pode haver um impacto negativo na autoestima do indivíduo, que sente que os seus gostos e interesses não só não são partilhados por outros, como também são alvos de crítica.

Existem estudos que relacionam ainda uma utilização intensa das redes sociais com um maior isolamento, solidão e até depressão. «Mas o que explica o quê?», questionam alguns especialistas. Na opinião de João Faria, «o conceito de solidão tem de ser redefinido. Nunca se comunicou tanto como na atualidade. Porém, fica a dúvida se este aumento de frequência da comunicação vem superar a necessidade humana de companhia».

As crianças e adolescentes são um grupo particularmente vulnerável. Para a comunidade científica, duas horas por dia deverá ser o tempo máximo de interação, mas o psicólogo diz que, mais do que o tempo, importa a periodicidade, pois, se houver interação diária, criam-se hábitos, que podem levar a dependência.

Um estudo publicado recentemente no Psychological Science, jornal da Association for Psychological Science, concluiu que quando os adolescentes veem um grande número de likes nas suas publicações são ativados os mesmos circuitos cerebrais que são estimulados quando comem chocolate ou ganham dinheiro.

Através de ressonâncias magnéticas, os investigadores atestaram que havia uma forte ativação de uma parte do corpo estriado, chamada núcleo accumbens, que faz parte do circuito de recompensa do cérebro. Por isso, não admira que queiram passar cada vez mais tempo ligados.

A empatia estará a diminuir?

A empatia é outras das capacidades psicológicas que poderá ser afetada quando existe um uso bastante ativo das redes sociais. «Por exemplo, o contacto físico entre duas pessoas tem um poder de criação de empatia seis vezes maior que um like no Facebook. Mas, ainda assim, o like pode ter um grande valor como ferramenta de criação de empatia virtual», adianta Manuel Pita. No caso dos videojogos – «que podem ser vistos como outra forma de rede social» -, a utilização excessiva está associada a um efeito claramente negativo na empatia.

Nelson Zagalo, professor de media interativos na Universidade de Aveiro e fundador da Sociedade Portuguesa de Ciência dos Videojogos, não nega que possa haver uma diminuição desta capacidade psicológica. «Isso está muito relacionado com o isolamento do outro e com o contacto apenas por via tecnológica, que filtra demasiados indicadores que permitem que a empatia aconteça. Não havendo contacto face a face, é natural que ela decresça. Mas daí a dizer que isso vai alterar comportamentos, é um salto muito grande».

Duas horas por dia é o tempo máximo de interação eletrónica recomendado para as crianças

Sempre que surge uma nova tecnologia que rouba tempo às pessoas, tende a haver algum alarmismo. «Existe impacto, mas faz parte. Cada meio trabalha e desenvolve ferramentas para manter as pessoas agarradas», diz o professor universitário. O mecanismo é semelhante ao da televisão, mas mais apelativo, porque há uma maior interação: as pessoas partilham, discutem, dão opinião. O problema, diz o docente da UA, é que os utilizadores não se dão conta do tempo que passam nas redes sociais. «Funcionam como espace», frisa, destacando que usa aplicações que lhe bloqueiam estas plataformas no horário de trabalho.

Nas redes digitais, os utilizadores procuram sobretudo confirmar as suas próprias convicções. «Quando a informação confirma ou diz o mesmo que eu penso, sinto-me bem, confortável. Funciona como uma recompensa da forma como interpreto a realidade. Se vejo coisas que não gosto, fico perturbado. Isto cria os chamados efeitos bolha», explica Zagalo. Com uma maior conectividade, seria de esperar que a sociedade se questionasse mais, mas isso parece não estar a acontecer, o que está a motivar investigação nesta área.

A estudar a forma como as histórias com impacto global são contadas nestas aplicações, Manuel Pita explica que «no início das redes sociais, o algoritmo de apresentação era cronológico, mas nos últimos anos a maioria das redes sociais mudou para um algoritmo que apresenta os posts ‘mais relevantes’ primeiro de acordo com vários critérios». No contexto de diálogo político nas redes sociais, este mecanismo «favorece a emergência de pólos, e inibe a heterogeneidade de ideias discutidas».

O online vale menos?

A cada segundo, onze novas pessoas criam contas nas redes sociais. Só em Portugal, há seis milhões de utilizadores do Facebook. Enquanto vozes como as do seu criador, Mark Zuckerberg, procuram destacar o lado positivo deste tipo de ferramentas, alguns ex-funcionários da empresa desconectam-se e criticam-na. Justin Rosenstein, criador do botão «gosto» decidiu apagar todas as redes sociais, alegando que lhe ocupavam uma boa parte do dia, o deixavam alheado do mundo real e o distraíam; Sean Parker, ex-presidente do Facebook, acusou a plataforma digital de «explorar vulnerabilidade humana»; e Chamath Palihapitiya, antigo diretor-executivo da plataforma, acusa as redes sociais de estarem «a destruir a forma como a sociedade funciona», naquilo que classifica como um «problema global».

«Se calhar perceberam que abriram uma caixa de Pandora. Perceberam no que estão a mexer. Quando Mark Zuckerberg criou o Facebook, nunca imaginou a dimensão que atingiria e como poderia mexer com a vida das pessoas», afirma a neurocientista Isaura Tavares.

Mas nem todos os efeitos são negativos. A exclusão social, que ativa as mesmas áreas do cérebro do que a dor física (o córtex insular anterior e a ínsula), pode, segundo a presidente da SPN, beneficiar do uso destas plataformas digitais. «Uma das tendências da investigação é ver em que medida o uso de redes sociais pode diminuir a ativação dessas áreas», adianta.

Sherry Turkle, socióloga americana do Massachusetts Institute of Technology, alega que as redes sociais fizeram com que se perdesse «a parte humana, crua» de estar com o outro. Considera que sociabilidade online tem menos qualidade. «Não é necessariamente assim. Até pode ter efeitos positivos nas pessoas que sofrem de ansiedade social e que encontram ajuda no online. No geral, os estudos demonstram complementaridade entre as duas sociabilidades», diz Tiago Lapa, acrescentando que sobretudo nas gerações mais novas, não há distinções entre relações online e offline.

O que está a mudar é, no entender do sociólogo, a forma como os conceitos são agora percebidos. «As categorias de amigos, privacidade e atividade estão a alterar-se. O que há 10 anos era um ato privado, tornou-se público ou para um círculo de mil amigos no Facebook».


Síndrome da vibração fantasma: Robert Rosenberger, professor do Instituto de Tecnologia de Geórgia, nos EUA, diz que é uma espécie de «alucinação» causada pela ansiedade. É a sensação que os utilizadores de telemóveis têm de que os dispositivos estão a vibrar, quando na realidade isso não acontece. De acordo com os estudos feitos nos últimos anos, é um fenómeno bastante comum, mas não é percebido por quem o sente como sendo preocupante. Uma investigação feita em 2016 revelou que 80 por cento dos utilizadores já passou por essa experiência pelo menos uma vez.


 

Gestor de redes sociais de um grupo com mais de seis milhões de fãs, M. (que prefere manter-se no anonimato), recusa-se a usar redes sociais, sobretudo por questões de privacidade. «Quem está na área, conhece as manhas. Sabemos como as redes sociais fazem dinheiro à custa de anúncios. Sabemos o tipo de segmentação que é feito para que os anunciantes comprem». Além disso, «tudo o que é dito nas redes sociais fica registado para a posteridade». A trabalhar na área dos media há dez anos, M. não acredita «que as redes sociais alterem assim tanto o comportamento, mas a internet permite circular a informação de tal maneira, que estamos a dar informação sem noção do risco que corremos».

Por agora, parecem não existir razões para uma diabolização das redes sociais, mas é urgente a criação de conteúdos educativos para que as pessoas saibam como funciona o cérebro, quais os riscos que correm e como fazer uma melhor utilização das plataformas.

Sobre a ciência, uma revisão publicada na Cell Press concluiu que a investigação das redes sociais na área das neurociências ainda está na infância. Tal como aconteceu com o tabaco, ainda é cedo para perceber os seus efeitos.

Como as redes sociais atuam no cérebro?

Córtex visual: Quando vê uma foto com uma grande quantidade de gostos, há uma ativação do córtex visual. Isto quer dizer que o cérebro presta mais atenção a conteúdos que têm maior aceitação social.

Substância negra: Sempre que alguém faz um comentário ou um gosto em algo que publicou, aumentam os seus níveis de dopamina, um neurotransmissor produzido na substância negra do cérebro, que aumenta a sensação de prazer e de bem-estar.

Ínsula: A exclusão social ativa as mesmas áreas do cérebro que a dor física, nomeadamente a ínsula. Em alguns casos, as redes podem ajudar a combater essa exclusão, porque quando as pessoas se ligam a outras, diminui a ativação dessa zona.

Amígdala cerebral: Um maior número de amigos nas redes sociais tem vindo a ser associado a uma maior a densidade da massa da amígdala – grupo de neurónios relacionados com a gestão das emoções. Isso também acontece com as interações offline.

Lobo temporal medial: A variação no número de amigos do Facebook faz aumentar significativamente o volume de massa cinzenta no lobo temporal medial esquerdo, no sulco temporal superior direito e no córtex entorrinal direito

Junção temporo-parietal: Quando vê um conteúdo que acha interessante, há uma ativação de uma zona do cérebro que se chama junção temporo-parietal. É isso que o leva a voltar a partilhar e, por isso, é responsável pelos posts virais.

Corpo estriado: Um elevado número de gostos leva a uma ativação de uma parte do corpo estriado – o accumbens – que faz parte do sistema de recompensa do cérebro.


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